Qualquer habitante do mundo digital brasileiro foi inevitavelmente impactado pela pauta dos bebês reborn há um par de meses. De acordo com informações fornecidas pelo Google Trends, esse interesse começou a crescer exponencialmente a partir de 11 de maio, cerca de um mês após o lançamento de uma reportagem de Chico Barney sobre o assunto, “Bebês reborn não choram” (2025). A repercussão da compra de uma boneca realista pelo Padre Fábio de Melo, representando um neném com Síndrome de Down, mais ou menos no mesmo período, início de abril, também “esquentou” o interesse. Porém, o boom do assunto parece não ter qualquer relação direta com as duas publicações, estando mais conectado a um outro acontecimento, de uma outra esfera: a presença da influenciadora Virgínia Fonseca na CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) das Bets, do Senado Federal, em 13 de maio. Antes de propormos esta conexão, mais para o final do texto, começaremos nos questionamos sobre um outro viés: o que foi falado sobre os bebês reborn nas redes sociais e o que isso diz sobre os fundamentos da nossa convivência em sociedade?
Antes de tudo, é importante que fique claro que o que vamos argumentar neste texto é que as reações ao subgrupo formado pelo gosto partilhado dos bebês reborn nos parece muito mais patológica do que a existência do grupo ou mesmo dos laços que unem os indivíduos a esses objetos. Patológico, aqui, referindo a pathos que, por sua vez, se opõe a ethos. De ethos deriva a compreensão de ética, e ética, ao fim, como o campo de interesses quanto à moralidade que funda uma sociedade. À ética vem sendo associada a prática de inclusão, de diversidade, da diferença, justamente pela conclusão de que é patológico – ou seja, fragmenta o convívio social – excluir aquilo que não se parece com a imagem que temos de nós mesmos, com o narciso que, afinal, costuma governar. Em nome do bom convívio no interior das famílias, nas escolas, nos espaços de trabalho, nos clubes, e visando reduzir o adoecimento generalizado dos sujeitos, cada vez mais se pede uma ampliação dos limites do normótico em nome de uma maior coesão dos laços societários. Entretanto, essa equação se complexifica e o princípio ético se degrada no ponto em que aquilo que potencialmente fortalece a sociedade ameaça a fantasia narcísica subjetiva.
Assisti ao produto do Chico Barney. Vi ali retratado um grupo majoritariamente de mulheres (algumas acompanhadas por seus maridos) que gostam das famigeradas bonecas e que, há muito tempo, se reúnem para aproveitar esse gosto. As bonecas são resultado de um delicado trabalho artesanal feminino sobretudo de pintura, que é o que cria o efeito realista e dá cor e ““vida”” a um genérico molde de silicone. Também tem forte apelo a produção dos cabelos, normalmente colocados fio a fio, sempre manualmente. Embora tenham sido agregadoras e hospitaleiras com o jornalista, dando presentes feitos a mãos – suas próprias – ao estrangeiro, em um singelo gesto de civilidade, em nenhum momento elas convidam e menos ainda coagem qualquer outro indivíduo a integrar o grupo. Era algo que começava e terminava nelas. De uma maneira geral, os internautas repudiaram o grupo. “Tem que se tratar”, “trauma”, “hospício”, “CAPS”, “onde o Brasil vai parar?!” foram as principais reações. Isso tudo vindo de pessoas, claro, absolutamente normais (cof cof). Sujeitos que nada têm a tratar, nunca foram expostos a nenhum trauma e que jamais chegaram (nem chegarão) perto de um “hospício” ou precisarão requerer cuidado em um Centro de Atenção Psicossocial. Indivíduos de nossa espécie que não usam substâncias para evitar suas dores, que não projetam suas feridas nos outros, que não jogam tigrinho compulsivamente, que não precisam se enlutar, que não se classificam para terapia e que têm muito trabalho, roupa/louça para lavar e lote para capinar, “sem tempo” para o sofrimento. Mas, mais espantoso ainda, é que, embora há casos excepcionais em que as bonecas reborn podem vir a ser utilizadas em práticas terapêuticas (ironicamente, por pessoas que foram “se tratar”), o que fundamentalmente liga o grupo feminino dos bebês reborn, me parece, é o interesse no resultado das pinturas, no produto artístico final. Isto pode ser facilmente percebido na referida reportagem. Qual é a diferença, então, entre a arte que resulta em uma boneca realista e qualquer outra forma de arte? Qual é a diferença, então, no que faz uma senhora artesã rendeira, fuxiqueira, que pinta panos de prato, e a que faz bebês reborn?
