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Crônicas, contos e ficções

Conto de Primavera

egeo

Se conheceram no Real Gabinete Português de Leitura, vizinho do Teatro João Caetano, bem no centro velho do Rio. Aquela região é lugar de casas centenárias e calçadas que viram a nobreza imperial desfilar, porta de entrada do centro de comércio mais conhecido da cidade maravilhosa, o Saara.

Era início de primavera, estação em que os sonhos encontram a esperança e o ar se matiza de arco íris, o amor está no ar. Mas os motivos para estarem ali não podiam ser mais distintos. Ele era um explorador nato, não perdia a chance de conhecer novos recantos e aquele lugar era simplesmente irresistível. Ela era apaixonada por livros, em especial os antigos, de lombadas espessas e detalhes dourados. A identificação foi imediata, inclusive porque ambos moravam na mesma vila, na Rua do Lavradio, quem diria! Como nunca haviam se encontrado?  Mas isso pouco importava, o mundo era desse jeito: os encontros não se adiantam e nem se atrasam, estão sempre em dia com a hora marcada pela roda da fortuna. E como o tempo é mesmo relativo, sobretudo quando suspenso, não foram necessários mais que uns minutos de prosa para sentirem-se como velhos conhecidos. A admiração fora instantânea, recíproca e arrebatadora. Ela, encantada com o espírito aventureiro dele, conhecedor dos quatro cantos do centro da cidade e talvez por ser bem mais velho. Os velhos tem seus encantos, mas apenas para os jovens, curiosamente. Ele, impressionado com os gostos requintados dela, curiosíssimo para conhecê-la mais. Que os jovens são fascinantes, ainda mais para quem não pode retornar no tempo. E ela era das mais interessantes, mencionava autores, sabia de histórias, recitava poemas, citava Machado de Assis, Simone de Beauvoir. O tal do Machado era um nome que ele já havia ouvido em algum canto, a Simone achou que fosse a cantora que gravou “Então é Natal”. Mas ela era diferente, pensou. Ela era muito diferente…

Enquanto deslizavam pelas ruas do centro, apinhadas de gatos, rodas, solados e perigos inimagináveis espreitando a cada reentrância, ele se pegou mais de uma vez a advertindo para ter cuidado. O mundo anda muito perigoso, repetia a cada minuto. Estava apaixonado, paixão ao primeiro encontro e não resistia a aquela sensação de adolescência que retoma de supetão as rédeas da vida. E ela, maravilhada com todas aquelas mesuras. Mas não era apenas culta, tinha o senso de humor típico dos seres com inteligência elevada e, muito brejeira, ia se colocando em situações de risco só para, em seguida, se deliciar com as reações de atenção que ele lhe dedicava, tão enlevado que nem se dava conta da peraltice. Aliás, não se apercebia de nada além do encanto produzido por ela, enfeitiçado pela magia de primavera que pairava naquele encontro inusitado.

Ele não tinha a menor pressa em terminar aquele encontro e sentia que havia nela uma cumplicidade silenciosa que o autorizava. Dali até a vila velha, onde residiam, havia bastante chão. Quem conhece o centro do Rio sabe que chão pela frente é passeio que une passado, presente e futuro, e estímulo para os sentidos, sobretudo de casais apaixonados. Transeuntes passando apressados, camelôs de tudo que é canto do planeta, lojas de ramos diversos, casarões antigos, trambiqueiros, apostadores de bicho, mulheres de vida difícil e destino incerto, moradores de rua sem vida ou destino, “cracudos” invisíveis. E os sons, cheiros, aromas e cores vindos das lanchonetes e bancas de frutas. Ao passarem pelo Largo de São Francisco ele lhe mostrou o prédio velho da antiga Casa Cruz, que fora a papelaria mais antiga do Rio por décadas, salva vidas de uma legião de artistas que só lá encontravam materiais de desenho e pintura importados. Se gabou de ter entrado inúmeras vezes no velho casarão e de conhecer cada centímetro do prédio, que outrora fervilhara de clientes mas, agora de portas cerradas, transmitia um sentimento de nostalgia de um tempo que não volta mais.

– Sabe querida, a Casa Cruz é símbolo de um tempo em que o mundo extinto, feito de tinta, cheiro de madeira e sonhos impossíveis. Uma pena que você não a tenha conhecido.

