Raras foram as pessoas pelas quais me enveredei e que me honraram com o título de Aninha.

Meu primeiro amor, um infante moreno diastêmico, mineiro e companheiro. Um aventureiro menino que me voava caminhantes 3, 4, 5 bairros e me assobiava, de surpresa, pela janela: “Aninha??? Vim (voando) te ver.” Proibidos, eu lhe abria a porta, ele subia e ouvíamos o CD que ele nos carregava. Nem sequer um toque, a não ser da música que tocava. O amor, naqueles tempos – como a música -, fluía pelo ar, ondas que nos conectavam pelos ouvidos, pelo olhar sorri/dente (e diastêmico), e pelo so(m)rriso único que apareciam os dentes quando partilhávamos a infinitude daquele mesmo espaço e tempo naquela proibida sala. Ali, ele me fazia ternamente, eternamente feliz. Nem sequer um toque, a não ser o das ondas em nossos corpos, e sobre os nossos corpos. Amar era preencher-se deste puro magnetismo no vazio e diastêmico espaço entre nós dois, que depois se transformava em uma(ímã) saudade simultaneamente aninhada em nossos peitos, aguardando o próximo voar, o próximo assovio na janela. O beijo… O imerso imenso beijo, intenso, infinito, interminável, e in(e)terno, esperou 3, 4, 5 anos, 3, 4, 5 cidades.

Honradas foram as pessoas pelas quais me enveredei e que raramente me intitulam Aninha.

Meu irmão, meu presente. Pernocas balançando em um berço onde estavam mais dois peixinhos, barcos sem remo à deriva, emersos no imenso mar tempestuoso. Os olhos são de esmeralda, brilhando, estrelas caídas no chão da grande noite. Os cabelos dourados, fios de ouro enrolados que formavam um… ninho. Um menino. Os bracinhos longamente estendidos em nossa direção, sustentando a força de um corpinho todo a ser içado para o alto, em direção ao seu, ao céu. Bracinhos muito longos, remos do tamanho da falta, da ausência, e do amor. Meu neném. Sua cabecinha, um ninho. Sua primeira palavra: Aninha, dita por sua boquinha rosa e linguinha de chiclete após meses de uma cortante distância. Aninha: a primordial palavra do reencontro, a palavra do fim de uma saudade. Aninha, um elo, e uma morte (um amor-te). Já pelos 20, já pelas tantas (e horríveis), muito mais que 3, 4, 5, Aninha tornou-se Mana, M+Ana. Aninha… (E)Mana. Aninha Em Ana.

A memória é um passar pelo ar, pelo mar, é um passar(pelo)inho. Há de se saber voar, há de se saber remar, há de se saber pousar e assobiar. O amor é um ninho (de onde, muitas vezes, nos alongamos, famintos). O amor é… Aninha.

 

P.S.: Dedicatória de um livro de um matuto (nem sequer um toque):

Com os afetos que descabem no peito,

Com o amor a tudo que ainda não é,

Com a fé no que virá,

Com a saudade bonita do pouco que já foi…

Meus versos são teus!

 

Besos,

M., 28/07/2017.

 

Para Aninha.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Imagem autoral de Ana Carolina Monay