Daí o questionamento: onde (re)nasce a chamada “loucura”? Onde está a “loucura” neste emaranhado? Está no gosto de um certo grupo feminino dado como excêntrico, ou no gozo descontrolado da massa que grita “loucas!!!”, como quem, no reflexo, tranquiliza-se com a sua sensação de normalidade? A loucura está nos outros, em cada um de nós, ou está nesse espaço da diferença que nasce entre um eu narcísico e esse outro acusado de ser louco que, assim, é expulso no mesmo passo em que funda-se o grupo dos normalzões? Aliás, neste caso, como em muitos, a loucura tem gênero: é feminino. Assim como tudo o que é próprio ao ser humano, os motivos para a brincadeira são diversos, e se os exploramos, vamos encontrar todos os elementos que estão presentes na belíssima e complexa economia interior da fauna hominídea: desejo e sentido, conexão e desconexão, excessos e faltas, doenças e cura, pulsão de vida e pulsão de morte, amor e dor. O que chama a atenção, neste episódio, é que uma comunidade de mulheres produtoras e brincantes de boneca na fase adulta é repulsivo, e mesmo quando o fim expressamente terapêutico, é associado mais à “loucura” do que à cura, mas a comunidade jogadores de futebol homens na fase adulta, de fanáticos por vídeo game na fase adulta, de colecionadores de bonecos de ação na fase adulta, de apaixonados por seus veículos automotores na fase adulta, não só não causa repulsa como está, desde sempre, legitimado que o lúdico sobrevive à infância e que é saudável que assim seja. A diferença, afinal, está no gênero? E a patologia? Está em brincar de bebê reborn ou está em estigmatizar as mulheres por seus trabalhos e gostos particulares, e/ou em tratamento mental? Está em fazer e consumir artesanato, ou está na inaceitação da mulher em um lugar lúdico de cuidado e não de exercício dele como obrigação? A patologia verdadeiramente perniciosa para a sociedade é aquela falsamente atribuída à “louca”, ou esta que gera uma acusação como forma desesperada de encobrir-se a si mesma?
Mais ou menos no mesmo período em que o caso dos bebês reborn ocupou a atenção da internet, aconteceram alguns episódios que nos ajudam a pensar sobre o que realmente aconteceu. No dia seguinte ao Dia das Mães, em 12 de maio de 2025, a apresentadora Tati Machado, 33 anos, deu entrada em uma maternidade, com 33 semanas de gestação, para dar à luz um bebê que, espiritualmente, já estava na luz, a Maior de todas. Neste mesmo 12 de maio de 2025, completou um ano da morte de Antônio, filho de Nadja Haddad que nasceu prematuramente, às 24 semanas de gestão (e o Dia das Mães de 2024 foi, exatamente, em 12 de maio).
O Antônio partiu no meu colo. Eu não sei dar nome para o que senti. Eu não sei dar nome. Mas eu garanto que é a dor mais dilacerante que alguém pode sentir. E a pior sensação que eu tive foi quando eu fui vê-lo. Eu fui a última a visitar. E eu pensei: “meu Deus, eu sonhava em ver meu filho no berçário, e eu estou indo ver meu filho no necrotério”. E eu lembro tanto daquela sala escrito “necrotério”.
Atualmente com 44 anos de idade, ela trouxe ao mundo dois meninos, frutos de uma gravidez gemelar, mas somente José foi com a mãe para a casa.
Prematuridade e luto maternal são assuntos pouco falados. Ainda existe algo obscuro, as pessoas evitam. Mas tem que ser falado. [/] Apesar de existir um vácuo enorme no meu peito, existe também uma grandiosidade de gratidão por ver meu outro bebê se desenvolvendo. Não tenho do que reclamar, só agradecer. Depois do que passei, o que vier não me abala. Estou transformada, muito mais leve.
