Da galinha Bethânia a seu auditório de pintinhos e de franguinhos da granja:
– Pensei ter perdido o menino. No entanto, ele está ali nas luzes acessas da cidade, no lampião da aldeia. No entanto, ele cisca e canta com a galinha Clarice e com o galo João na granja do Morro da Granja.
– Quando é que acaba?
Perguntou o menino, mal tinha começado a história. O conto depois de muitos anos sem.
– Como é que acaba?
Perguntou o duplo do menino em meio à história já começada.
Era a galinha Clarice e o galo João em dia de João visitar Clarice. João subira o morro que dá no alto da casa de Clarice com certo esforço e sacrifício. Ele sabia que suas pernas mirradinhas, murchinhas, muxibinhas não ajudavam. Sabia também que valia à pena aquele esforço, que não era sacrifício, era desejo e trabalho …
– Falta muito?
Indagaram menino e seu duplo já em plena história.
E todas as criaturas eram assim em Osten, lugar em que se vivia entre pautas, linhas, folhas de cadernos, de agendas, de diários. Eram criaturas pautadas pelos outros. Algumas delas por si só, por si mesmas. Outras pautadas pelos outros.
O menino e o duplo do menino estavam pautados por eles mesmos. Estavam sentados na arquibancada de uma quadra poliesportiva de um ginásio de escola:
– Quando este sorvete acaba?
Perguntou o menino com a boca suja de chocolate gelado.
Seu duplo respondeu a ele:
– Sorva dele o suficiente. Sorva os nós de nós mesmos, nossos novelos.
Eram ruas, avenidas, estradas. Hoje aqui, amanhã ali. Depois de amanhã, que Deus saiba!
Conta Bethânia que a galinha Clarice sabia fazer muitos pratos deliciosos. E que sua casa era muito arrumada. Era feita de madeira e de tela de arame muito amarrado, de trançado miúdo e bem-feito. Não era uma grade, era uma tela que apenas as boas galinhas sabem trançar, onde sabem morar. Tinha uma varandinha, um avarandado com uma vista muito linda lá de cima da casa de Clarice.
A galinha Bethânia diz também que, lá de cima, se via a casinha do galo João. Pequena, mas muito limpinha era a casinha do galo.
Clarice era enfermeira, João era pedreiro. Ela era leitora, para além de cuidar de pintinhos menininhos novinhos. João não lia quase nada. Era construtor.
O menino, nesta história contando-se, contava-se. Chorava muito. Seu duplo muita lágrima enxugava.
– E quando é que começa a história? Onde voavam?
Perguntaram as nuvens do alto do morro onde Clarice morava.
– A história já está começada. Começa mesmo quando acaba. Do jeito que acaba. Espere, aguarde. O fim da história chegará quando for uma boa hora, que não agora.
Responderam as asas de todos os bichos que tem asas, de todos os bichos que voavam.
O menino e seu duplo estavam na arquibancada de uma quadra de esportes de uma escola. No mundo show eles viviam. No mundo do espetáculo eles moravam. Eram selfies, perfis, exposições, exibições e várias outras maneiras de se mostrarem, de terem suas vidas invadidas, vigiadas.
Um olhou para o outro. Nesse olhar se juntaram. Menino e duplo é que a história, conto, contavam agora, com o canto de um galo rouco ao fundo e com uma chuva miúda que engrossava o tempo todo, durante a história. Por meio do menino e de seu duplo a história ficou agora unificada.
Era uma vez um poeta apaixonado, um galo chamado João. Era uma vez uma leitora severa, uma galinha chamada Clarice. Por Clarice o poeta era apaixonado. Por João a leitora severa era apaixonada. Era uma vez um eco, um espelho, uma paridade, uma equanimidade. Nas linhas eles se equilibravam, identificando-se.
Era uma vez outra história, de paralelas histórias, entre linhas equilibradas. A leitora severa pelo poeta era apaixonada.
– Quer entrar João? Tem fome? Já almoçou?
Perguntou Clarice quando viu o galo na porta da entrada de sua casa.
O galo disse-lhe que ainda não havia almoçado e que àquela hora sua fome vinha do Canadá. Sua fome era imensa, era enorme. Muita casa havia construído. Foram tijolos carregados, empilhados, areia, cimento e água que ele havia misturado por muitas horas, muitos dias, muitas jornadas, muitos diários.
