Do cesto, João fala:

 – Agora somos nós. Eu, você e o seu duplo, menino.

 O menino e seu duplo voltaram de onde vieram. Da arquibancada da quadra da memória voltaram. De lá, vieram tomar sorvete. Era verão de novo.

 João falou, porque ouviu. Ele aprendeu com Clarice que, embora não mais nos contos, nem te conto, fora da reunião de contos, por ver João de fora, falar daria a ele uma medida. Clarice deixou que ele se medisse. Depois de meditar, se medir, se achar, João pode nele mesmo se encaixar.

Na arquibancada da quadra o menino disse a seu duplo:

 – Tenho 7 anos. Dos meninos todos daqui deste abrigo sou o mais velho. Dos homens velhos, o mais moço. Mas não sou o Moço Loiro. Sou o moço lírico, o moço velho, o Conde Lopo.

Embora não soubesse que o sexto conto, conto de João ficar no cesto, era uma história em que o escritor dos seis contos da série, do conjunto, da reunião, do agrupamento seria personagem, ele dizia para nenhuma galinha, para si mesmo e para quem o lesse:

 – Nesta história sou personagem.

Ele contava sobre o calçamento da rua daquele conto e do que havia antes do calçamento. Os cinco contos anteriores. Os cinco contos dos interiores. Dele, do galo, da galinha e dos outros.

 – O que foi que João disse?

João não disse nada demais. Não disse nenhum despropósito, nenhum açoite.

O galo foi ao pé da casa de Clarice. Pegou um megafone e disse para ela e para quem mais ouvisse o que ele disse. Disse o que disse. Disse que não, que não, que não.

João continuou falando:

 – Não é o que não é, o que não é, o que não é o que … o que não pode ser.

Clarice nem deu as caras para ouvir João. Como havia ido embora dos contos todos e deste outrora vindouro, João falou sozinho, mas quem precisou mudar mesmo de receita de pão foi Clarice. O galo não.

Depois de deixar o pé da casa da galinha, João largou o megafone. Disse o que disse depois, principalmente, coisa dele mesmo. Era uma posse, um tomar conta, um apropriar-se dele mesmo. Era tão intenso isso que o dia em que isso aconteceu o dia nublou. O sol ficou envergonhado de iluminar menos do que o que acontecia a João.

O galo não contara uma mesma história sempre, nem dividida em seis vezes, como pensava a oposição a ele, a leitora exigente. Não contava sempre a mesma história como pensava Clarice.

Disse o que disse a si mesmo, pois com ele estava. Não que não precisasse do outro, mas justamente podia ter ao outro, escolher o outro, não necessitar em desespero, nem rejeitar desesperadamente.

João havia ficado calado, atento enquanto Clarice falou anteriormente, antes de sair dos contos. Agora era a vez dele de falar. Pela primeira vez ele falaria nele mesmo, por inteiro, na íntegra, sem interregno, nem intervalo, nem partições.

O galo tomara de si mesmo. Bebera-se. Estava apropriado. Era um João de João apropriado. Quis dizer em seu discurso ao megafone que não ter não ter não teria. Disse a Clarice, mesmo que ela não ouvisse o que ele dizia que ter não tendo não era para ele. Ele assim não queria. Ter sem ter João não dava conta. E dizer foi necessário como se ter ido embora dele (e de Clarice) fosse necessário para voltar a si mesmo.

João vivia o momento presente como em uma história do tempo presente, de longa duração, ou longuíssima. Ao contrário do que pensavam João não era um galo passadista. Era um galo presentista.

O galo ligou os pontos, no conto de ligar os pontos, contou conto novo no conto de contar conto novo, contou conto de novo no conto de contar conto de novo, ficou quieto no seu canto no conto de ficar quieto no seu canto, contou conto nada novo no conto nada novo, até conto nunca mais conto ele contou no conto de nunca mais conto. Agora, no sexto conto, conto de ficar no cesto, João faz um movimento de dentro para fora, dele com ele mesmo, João fica no cesto até decidir sair dele.

João faz um desenho interno. Não foram pontos aleatórios juntados outrora, nem ligados do lado de fora. Não à toa foi para o cesto. Ficou no cesto.

O cesto é o aceitamento. A resiliência. O processo de luto em franco desenrolar. O processo da perda.

João aceitou o que era o que não era e o que podia e não podia ser. Não era da receita do pão o interesse do galo. Como disse quem precisou de nova receita de pão foi Clarice. Logo ela que não ouviu o que João disse. João se interessava pelo pão. E em fazer e em comer o pão.

Fazer o pão era importante, mas a receita fosse qual fosse se trocada ou perpetuada não era o interesse para João.

O cesto balançava. O cesto era um balanço, era o sexto, mas era também cesto de pão. João entendia certos lugares de certas coisas. O que o galo disse não o tornou pedra, nem estátua de sal quando para trás olhou e viu o que tinha dito. Ao contrário, João desempedrou-se. O que João disse o tornou mais João, mais galo. Mais pleno de si mesmo.

No balanço do cesto, quase ao findar o sexto conto e ao findar desses seis contos, no céu daquele lugar, da Granja do Morro da Granja, um cometa passou deixando a seguinte pergunta:

 – O que somos, a não ser nós mesmos? O outro, quando podemos.

No cesto do sexto conto o galo ficou. João sabia sobre as diferenças. Mas também sobre a variedade e a diversidade das coisas. Sabia o galo que a grande questão era a da convivência. Essa ciência. No cesto ele ficou. Ficou tanto que até cansou. Era outro e era o mesmo quando do cesto levantou, quando do cesto resolveu sair.

Quando João saiu do cesto e veio no sexto conto morar, Clarice não era mais Clarice. Clarice era um sétimo conto. Conto de cantar o novo. Conto que João não mais contava, nem dava conta. Nele, Clarice era a galinha Gabriela, mas quem conta dela não sou eu, nem Clarice, nem Bethânia. Quem conta dela é Gabriela, a galinha Ga, a galinha Bela. Outros contos contam dela. Outras novelas.

Este conto é o que conto, não outro. Seis os contos do galo. Seis foram os contos. No sexto e no cesto ficaram estas histórias.

Gabriela era bela. Era Ella Fitzgerald. Não era cravo, não era canela. Dela nada sei, dela nada conto.

João ficou com a sensação de que perdeu anotações para seu texto. Desse modo, o conto foi o que conto. Foi como conto. O galo não contou mais conto porque não tinha contos nem nas mãos, nem no bolso.

João não teceu sozinho nenhuma manhã, mas a rede de seu cesto, o lastro de sua vida. E foram andorinhas sua lida. Nem Gabriela, nem Clarice. Seu peito-pasto foi para canção.

Se João viveu ou se morreu ninguém sabe, ninguém viu. Ele é um galo, ele é um galo. Uma festa de São João.

 – Falar João falou, mas quem escreveu fui eu, o Sr. Seu Pinto, que disse um verso bem bonito, disse adeus e fui embora.

 

 

 


NOTAS

[1] Este conto encerra a segunda fase da Coluna Benjamin. A partir da próxima publicação, inicia-se a terceira e última fase. A primeira fase se compõe dos 10 primeiros contos (“10 Contos Adjuntos”). A segunda, dos “Seis contos do galo”.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Fotografia de Eduardo Sinkevisque. Capa do livro por Edu Dieb