No próprio 11 de maio de 2025, foi ao ar o número 77 do podcast do Mil e Uma TrETAS, com Julia Faria e Thaila Ayala, especial de Dia das Mães, em que Sabrina Sato em que falou das três mais difíceis conversas que teve com sua filha, Zoe, de 6 anos de idade: a primeira, sobre a dissolução do casamento com o pai da menina, e as outras duas sobre a interrupção involuntária de duas gravidezes em um mesmo ano, 2024. “Ela rezava todas as noites pedindo um irmão”, confessou. E no início do ano, a cantora Lexa, aos 30 anos de idade, em sua primeira gravidez, sofreu uma rara e grave síndrome (HELLP) dentro de um quadro de pré-eclâmpsia, tendo que realizar um parto prematuro às 25 semanas e 4 dias de gestação, com sua vida correndo risco. Sua filha, Sofia, nasceu em 2 de fevereiro de 2025, e faleceu no dia 5 de fevereiro de 2025. Quando fez um post nas redes sociais comunicando o nascimento e a partida de sua filha, um rapaz que aparentemente seria até seu colega comentou “vem, Sofia”, completamente alienado do que aquela mãe estava de fato vivendo – a bem da verdade, parece que sequer leu o post, uma grave patologia informacional da era das redes. Agora, em 16 de julho, ela doou as roupinhas e itens personalizados para uma outra neném de mesmo nome que sobreviveu à 60 dias de cuidados intensivos neonatal.
Em uma entrevista no programa “Conversa com o Bial”, muito emocionada, dolorida, Lexa falou que muitos costumam dizê-la “daqui a pouco vem outro”, achando que a estão consolando… Não estão. O que essas mães nos dizem, em suas dores – Lexa: “Eu não quero que você entenda [essa dor], porque eu provo de uma dor muito grande” -, é que pode até haver uma outra gestação, mas uma alma jamais substitui a outra. “Não tem superar um filho. É insuperável”, disse a cantora. Ao contrário do que se diz a todo momento nas encruzilhadas do capitalismo, ninguém é substituível. Quando uma mãe toma conhecimento da existência de um filho seu, não importa em que plano ele está, ele existe e sempre existirá. No meio das tantas falas sobre os bebês reborn, muitos que acusam de “loucura” dizem isso, que são mães que não elaboraram a perda de seus filhos e têm que “se tratar”… Mas eu me questiono: ainda que fosse isso, esses acusadores estão realmente preocupados com as mães que perderam filhos? Aliás, com qualquer mãe? Que pressa é essa de que essas mães se curem do que é incurável? Quando viajou e postou fotos de um safari celebrando quanta vida viu ali, no contato com os animais, com a natureza, os acusadores questionaram à Lexa: “mas já viajando???”. A mulher brinca com quatro bonecas? Louca. A mulher “enlouquece” criando sozinha quatro filhos? Normal. A mulher gasta dinheiro com boneca? Louca. A mulher tendo que arcar sozinha com os custos de um filho? Normal. A mulher padece a perda de um filho? Louca. Mãe solo? Normal. A mesma sociedade que condena a mulher adulta por brincar de boneca, aceita/impõe que uma adolescente de 13 anos estuprada tenha a criança. A mesma sociedade que bet sua renda no tigrinho e justifica dizendo que “é só um jogo”, uma brincadeira, ignorando a doença da adicção, condena a mulher que acessa o lúdico e artístico universo das bonecas. E mesmo influenciadoras feministas, que publicam sobre autonomia das mulheres, fizeram posts condenando aquelas que, no exercício de suas autonomias, decidiram simplesmente (manufaturar) e brincar. Onde está a “loucura”?
E além do viés de gênero, quando o foco foi colocado sobre a comunidade dos bebês reborn, o que ficou claro é que a maioria sentiu-se confortável para expressar sem grande constrangimento seus preconceitos e escárnio contra quem passa por sofrimento mental, seja por algum transtorno diagnosticado, seja pelos lugares que ocupam na estrutura social, seja por tragédias da vida individual, as piores, seja por desafios que, para uns e outros, são considerados até “normais” de toda a jornada. Todos querem respeito pelas suas diferenças, mas não retribuem quando a diferença está no outro. Quando está no outro, essa verdade ameaça a fantasia normótica do acusador. “O Brasil virou um grande CAPS”, ironizaram, como se isso fosse algo ruim. O que isso quer dizer? Que todo o Brasil tem acesso à assistência psicossocial? Que os brasileiros estão olhando mais para as suas feridas e buscando evitar jogar suas dores nos outros, e viver uma vida mais pacífica? Que a saúde mental tem sido valorizada e promovida pelo Sistema Público de Saúde? Poxa, seria ótimo se o Brasil virasse um CAPS. Essa seria uma ótima notícia. Talvez até se incomodassem menos com a mulher que brinca, que sofre, que se transforma, que faz artesanato, que tem seu próprio meio de ganhar dinheiro com suas mãos. Talvez ficasse mais difícil embarcar em uma grande histeria massiva em que o prazer está em achincalhar mulheres e ditos “loucos”. Seria ótimo se os acusadores estivessem assistidos pelo CAPS, essa área do SUS formada por profissionais capacitados, competentes e dedicados, que com tanto carinho cuidam de quem precisa de cuidado, que nos ajudam a cuidar de quem amamos naquilo que está além do alcance do nosso cuidado, de forma séria, pública, gratuita, universal e ética. E, por isso, sim, celebramos viva o SUS, e viva o CAPS!