Toda vez que o poeta e a leitora se encontravam, pedras no chão eles pousavam. Toda vez que eles se separavam, que se afastavam, indo embora um do outro, as pedras do chão eles apanhavam. O poeta guardava as pedras no bolso de suas calças. A leitora na bolsa, na caixa de seus óculos. Entretanto, ambos se preservavam se conservavam como restaurações de acervos valiosos, como tesouros que eles eram e se consideravam.
Ele era papel de arroz. Ela era um tecido fino como tecida por bichos-da-seda.
– É preciso mesmo contar esta história?
Reclamou Bethânia aos pintinhos e franguinhos encolhidinhos no chão da granja.
– Quando as ações serão contadas? Se não contar não tem conto. Se não contar não tem graça. Conta vai? Conta logo essa bendita história que não é de graça.
Chorava o menino que só chorava, como a chuva miúda que resmunga o tempo todo durante a história, e engrossa-engrossa de engrossada.
O poeta conheceu a leitora num quintal de uma casa de uma cidade do interior. Numa festa, muitos anos depois, um olhou para o outro. Um quase piscou para o outro, decidindo-se por se beijarem. Ele não sabia que ela era severa. Ela nem o sabia poeta. Quando boca com boca se encostaram e as línguas se encostaram, começou uma chuva grande, grossa, bem diferente da garoa que faz nesta história, bem diferente da chuva que faz agora. Era uma chuva soberana, muito diferente da chuva de agora.
Sobre os dois, o lápis era macio e os desenhava no alto azul de uma montanha mágica. Não tinha mais festa, não tinha mais memória de nenhum quintal. A lua eles namoravam. A eles, eles namoravam. Eles se namoravam. Não habitavam mais no chão, ao rés-do-chão do quintal passado, no passado não mais estavam.
Clarice havia feito uma sopa de quirela com uma couve muito fresca, muito verde, muito saborosa. João da iguaria se serviu num potinho onde pintinhos comem. Comeu da sopa até ficar satisfeito.
– E agora?
Questionou a história.
Clarice disse a João que era para ele lavar a louça, mas bem lavada, porque na casa dele ele podia lavar mais ou menos, mas ali, na sua, não.
– Louça mal lavada comigo não, violão! Comigo não, João! Tá pensando que berimbau é gaita?
O galo lavou o potinho onde havia tomado da sopa da galinha e a panelinha em que Clarice cozinhara. Lavou tudo muito bem lavadinho, tudo bem direitinho.
– Não sei contar histórias.
Disse o poeta apaixonado para a leitora severa.
Conta Bethânia, agora:
– Mas construo uma história a seu lado, toda vez que de nosso amor fico ilhado, tomado, sitiado. E toda vez que uma história comigo você constrói. Não sou Heródoto, não sou Homero, nenhum Aedo me cabe ser a seu lado.
Falou o poeta apaixonado.
O poeta ainda disse que talvez coubesse, nele, Horácio para beijar a boca da leitora com os lugares médios, equilibrados. Lugares líricos de outros poetas bibliotecários.
Louça bem lavada da hora do almoço na casa de Clarice, João voltou para a varanda e puxou um cigarro de palha que já levara enrolado. João era tabagista. Muito fumava. E como Clarice não gostava de tabaco, pedia ao galo que fumasse do lado de fora de sua casa, coisa que João fazia de bom grado.
– Vamos trocar de lado?
Propôs o poeta apaixonado à leitora severa.
– Faremos um exercício, uma experiência. Não de você ser eu, nem eu de ser você, mas de nos colocarmos um no lugar do outro. Que acha?
Era uma vez uma leitora apaixonada por um poeta severo. As nuvens se dissiparam. Turbulências não mais os atormentaram, não mais os incomodaram, não mais os atrapalharam. Não que não existissem, mas com elas eles souberam lidar.
O sorvete sorvido do início da história voltou aos ingredientes de seu preparo, aos ingredientes o sorvete foi devolvido. O menino não era mais um menino ferido. Unido com seu duplo, munido e sortido, era agora um menino único, singular, guardado.
O galo João disse à galinha Clarice que assim que terminasse seu cigarro, à lida voltaria, descendo a ladeira de volta para sua casa. Avisou que se ela quisesse, ele voltaria a ter com ela. Ele a visitaria outra e outra vez, mesmo correndo o risco de subir o morro de sua casa. Mesmo com pernas mirradas, murchinhas, muxibinhas que estavam. Mesmo sabendo que descer era mais difícil, porque voltar sempre era difícil para ele, pois ao contrário do que se pensa descer aquela ladeira era mais perigoso do que subir. Exigia de João mais força nas pernas do que ele tinha.
