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Benjamin

Conto de Ligar os Pontos

Era o inverno indo embora no Morro da Granja. Ele ia. Ela, a primavera, chegava. Eram aquelas tardes quentes a se demorar, aqueles dias alongados. Clarice chegou à Granja e convocou todos para ouvi-la. Sem exceção os frangos, franguinhos, pintos, pintinhos, galos, galinhos e as galinhas e seus diminutivos também se sentaram para ouvir o que a galinha tinha para dizer. João foi o último a se sentar, mas se sentou em posição privilegiada. De onde esteve o conto todo, conto de ligar os pontos, ouviu muito bem o que Clarice disse.

Se Clarice disse, foi porque ouviu antes. Ela sempre dizia:

 – Disse, agora ouve.

Até Bethânia, a oradora, interrompeu sua excursão pelo país para voltar à Granja do Morro da Granja para ouvir Clarice a falar.

 – Tá doendo… tá doendo… tá doendo!

Gritava o menino do duplo do menino ao tirarem seu sangue para um exame.

 – Para, mãe. Para, mãe. Para, mãe!

O menino reclamava porque lhe tiravam o sangue e porque o amor não era contemporâneo, o amor era antigo, o amor era de antes.

 – Você não me ouve nada, não me ouve.

Disse o menino à mãe, que disse a ele:

 – Se chorar, apanha. Se chorar apanha.

Clarice arranhou as costas do conto. Pronto, pode falar. Pronto, conto. Enquanto Clarice falava, João ligava os pontos, costurava, suturava.

 – Tá doendo… tá doendo… tá doendo!

Gritou o menino.

Enquanto Clarice falava, fazia escolhas. Escolhia isso, escolhia aquilo. Escolhia um monte. Não escolhia nada. Clarice deixou sua casa, sua zona de conforto, e foi até a Granja do Morro da Granja dar seu recado. Era esse conto um recado de Clarice, um recado do Morro, um recado da Granja.

O que Clarice tinha para falar era muita coisa, era comprido, era demorado. Começou no fim de inverno, começo de primavera, e acabou no princípio de verão. Foram muitos meses de fala, formam muitos meses com todo o povo da Granja do Morro da Granja à disposição de Clarice, menos Bethânia que não pode interromper seu trabalho por tanto tempo. Ela acabou que ouviu o começo e o fim da fala, pois durante o meio voltou a excursionar pelo Brasil.

O que Clarice disse nem vem ao caso, a coisa, o teor, as palavras, o texto. Disse umas duas ou três coisas a seu propósito. Falou de si como se numa escrita de si estivesse, numa página de diário, como se ela fosse uma escritora de si, de diário. Afinal, ela estava em Osten.

Coisa foi que o galo a ouviu. E quieto João deixou as cristas em repouso enquanto era de Clarice todo ouvidos. Coisa foi que João viu Clarice mais galinha, mais mulher, mais humana enquanto ela falava. Ele viu a galinha assim porque ela falou. João viu Clarice mais errática, mais falha por meio daquela fala. Viu assim o que viu por meio da medida cabível daquela fala. A partir daquela fala, mesmo que tivesse sido por pouco tempo, por tempo definido, por tempo finito, Clarice passou a caber em João. Galinha e humana. João passou a caber em Clarice. Galo e humano. Até mais não.

 – Ligo os pontos, ouço, mas não sou invasivo.

Pensou João. Afinal neste conto não era hora nem lugar de João falar.

Clarice disse:

 – Preciso te dizer umas coisas. Acho que vai gostar de ouvir.

Tinha alma naquilo. Tinha ânimo. Tinha luz. E tinha cuidado, amor e desejo. João ouviu tudo aquilo dito por Clarice como se fosse a matemática do desejo. João sempre queria de Clarice mais e mais um beijo. João para Clarice sempre estava disposto. Até mais não. Até que um dia não.

Acontece que João fez muito esforço. Fez cada esforço que só vendo, que nem te conto. Fica isso para um próximo conto, quem sabe num outro conto conte essa parte do conto. Conte o que João falou depois de ouvir Clarice.

Acontece que João saiu de cada lugar. João saiu do lugar, dos lugares. João saiu de cada lugar que só saindo para ver, que só vendo, viu? Clarice era a primeira vez que saia. Inclusive que saia de sua casa para falar.

Acontece que o galo mais do que ouvir Clarice ou querer que a galinha falasse, ele queria que ela o reconhecesse, o visse, o sentisse. João queria, porque necessitava que Clarice visse e considerasse os lugares por onde ele passava. Queria que ela considerasse os lugares de onde ele saía. Era isso que João queria ouvir. João queria ver que Clarice via.