Esse período do hate aos bebês reborn também foi de grande desinformação (quantos foram tais quais o colega da Lexa?). Deixarei somente um caso como exemplo: o prefeito do Rio de Janeiro (RJ), Eduardo Paes (PSD), vetou uma lei aprovada pela Câmara de Vereadores que criava o “Dia da Cegonha Reborn”. “Não dá”, escreveu ele, no post repercutindo o veto. É comum, em nossa sociedade, que as mulheres assumam o artesanato como fonte de renda principal ou extra, por conseguirem produzir de casa, conciliando a atividade remunerada com o trabalho doméstico não-remunerado, com o cuidado com filhos, netos e marido, com a reprodução da vida. A matéria da lei era esta: o reconhecimento do trabalho das artesãs que fabricam bonecas realistas no Rio. Por que não dá para homenageá-las? No contexto, parece que “não dava” porque, na interpretação massiva, era como se a lei endossasse que os reborns são bebês/pessoas e, não sei, que as artesãs se consideram verdadeiras cegonhas, as próprias aves (?). O Projeto de Lei n° 1.892, ainda por cima, datava de 2023, muito antes deste assunto ser levado ao estatuto de grande pauta nacional. “[É] uma homenagem emocionante a mulheres incríveis da nossa cidade. São artesãs que criam bonecas realistas usadas em terapias. Muitas delas [as próprias artesãs, ressalta-se] passaram por momentos difíceis, como depressão, luto, dores profundas, e encontraram nesse trabalho uma forma de cura e amor”, escreveu o vereador proponente, Vitor Hugo (MDB), em sua rede social. “Não dava” porque passávamos por um “surto” coletivo, isso eu concordo, mas que surto foi esse, afinal?

Como referido no parágrafo introdutório, uma pesquisa no Google Trends mostrou que o assunto “bebê reborn” (registrado em azul nos dois gráficos) começou a crescer a partir de 11 de maio, iniciando uma escalada exponencial a partir de 13 de maio, e chegando ao pico em 17 de maio. Ora, 13 de maio foi o dia em que a influenciadora Virgínia Fonseca desembarcou em Brasília (DF) e compareceu ao Senado Federal, por ocasião da CPI das Bets. Em 13 de maio, o interesse pelo seu nome cresceu em um movimento que tendia à exponencialização, entretanto, em 14 de maio, voltou a cair, dando lugar à grande escalada de “bebê reborn”. A rede social que bet em tigrinho e que comentava as revelações da influencer no planalto central – dentre elas, a que os vídeos de propaganda são gravados com contas-fake fornecidas pelas empresas, podendo apresentar um índice de ganho maior do que das contas dos reles mortais por meio de uma programação prévia, o que desemboca na chamada a “cláusula da desgraça alheia” – mudou de foco, trocou o assunto: teve de reagir ao imenso absurdo, ao colapso da razão feminina, ao “grande CAPS” que teria virado o Brasil, por causa dos intoleráveis bebês reborn e suas lunáticas mamães cegonhas, como pautado pelos perfis de diversos influenciadores que, não por acaso, são patrocinados pelas Bets e divulgam tigrinho. Somada a estrutura dos fluxos de comunicação com a palatabilidade de um assunto que, resumidamente, é “mulheres são loucas”, com longínquo deleite em fazer chacota com “louco”, com a ânsia por estar up+to+date e viralizar nas redes, não tardou para que a internet quase toda estivesse, de uma hora para a outra, falando disso. Um input e o tema entrou em moto-contínuo. A mineira chegou a perder 600 mil seguidores após a escuta no Senado Federal e, ainda lá, entre os dentes, acabou assumindo que ia repensar seus contratos com as Bets, diante da gravidade do que foi exposto. Em 12 de junho, o relatório foi rejeitado, porém. O assunto “Virgína” (em vermelho no segundo gráfico) só superou “bebê reborn” quando foi divulgado o seu divórcio do cantor Zé Felipe, duas semanas após a sessão em BSB, no dia 27 de maio.
