João deixou Clarice na praia depois de ir lá ter com ela. João subiu a Serra do Mar sozinho para cantar sozinho o conto que é conto quieto no seu canto.
De três perguntas se compunha:
– Por que fiz isso comigo? O que fazer com o que fiz comigo? Será preciso?
O galo não sabia responder isso tudo, mas sabia que há algumas horas parecia mais difícil, parecia impossível. Agora era questão de tempo, questão de átimo, de un rato. Agora responder isso tudo era questão de compor conto quieto no seu canto. Era uma questão de ligar os pontos.
– Deixei Clarice na praia com todas as galinhas e galos que vimos nos dias em que estivemos na praia. Eram carijós, eram d’Angolas. Eram franguinhos e pintinhos quase desenhadinhos pelos caminhos que andamos na praia nos dias em que eu e Clarice estivemos na praia.
João subiu a Serra do Mar com o som de todos os galos que ouviu cantar nos dias em que esteve na praia. Subiu com seu cantar. E nesse canto ficou, e nesse conto estacionou até ser a vez da voz de Clarice cantar, contar.
– Vi o mar, não toquei o mar, não cisquei o mar. Estive lá, mas foi um estar e não estar.
Clarice também não mergulhara n’água. A Galinha ficara quieta, quietinha. E com os cuidados e os dispêndios do galo contara. Eles foram à praia, mas foi como se não estivessem lá. Compreenderam estar em si em qualquer lugar. Então, a praia era um porto, um ancoradouro, um intervalo para outros tempos, outros lugares.
João e Clarice foram, cada um na sua, a outros lugares. Aqui, Clarice não está. É João quem narra:
– Por que fiz isso comigo? Faço coisas comigo que às vezes me arrependo, às vezes não, mas faço coisas comigo que vêm do coração.
Era areia, água, nuvem e céu cinzento. Era barro, água, céu sem nuvem azulado. Era um dia, depois outro. Era mar. Era rio. Era estrada. Era cidade colonial.
Foram dois passeios e ela disse:
– Bem que podíamos ter trazido comidas para fazermos um piquenique.
Afinal, o que ele fez com ele assim de tão condenável? Inventara-se pouco, inventara-se menos, inventara-se pequeno. E erros ele acumulara. E de desenganos vivera. João viveu por muito tempo na vida é sonho, no mundo às avessas.
– Um dia, lá na praia, Clarice me perguntou se eu tinha visto a lua. Em meio à tarde ela surgira grande, redonda, deslumbrante. Clarice puxava conversa, queria dizer para mim que gostaria de conversar comigo.
João disse a Clarice, antes de subir a Serra, que um galo com uma dor é muito mais elegante. Então o que fizera consigo fora viver na dor, nadar na dor, voar na dor, andar na dor. E de viver na dor ele esburacara a vida inteira. E por esburacar-se se paralisara, embora construtor fosse, embora casas de tijolos fizesse. E poemas compusesse.
Como era mesmo o canto de João? Era um canto-cantinho, onde ele ficava quieto-quietinho. Lá tudo era perfeito, tudo era redondo. Não tinha pontas, não tinha aparas. No canto de João não havia conflito. Lá, ele não ficava aflito. Não havia atrito. Não havia dificuldade porque no canto em que João ficava quieto no seu canto não havia quem o contrariasse, nem quem o ofendesse. E o que foi mesmo que o galo fizera com ele mesmo?
– Eu me fiz um sujeito magoado, afeito a desafetos. Muito afetivo, sempre tive dificuldades com os afetos. Eu me inventei afetado, mas de difícil desarme. Fiz-me muito travado. E de corpos quase impossibilitado de ter contatos. No meu canto eu canto, mas sobretudo gemo.
Eram fachadas de casas, sobrados, assobradados de várias cores, várias caiadas amarelas, azuis, vermelhas. Eram árvores e praças, igrejas e ruas antigas de cidade colonial. Era um dos passeios com os quais os olhos de João e de Clarice se encheram. Foram águas, foram areia, terra, grama e pedra.
João tinha sido um galo que queria demais, por demais. Que desejava demais, por demais. E de querer demais e desejar demais muitas vezes desistia, fazia que não mais quisesse. Do querer e do desejar João fugira. Fingia que não queria. E acabava que acreditava não mais querer. Era medo de perder. E de perder o que não tinha, porque nada ninguém tinha. Nada João tinha, a não ser seu canto, seu conto no seu canto quieto-quietinho.
– O que fazer com o que fiz comigo?
No canto de João o galo ficou por uns dias. Ficou se revendo, se reavendo, se refazendo-refazenda. E tratou de andar, de dar voltas por uma antiga oval onde no passado fazia caminhadas diárias e de serotonina se abastecia. Deu tantas voltas que deu voltas na tristeza, na falta de delicadeza e na brutalidade da vida.