Ao descer, João cantou para Clarice que se ela deixasse, ele iria sempre contar para ela de como escapou da cilada, de como deu a volta na armadilha. Se Clarice quisesse, a ela daria a mão e ouviria dela ela dizer da canção que mais diz dela. Ele iria contar e ouvir de como a história que hoje foi fábula de era uma vez pareceu a ele ser verdadeira de uma vida inteira. Se ela quisesse, ele aprenderia a jogar xadrez, aprenderia a ser português, aprenderia a amar à portuguesa, apenas para estar com ela outra e outra vez. E se ela reparasse, percebesse, entendesse, o silêncio dele não seria sacrifício, seria o seu ofício de entendê-la.
Clarice e João se entenderam. Final feliz não teve, mas houve eles e aos outros. Teve a delícia, o sorriso, a risada, a gargalhada de asas abertas, e deles o voo prazeroso. Teve menino e seu duplo no sorvete unificado, Bethânia que narrava.
Nada mais gostoso que uma história de outrem que nos conte. Afinal o que somos? Afinal a que nos destina sermos o que somos se não sermos o outro?
Foi-se a história, sendo muitas histórias. E dela, menino, seu duplo, galo e galinha não mais necessitaram. Precisaram o que eram eles mais um pouco, os outros.
O conto se deu por contado. Poeta e leitora se deram por satisfeitos. Clarice disse estar bem para ela assim como João cantara. E descendo João foi cantando com sua voz de galo tabagista, enfisemático, uma voz muito grossa, muito rouca.
Num dia de céu muito azul, viram poeta e leitora os adjetivos que os qualificavam ir embora nas águas de um riacho. O espelho d’água daquele aprazível lugar escrevia seus nomes não despojados de complemento ou de significado. O espelho d’água era feito com as lágrimas derramadas do menino e por meio da chuva que hidratou esta história na qual menino, seu duplo, galo e galinha viajaram.
– Então, pintinhos e franguinhos vocês gostaram da história?
Perguntou Bethânia.
– O que vocês querem beber agora?
Um dos pintinhos respondeu que iria beber um futuro que não sabia se iria existir, mas a certeza de um agora que sabia haver.
– Vou beber o que nunca bebi. Vou beber da boca da senhora a melodia da voz que fez história.
A galinha Bethânia parecia nazarena. Suas penas eram longas, Cristianas, cristãs. Mas também eram penas do candomblé. Na igreja dela, templo era quintal, era granja. O andor da santa e o salto da mundana era o terreno daquela história. Calçado para ela era metáfora. Ela só andava descalça. Ele era Cristiana. Nazarena, cristã. Filha de Iansã, mas nela Oxum também cantava. Ela tinha um dom. Ela tinha voz, por isso narrava, galinha chocadeira que chocava histórias, como esta história de agora.
Deus deu para Bethânia esse dom: a voz que nela contava e cantava. Ela era samba de Batatinha, samba do irmão, mas também de Chico Buarque, de Adoniran, de Vanzolini. Ela era oradora não pelo que falava. Principalmente, por aquilo que não falava, por esta história agora contada.
Ela cantava, falava, declamava. Ela lia, mostrava aos pintinhos e franguinhos vida dos outros, porque vida dos outros era o que interessava, era vida deles também. Era a vida deles agora.
Bethânia via, mas era oradora. Principalmente, pelos gestos quando cantava, quando falava, quando declama.
Ela era flor do corpo. Ela era flor da fala. Bordados sentidos, sentimentos. Cosia para dentro, banquete para fora. Chama próxima, chama intensa, chama inteira, chama acesa: ela era a quarta parte da Retórica.
Ela cantava, contava. Tinha e fez memória, como quinta parte agora. Como ela era bonita vista, ela era Guanabara, Pão de açúcar. Ela era Barra, ela era Urca. Era Praça Castro Alves, Itapuã, Pelourinho, Barra. Era Santo Amaro, rio Subaé, Serjimirim. Ela cantava o Brasil profundo. Tudo de lá tão longe. Tudo de lá tão fundo. Dela tão dentro, de meninos e galos por dentro. Em ação, para fora, em gesto móvel, móbile, evidente foi evidente narradora desta história que, em maio ainda, acaba agora:
– João era o galo que a gente ouvia quando ainda nem era dia. João é o galo que canta agora.
Disse a narrativa indo embora.
Créditos na imagem de capa: (Kandinsky, Wassily, / AUTVIS, Brasil, 2014)