De fato, caso dos bebês reborn mostraram que as fronteiras entre o dito real e o imaginário, muitas vezes, se borram. E não falo isso sobre o que está no entorno da brincadeira, mas sobre quem assistiu vídeos das redes sociais de “lifestyle” dos bonecos e imaginou que quem os produz acredita que são nenéns de verdade. Conforme muitos destes produtores de conteúdo esclareceram, a gravação de cenas com os bonecos em cenários e situações supostamente reais sempre foram ficção – algo muito próximo de uma fanfic, por exemplo, gênero o qual quem consome tem total clareza de que não se tratam de fatos verídicos. Quem confundiu tudo, neste caso, foi quem não estava inserido neste universo, que não só confundiu como reagiu como se fosse verdade e acusou o outro de não distinguir o real e da invenção. Aliás, a ficção apresentada através dos bonecos, as situações, todo o storytelling, não são menos fake que muitos conteúdos gravados com pessoas reais, em cenas ocasionais e cotidianas. É igualmente fake alguém retirar um ser inanimado da bolsa e gravar um vídeo de 1m30s em um parquinho, dublando o ventríloquo e fingindo que aquilo tudo foi espontâneo, como quem, de muito mau-humor, pessoa de carne e osso, abre um sorriso e finge alegria em uma paisagem paradisíaca enquanto está dead inside, como quem dança de uma forma diferente, mais reboladamente do que fazia no instante anterior ao que mirou para si ou para os outros a câmera de um celular para fazer um stories, como quem passa a imagem de um perfeito e apaixonado casamento jovial, com uma família unida e triunfante, pegando todos de surpresa e quebrando muitos corações de seguidores, que passam a desacreditar do amor, ao anunciar o divórcio. “Do nada???”, os internautas pensaram…
Antigamente, era comum ouvirmos histórias de atrizes e atores de novela eram xingados e agredidos nas ruas quando interpretavam vilões muito malquistos. Hoje, é senso comum que as novelas são produzidas, que os atores não são os personagens, letramento que foi conquistado, inclusive, pela própria emergência das redes sociais, onde as atrizes e atores são apresentados com seus nomes próprios, facilitando a desidentificação, o ingresso nas quatro linhas da tela e a saída destas quatro linhas no fim da exibição. Mas, por outro lado, com as redes sociais, vira e mexe somos surpreendidos não com a separação dos casais, mas com a fé de que o que é mostrado é absolutamente “real”. E aí acontece como no caso dos conteúdos dos bebês reborn, em que quem está produzindo o faz na certeza de que todos embarcaram na ficção lúdica tal qual na leitura de uma fanfic, que compreendem trata-se de um role-play, e daqui a pouco estão respondendo às acusações de deliberada loucura. Quem não entendeu nada neste caso? E mais: algo semelhante acaba acontecendo no consumo de informações, o que leva este episódio para outros terrenos. O hábito de ler somente a manchete e reagir com a maior das paixões a cinco, dez palavras que, muitas vezes, por clickbait, estão distantes, opostas, da informação, está alcançando níveis escalafobéticos e alarmantes. Ainda tem a tal da F.O.M.O. (“Fear of Missing Out”), tipo de emoção que tem levado os internautas a entrarem em movimentos quaisquer irrefletidamente pela pura estranheza que sentem ao pensarem-se fora deles. E, para finalizar, as cortinas de fumaça e as diversas experimentações sobre as formas e os níveis de fake news tolerados pela sociedade que começam nos bebês reborn, mas terminam no principal campo de batalha digital atualmente, na arena onde a disputa maior é sobre o futuro. Além dos patológicos efeitos culturais de um massivo movimento de escárnio contra mulheres e “loucos”, este tipo de caso serve, igualmente, como um balão de ensaio geral sobre o comportamento dos internautas para a implementação de outros tipos de ações digitais, de ofensivas de comunicação, de modulação de opinião pública, especialmente para consumo e para a política.