As voltas que João deu foram em poucos dias muitos dias como dias de um diário de caminhada. E João viu coisas e passou por coisas que fizeram fazer do que ele fez com ele uma cantiga de se cantar em despedida.
Do que ele fez com ele, ele se despediu. Como se despojasse de todo peso do mundo. Como se desmontasse de uma besta, de um cavalo em disparada. Era flor de romã abstratíssima no peito. Por dentro, vermelha, esbranquiçada como fruto do furto dos sentidos. Afetado sim, mas não ressentido. Molhado sim, mas não magoado como antes dito.
Para cuidar de si, como agora João gostava, havia que gostar de si. Era a liberdade de andar na rua. Rosto contra o vento, corpo sob o sol. Era passarinho com ninho no bico. Transparência de borboleta. Era emulação-imitação de si mesmo: aquele alguém viveu a existência, não a vida.
Enquanto fazia o que fazia com o que havia feito com ele mesmo, João pensava:
– Preciso estudar meteorologia. Preciso fazer em meu corpo a total alquimia. Ir além desses hormônios, cheirar mais feromônio. Mas sem andar, como produzir endorfina? Serotonina? Deixar a selvageria civilizatória. Que a jaguatirica em mim sorria. Que o bem-te-vi, por ser pequeno, cresça. Em amarelos febris, cante como pássaros de antes, de agora e de por vir.
Ele deixou de ser Hermes. E de hermético se abriu para todos que o quisessem. Andou cem dias de diário em apenas uns dois ou três dias. Andou até se fartar de serotonina.
Andar foi ser espartano, não ateniense. Andar fez dele um galo mais galo, mais centrado, mais contente. Andou cem dias para descansar depois feliz.
– Será preciso?
João andou triste, mas andou. Andou no extremo azul do sul. Andou numa canção do exílio às avessas. O Azul de onde estava é mais azul do que o de onde não estava. E de gostar não gostava. Por muito gostar não gostava. Era confuso. Era perdido, era atrapalhado.
Fornido o galo caminhou no cinza. Sem chuva. Depois, com chuva. Sob chuva, as cinzas eram iguais aos tons cinza de qualquer lugar. Caminhou sobre si mesmo. Caminhou num caminho de formiga. No verde molhado, na calçada de pedra, na ciranda, no baile de suas pernas.
– Quem vê o azul que vejo? Só eu? Só meu desejo? Pedrinha miudinha, ninho num lugar insegurinho, sonhei que organizava um livro. Trilha de formiga, eu fui morar com um velho na rua, como um velho na rua. No chão, uma toalha. A nos cobrir uma tenda, uma cabana. Entre nuvens brancas e cinzas e azuis, me fixei nos azuis. Brancas nuvens a dor de ontem. Memória de parquinho, ciranda.
João agora habitava lugar nenhum. Era mesmo preciso? Pensou que se talvez enlouquecesse a dor acabasse. Pensou que talvez se enlouquecesse sofreria menos, ou não sofreria. Clarice nem por isso. E ele nem sabia ao certo, nem sabia isso tudo direito. Não sabia o que diriam os médicos, nem toda a medicina. Em todo caso, o que eles, os médicos, diriam, não valeria, pois ou nunca enlouqueceram ou enlouqueceram de vez. O relato dos loucos também não seria confiável, pois lugar nenhum. Enlouquecendo ou não, nesse lugar onde o galo estava não era possível sofrer, porque no seu canto, canto de conto quieto, quentinho.
E de ficar no seu canto, João foi sentindo muito mais ar, foi se sentindo muito mais azul, muito mais inteiro. Tão inteiro ao ponto de prescindir de tudo o mais que não fosse ele mesmo, a não ser o outro, do outro lado do espelho, da calçada, da encruzilhada.
Foi ficando um amarelo sol, amarelo-ouro, amarelo cronos. Cromático João ficou. Um vibrião, o chão. E seu canto era um ninho soltinho. Ninho achadinho. Ninho carregadinho.
Na duração ensimesmada, João era um galo quieto, mas gritadinho. Queria ser mais raso. Queria ser mais simples. Queria ser mais chão. Queria por Clarice ser arranhado. Por ela queria ser bicado, porque galos namoram às bicadas, às unhadas, assim quase como gatos.
– Um dia, na praia, ela me perguntou porque me sentia tão derrotado. Mas já quase voltava para a cidade. Mas já quase a deixava de lado. Um dia na praia foi um dia de me sentir derrotado, mas já voltava. Não adiantava mais nada. Não antecipava nada que talvez tenha sido o que de pior fiz comigo.