Ela sentiu o peso das palavras dele e, sobretudo, de ter sido chamada de querida, mas de uma forma tão gentil que aqueceu-lhe o coração.

Seguiram então pela Rua da Carioca, a mais carioca das ruas, outra tão maltratada, esquecida. Ele foi-lhe relatando aventuras vividas ali também. Não resistia ao impulso de se exibir sem comedimento.

— Hei, vamos passar por dentro do Campo de Santana, você gosta de lá?

Os olhinhos dela faiscaram, de fato amava aquele lugar. Era um oásis verde e pulsante de vida e natureza, um contraste com tanto asfalto, concreto e aço. E foi a vez dela de falar:

— Você sabia que a república foi proclamada lá? É um local histórico!

Ele ficou mudo e ela percebeu o constrangimento. E arrematou:

— Um dia te conto as histórias do Campo de Santana, cujo nome de verdade é Praça de República.

Agora foi o coração dele que se aqueceu. Ela disse “um dia”, pensou. Então haverá outros dias… e sorriu por dentro, explodindo silenciosamente de felicidade.

Atravessaram o Campo, passeando por dentro da vegetação rasteira e se divertiram caçando alguns insetos, brincando de esconder na folhagem. Viram as cotias e, bem de longe, os gatos. Ele aproveitou para recomendar todo o cuidado com os gatos. Mas ela nem ouvia, excitada com a aventura.

Na verdade, ela quase nada havia passeado pelas ruas do comércio, pouco saíra de perto do casarão caindo aos pedaços em que residia e viera ao mundo. Casarão velho, antiquíssimo, do Império ainda. Ele não perdeu a oportunidade e se comprometeu: na primeira chance iria mostrar-lhe mais ruas cheias de vida no Saara, o centro comercial mais popular da cidade, infestado de lojas e petiscos deliciosos despencando dos balcões das lanchonetes dos árabes, turcos, libaneses, gente de outras terras que havia construído aquele lugar muito tempo atrás. Quibe, esfiha, pão árabe, tahine, todo tipo de iguaria que dificilmente chegava à pobre vila onde moravam.

O tempo, em sua relatividade frequentemente inoportuna, passou voando. Os primeiros sinais da noite já se faziam notar. Era hora de retornar à vila. Atravessaram o portão lateral do campo que fica de frente para a rua Buenos Aires, e tiveram que esperar que o VLT terminasse de passar. Um monstrengo de aço e vidro, pesando toneladas, que rangia feroz.

A partir daquele ponto toda a atenção se fazia necessária, era uma região bem perigosa para os dois e ele, zeloso que era, sabia de sua responsabilidade. Muitos amigos haviam perdido a vida ali, pisoteados, atropelados, esmigalhados ou despedaçados, fosse por rodas, solas de sapatos ou pelos gatos, que não perdiam chance de transformá-los em divertimento. Gato é bicho malvado, pensou.

Ofereceu-lhe o braço, que ela segurou com força, piscando um olho — deu o sinal:

— Vamos!

Rapidamente ganharam o asfalto, correndo como loucos sem sequer olhar para os lados, os corações palpitando, mas agora de susto. Atravessaram os trilhos, a calçada que os separava da rua asfaltada e já se encontravam quase no outro lado da rua, prestes a alcançar o meio fio. Mas Primavera nem sempre é só felicidade e flores, arco íris e esperança… às vezes tristeza, saudade e melancolia. Num relance, ele percebeu a sombra de uma bicicleta surgida do nada, do nada… E seu coração de sangue frio disparou, quase saltando de seu peito verde musgo, ao se dar conta de que a roda dianteira da bicicleta furtiva iria passar exatamente sobre sua amada. Num gesto desesperado fez um movimento rápido, e conseguiu empurrar sua flor de primavera para fora do alcance da roda assassina. Mas, para sua desgraça, na ânsia de salvar a namorada esqueceu-se de si, que o amor tem dessas coisas, faz perder-se de si mesmo. Para desespero, agora dela, quis o destino que a roda traseira lhe esmigalhasse a cabeça.

Pobre lagartixo apaixonado… infeliz lagartixa, caída em prantos. Tão jovem, tão linda, culta e juvenil, viúva antecipada num triste fim de tarde primaveril.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: egeo

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