Clarice disse sobre seu lugar, sobre o lugar dela no afeto, como esse lugar era e como tinha sido e como funcionava. Disse que João teria que saber do afeto dele, do lugar dele e se posicionar.

 – Qual era?

 – Qual seria?

 – Qual tinha sido?

Franguinhos, pintinhos, galos, galinhas da Granja do Morro da Granja se olhavam sem entender o que faziam ali, naquela conversa tão privada, tão particular. Aquilo era uma jornada muito particular. Galo e galinha frente a frente.

Bethânia explicou a todos:

 – Vocês ficam aqui de testemunhas. Seus olhos e ouvidos testemunham. Eu não posso ficar. Ouçam Clarice, ouçam João, se é que João vai falar. Depois, tirem suas conclusões.

Eram perguntas que surgiam. Surgiam para Clarice. Surgiam para João. Surgiam principalmente para a audição.

João, depois de ouvir Clarice, dela se distanciou. Era para olhar para ela, e para si mesmo, de fora. Longe deles. Longe daquela situação.

O galo foi embora temporariamente na fé e com os olhos cheios de esperança. Foi também para se apropriar do que era seu. Foi abraçar a si mesmo e aos seus.

Nessa altura, pintinhos, franguinhos e os demais da Granja já estavam acostumados com a situação e também ligavam seus pontos, entendiam tudo. Fizeram uma festa que foi um rito de passagem.

Nessa altura, o resultado do exame de sangue do menino já estava pronto. Ele não era reativo, ele era não reativo, não reagente. O menino não mais chorava, nem reclamava com a mãe que ela não o ouvia.

Nessa altura, pintinhos viraram frangos, frangos viraram galos, galos-de-briga viraram galos velhos, aposentados. O mesmo movimento aconteceu com as franguinhas e com as galinhas.

Clarice disse coisas que eram como ela dizia, coisas como ela era e seria. As coisas que Clarice disse só existiam porque ela dizia. Ela nomeava as coisas que dizia. E porque a galinha dizia, as nomeava, existiam. E por ter dito, existiram, cabia o que dizer. Dizer era fundar. Clarice, então, fundava. João, por sua vez, na vez dele, fundia.

Clarice não disse a João nada que ele não soubesse. Nada que ele não quisesse ou não pudesse ouvir.

 – O que disse Clarice então?

Perguntou a audição.

 – João, você sempre teve uma história que era só história, que eram histórias. Às vezes, neurose. Outras vezes paranoia. Você quis experimentar a história sem história. A história verdadeira, mesmo que a verdade da história fosse uma verdade a ser feita junto, em parceria, a dois.

João respondeu a acusação:

 – Como um pão de especiarias que fizemos certo dia. Ele levou canela, cravo e açúcar. Poderia ter levado figos secos, mas não levou. Levou anis-estrelado e castanhas.

João queria que Clarice falasse que amassaram e amassariam o pão juntos, colocaram e colocariam a massa para crescer em fermento, tempo e descanso, para assar em fogo lento. E houve e haveria verdade naquilo. E aquele trabalho seria um encanto, um encantamento.

 – Sim.

Sinalizou Clarice. Admitiu Clarice.

Disse o que disse. E disse que fez e faria o pão com João. Dele, juntos, comeriam, porque o pão era pão e a verdade era a verdade, mesmo que construída, mesmo que assada, cozida. O pão era e não era apenas pão.

Clarice disse de suas escolhas, de suas encolhas, falando de lugares dela muito escondidos. Falou da intimidade dela. Coisas que não se revelam. Coisas que a audiência tampa os ouvidos quando ditas. Relva dela. Lua em eclipse. Elipse de galinha.

Disse a João coisas que a ninguém mais diria.

 – O que fez o galo durante aquele monólogo? Com o que Clarice disse?

João ligou os pontos. Pedro pedreiro que ele era quem ligou os pontos foi João. Centro, objeto e sujeito da construção. Nas mãos de João estavam o ligar os pontos, seguir o pontilhado do desenho, o traçado. Ligar os pontos era no quinto conto a questão. Não era o que Clarice dizia, disse, a questão era João ligar os pontos. O que João faria com aquilo.

 – O que João fez? O que foi que ele fez?

Inquiriu insistentemente a audiência, os pintinhos-franguinhos-frangos-galos e seus contrários femininos. Inquiriu o duplo do menino com o sangue examinado e com o resultado.