João era un niño solito no nido un niño sozinho no ninho um menino estranho no ninho, o ovo da serpente, um estranho no ninho um menininho no seu canto, no seu conto sozinho.
– Cadê Bethânia, a oradora? Onde estão os pintinhos e os franguinhos?
Bethânia viaja pelo país, comemorando seus cinquenta anos de carreira. Os pintinhos e franguinhos estão na granja, ocupados em crescer.
Apaixonado pela elipse lacunosa João tornou-se epigramático. Formas breves, longas, demoradas formas de tortuosidade, de torturas. Apaixonado pelo eclipse, João enluarou-se lunático na terra. Foram mãos, pés, pernas brevidades na boca dissolvidas águas, mágoas, coisas sem membros, coisas da vida. Com a lua João namorava uma vez por mês. Quando redonda, cheia e vermelha ela ficava.
Um dia, antes de irem para praia, Clarice disse a João se eles não poderiam fazer fondue qualquer dia desses. Ele entendeu ser de chocolate o prato a dividir com ela. Ela quis dizer de queijo. Ele falou para a galinha que de queijo era bom também. Fariam. Poderiam.
– Acho mesmo que a gente podia.
João creu no delírio. E molhou o chão como chuva o dia inteiro, o tempo todo, o conto todo. Chuva pingava ingerida alcoolizando tripas. João creu no delírio em flor bem mais do que umedecida. Descreu do empírico. Isso ele fez consigo. E cheirava a lírio. Jasmim de Poetas da praça da Liberdade com suas lâmpadas que alumiam.
Quando João saiu de seu canto, este conto disse:
– Qualquer dia desses vai ser bom dar voz à Clarice. Deixar que ela cante, que ela bique e te arranhe as costas todas.
Da praia, Clarice disse:
– Se for para ter voz que sejam signos. Da minha boca à tua os signos se reconduzem. O nome disso é beijo, representação, circunlóquio do desejo perto, do desejo dentro do desejo denso, salsinha, coentro. Da tua boca à minha os signos se reconduzem. O nome disso é o momento perfeito, o beijo, o jeito, o combinar um com outro direitinho, direito. A você me dirijo. Boca, beijo, tempo, desejo. A você me dirijo. O nome disso não tem nome, tem a surpresa do surpreendido pelo avesso. O nome disso é isso em sânscrito. É amor dos grandes, dos antigos.
De fazer de tudo lírico foi preciso sim que João fizesse de tudo lírico. Ficar nesse conto quieto no seu canto até sarar de todo, até sarar por completo, completamente. Sim foi preciso fazer de tudo lírico. Fazer de tudo um tudo de abraço, de beijo de seu beijo, o abraço dele, um cortejo dos braços. De fazer de tudo torpe, feio, horroroso, ainda assim foi preciso fazer de tudo lírico, de tudo de um tudo tubo com polvos por dentro num aperto de lábio no lábio como esponja absorta no galo e na galinha.
Foi preciso olhar para si para ver o outro. Embora quieto, calado, sem cantar, João nesse conto quieto no seu canto reformulou a história de estar na terra. Um dia amou como não amou. Noutro não amou como amou. Da rejeição teve medo. Compôs duas histórias. Uma que ele jogou fora. Outra que guardou. Escreveu uma crônica sobre Drummond. Escreveu tempos de diários posteriores, outra crônica sobre o mesmo poeta e dois amantes. Na primeira o amor sucumbira no sentido de ter perdido as forças. Na segunda, os amantes foram deles mesmos essa lua, esse conhaque, esse sentimento do mundo grande desse jeito.
– Que bom que deu tempo! Que bom que cheguei a tempo!
Pensou João.
João é o tapete de voar para Clarice. E lâmpada, e Aladim. O verde de olhar para ela, não o verde dos olhos dela. Ele fez o que fez com ele mesmo porque foi o que conseguiu fazer. Ele colocou tudo aquilo em signo porque foi o que pode fazer. Foi preciso? Nunca saberemos. Sabemos que foi necessário, porque João era galo de ficar, às vezes quieto, no seu canto, mas de sempre fazer o necessário, o que fosse preciso.
– Fui preciso? Digo da necessidade de pôr tudo isso em signo. Digo que disse para Clarice o que disse. E o nome disso era isso em sânscrito. Era tat. O tatibitate da aquisição de uma linguagem sem dualidade. O tatibitate de gostar gostando disso e querer mais isso, e de querer o infinito.
– Isso é preciso?
João fez e desfez o que fez consigo sem querer saber por que fez isso consigo. O que fez com isso? Fez isso em sânscrito. E isso ficou em sânscrito escrito. João ficou um galo querido, um galo quisto. Em sânscrito, João ficou inscrito.
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