Em suma, repito: o caso dos bebês reborn explicitam uma série de patologias sociais, quais sejam, o discurso produto e estigmatizante da “loucura” e a falta de real cuidado com o lazer, o trabalho e mesmo as dores das mulheres, mas também uma série de outras, gravíssimas, como a desinformação e a carência de letramento para uma navegação mais consciente e ética no mundo digital. Bebês reborn já existem há muito tempo. É de se estranhar que acordemos em um dia comum e, do nada, algo como bonecas seja dado como o maior problema do Brasil. É de soar ruidosa a inundação dos nossos olhos, mente, ouvidos, com um determinado “problema” que, até aquele fatídico e breve dia, nunca tinha aparecido com tamanha força. É de incomodar que um grupo social, seja qual for, está sendo malhado como Judas, super exposto, em especial se há alguma vulnerabilidade envolvida. É de se criticar que influenciadores que se apresentam como progressistas e, na maior parte do tempo, dizem “defendamos o SUS”, comecem a ridicularizar o CAPS e a promoção da saúde mental. É de se questionar até onde vai a defesa da autonomia das mulheres por perfis feministas quando atacam o trabalho artesanal e a brincadeira feminina, pior ainda suas práticas terapêuticas, sejam quais forem. É de se notar a imensa insensibilidade da “corrida pela superação”, na expectativa desleal de que as mulheres “melhorem” rapidamente, mesmo das experiências das quais não há retorno, mas profunda transformação e reinvenção/redescoberta de uma nova forma de estar no mundo. E é de se levar a sério que “nada deve parecer natural” quando se trata de comunicação, consumo e política.
Sei que, de toda essa onda que colocou bebê reborn no centro da fogueira do Brasil, o que me ficou na mente, além do poema de Bertold Brecht (1982), “Nada é impossível de mudar” – Desconfiai do mais trivial / na aparência singelo. / E examinai, sobretudo, o que parece habitual. / Suplicamos expressamente: / não aceiteis o que é de hábito / como coisa natural. / Pois em tempo de desordem sangrenta, / de confusão organizada, / de arbitrariedade consciente, / de humanidade desumanizada, / nada deve parecer natural. / Nada deve parecer impossível de mudar. -, foi aquela música do Michael Jackson, tocada pela primeira vez em 8 de abril de 1996, e bem brasileiramente cantada com a camisa do Olodum, no clipe gravado lá no Pelourinho, em Salvador (BA): All I wanna say is that they don’t really care about us… No português, eles não ligam pra gente.
REFERÊNCIAS:
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O GLOBO. Sabrina Sato detalha conversa com Zoe sobre separação e e perda do bebê: ‘Precisei me abrir para a minha filha’. O Globo. 13/05/2025. Disponível em: https://oglobo.globo.com/ela/noticia/2025/05/13/sabrina-sato-detalha-conversa-com-zoe-sobre-separacao-e-e-perda-do-bebe-precisei-me-abrir-para-a-minha-filha.ghtml. Acesso: 16/07/2025.
TERRA. Pedro Sampaio comete gafe ao comentar em publicação de Lexa sobre a morte da filha: ‘Vem Sofia’. Terra. 10/02/2025. https://www.terra.com.br/diversao/gente/pedro-sampaio-comete-gafe-ao-comentar-em-publicacao-de-lexa-sobre-a-morte-da-filha-vem-sofia,92617e9c06f4ebe9baec7f9b4aa7ba024jxl7mby.html. Acesso: 16/07/2025.
VALBÃO, Mariana. Padre Fábio de Melo “adota boneca” com síndrome de Down nos Estados Unidos. CNN. 08/04/25. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/padre-fabio-de-melo-adota-boneca-com-sindrome-de-down-nos-estados-unidos/. Acesso: 16/07/2025.
Créditos na imagem de capa: Frida Kahlo pintando “O Que a Água Me Deu”, em 1938, que foi exibida em Paris, França, por André Breton, em 1939, quando foi datada. Análises apontam que os elementos da composição apresentam o inconsciente da artista dispostos na banheira, aos 31 anos. Seu pé direito sangra, o que remeteria às suas feridas, tal qual o aborto sofrido em 1932, em Detroit, Estados Unidos (mais diretamente representado em “Hospital Henry Ford”), no mês de seu aniversário, julho, quando completou 25 anos. É curioso que o título do quadro seja o mesmo de uma música de Florence and the Machine, “What the water gave me”, que homenageia outra artista mulher, Virgínia Woolf, que passou por intenso sofrimento mental até afogar-se não em uma banheira, mas no Rio Ouse, em Sussex, Inglaterra, no dia 28 de março de 1941. Fotografia em: https://www.fridakahlo.org/what-the-water-gave-me.jsp. Acesso: 21/07/2025.