 – Pensou. João pensou.

Aquilo que ouvira não era o que ouvira propriamente. Não é o que achou ter sido, nem o que acho que Clarice disse. Não era isso, nem aquilo. Era o que podia ter sido. Era bom, era bem dito, bem-vindo. Ele era, por Clarice, aceito finalmente. Até mais não. Até que não. Até que não mais quisesse.

 – O que disse Clarice, afinal?

Nada de terrível, nada de monstruoso. Não disse clichê. Entre outras coisas, Clarice disse que importava a tentativa, não o resultado. Dito isso, assim, parece tolo, parece que Clarice disse clichê, mas não. Parece bobo, parece tolo. Não era não. Foi não. O que Clarice disse foi fundamental porque retirou dos olhos de João as últimas vendas, que por ventura ainda existiam.

Ao dizer, Clarice reescreveu de João um conto antigo. O conto do menino dentro do poço e da menina fora dele. Ele lá embaixo, no poço. Ela lá em cima, na beira, no parapeito. Clarice não inverteu nada, nem deixou de inverter nada, nem consertou. O avesso ficou no avesso, seu contrário em seu contrário. A galinha reescreveu o conto. Antes o menino, para ver a menina, tinha que estar no poço. A menina, para ver o menino, tinha que estar fora. A menina quando entrava no poço, quando lá ficava, não via o menino. Nem o menino a via. Ambos não se enxergavam num enorme obcláveo, em uma chave invertida. A menina somente via o menino quando lá em cima. Ele somente via a menina quando lá embaixo.

Ao reescrever o conto, reescreveu suas vidas. O menino e a menina dentro e fora do poço se viam porque podiam. Viam-se quando queriam. Viam-se nos mesmos lugares, na mesma posição. Dentro ou fora do poço, dentro e fora do poço.

Era de identidade que a galinha falava. Do ser identitário. Não era a identidade entre eles, mas a dela com ela mesma. A identidade de João com João. Não que Clarice, ao dizer o que disse, falasse qualquer coisa, qualquer nota. Ao Clarice falar e ao João escutar, o galo podia pensar sobre aquilo, sobre o que Clarice disse. Foi preciso que a galinha falasse para que o galo sobre aquilo pensasse, se não nem existia, sem que ela falasse não existiria. João nunca pensaria sobre aquilo.

João pensou, mas, sobretudo pensou sobre si mesmo. Ponderou, avaliou.

 – E o que era aquilo tudo?

Era o eterno precisar do outro. Querer o outro. Levar o outro em consideração. Afinal era o do outro deles dois que se tratava aquilo que Clarice dizia.

O problema não era Clarice dizer o que disse. O problema era o que João faria com aquilo. Era o que João diria depois.

Clarice falou, mas se tratava de João, não dela. O tempo todo era de João que a galinha dizia. Tratava-se de dizer que homem João se inventara, que galo, que homem se inventaria dali para diante.

 – Haveria o diante? O antes?

Perguntou Bethânia, voltando para o terreiro no terreno da Granja do Morro da Ganja. Voltando de sua excursão pelo país. Voltou trazendo a lua e o cheiro de jasmim.

Havia a experiência vivida, a experiência recusada, a introjetada. O homem que João não quis ser não deveria dizer, não deveria significar, que homem nenhum ele seria, ou queria ser. Um apenas ou só sozinho galo. O homem que ele não quis ser seria o homem que Clarice queria. Em João, ser aquele homem não foi necessário ser.

Era princípio de verão. Anoitecera tarde. Tinha lua crescente no céu sem uma nuvem e o cheiro de jasmim que Bethânia trouxe. Clarice disse o que disse e foi embora. Deixou João. Deixou o conto de ligar os pontos, deixando todo e qualquer outro conto que depois viesse. Que por ventura viesse a existir, a ser escrito. A galinha deixou o conto por estar no lugar errado. Foi ciscar noutra freguesia.

Na sua casa, no alto do Morro da Granja, fora da Granja do Morro da Granja, Clarice se enclausurou. Por lá ficou. Era princípio de verão. Clarice disse o que disse, disse adeus e foi-se embora.

A mãe para o menino:

 – Se chorar apanha, se chorar apanha…

O menino nunca mais chorou.

João ligou os pontos. Para o sexto conto se encaminhou. No cesto do sexto conto ensimesmou-se João.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: The Farm by Joan Miró Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/The_Farm_(Mir%C3%B3)#/media/File:TheFarmMiro21to22.jpg

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