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Em casa com uma psicopata VIII – Todo mundo é filho de alguém

Ser adulto não é mais difícil do que ser criança. Pelo menos a minha criança não é mais fácil do que a minha adulta. Porque a adulta… Bem, é a adulta da sala. Mas, a criança, o que fez a criança? O que pôde fazer? E eu te digo: soterrar.

A criança soterra as coisas. Enterra. É o que dá, quando não sobra tempo pra criar – melhor dizendo: criançar.

Eu mesma, criança, enterrei lembranças. Soterrei raiva, soterrei nojo. Fiz disso fósseis para algum arqueólogo encontrar sob rastros de amor e alegria e, quem sabe, fantasiar histórias em cima desses objetos melhores do que as que de fato aconteceram – estas, já poeira do passado.

O que pode fazer uma criança com a cena de um homem de 120kg desferindo socos contra um magricelinho de 6 anos? O que pode fazer esse mesmo magricelinho? “Eu bati nele pois não posso bater em você”, cuspiu. “Covardia, tia. Meu pai me bateu com covardia”, chorou.

Criança que não pode criançar se enterra, se interna. Soterra, só poeira. Inuma uma carne que não se decompõe por debaixo do espírito enquanto vê apodrecer o mundo afora. Desce ao inferno e deixa lá o pó. Renasce órfão das cinzas, menino, em um celeiro qualquer.

Com sorte, tempo e trabalho, o adulto vomita.

E dorme, sonha, acorda, trabalha.

E cria.

E criança.

 

 

* A denúncia de violência infantil pode ser feita anonimamente e gratuitamente pelo Disque 100 (nacional, 24h) ou WhatsApp (61) 99611-0100.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Imagem autoral.

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