Ele saiu meio sem graça, por umas ruas tão estranhas e profundamente familiares. Era um dia em que tudo apontava uma contramão. Enquanto caminhava as saudações de bom dia lhe soavam polidas pelo mesmo velho verniz que embeleza o vazio dos significados cotidianos. Respondeu como sempre fizera e nunca mais faria. Enquanto prosseguia, no íntimo sabia ter feito a última passagem e tentava evitar olhar para trás, pressentindo o mar de esquecimento que se avolumava às suas costas a cada passada, como se todo o passado se condensasse e se recolhesse entre o aqui e agora e tudo o que já não é. Olhou assim mesmo, e viu o mundo pela lente do cinismo que permeia nosso tempo. Nunca mais olharia. Não podia mais compartilhar do deboche coletivo e ainda se olhar pelo espelho espatifado pela realidade estupida recoberta de glacê. Ao virar a esquina seu olhar cruzou com o de um cão de rua. Foi como se nunca tivesse visto um e uma cumplicidade imediata se estabeleceu. Pela primeira vez na vida vislumbrou sinceridade e, por alguma razão, sabia que o cão sentia o mesmo. Não se tratava de um encontro, mas um reconhecimento que lhe abria talvez a derradeira oportunidade de retomar a vida. Sentiu-se dependurado por um fio de esperança sobre um abismo sem fundo e decidiu agarrar-se a esse fio como um náufrago que encontra a tábua. Haveria um ser humano sobre a esfacelada face da Terra que o pudesse compreender? pensou. E riu de si mesmo, sentindo auto piedade por sua estranha ingenuidade, que se recusava a retornar da terra dos mortos vivos. O cão latiu e ele, por um momento, decidiu acreditar.
Entrou num botequim, o velho boteco pela frente do qual passara milhares de vezes ao longo da vida e, onde ele sabia, uma cachaça o esperava pacientemente. Cachaça que ele jamais havia ousado tragar. Mal se aproximou do balcão e o homem do outro lado bateu forte com o fundo do copo sobre a madeira crua e, olhando-o nos olhos, serviu a dose.
— Como sabia? Perguntou.
— Um dia você teria de vir. O dia chegou.
Sem saber como e nem porque, ele engoliu a cachaça de um só gole, tossindo em seguida. O homem tornou a falar, apontando uma porta velha, de madeira engordurada pelos anos:
— Ela te espera. Ao entrar, sabe que não há retorno. Mas você já adiou demais…
Como num transe, ele adentrou o recinto. Lá estava ela, impávida, sentada numa poltrona.
— Finalmente, estou lhe esperando há séculos. Você demorou demais…
O carro do plano funerário, com seu sistema de som, saiu cedo naquele dia. Um membro querido da sociedade falecera naquela noite e, como é costume nas cidades interioranas, era preciso comunicar a partida pelas ruas da cidade.
Créditos na imagem de capa: egeo
