egeo
A penumbra cobria o ambiente com uma magia espessa, o ar cortado por uma bruma que se erguia em espirais preguiçosas. No chão de cimento queimado, a simbologia ancestral riscada faiscava sob a luz quente de candeeiros dispostos aos quatro ventos. Os atabaques pulsavam, graves e surdos, como se o próprio chão respirasse som. O coro de médiuns girava em silêncio, corpos leves, rostos fechados, dançando ao compasso que só eles escutavam.
A cadência mudou — prenúncio de visitante ilustre. Do éter, Seu Zé Pelintra atravessou o espaço. Terno e sapatos brancos impecáveis, chapéu tombado sobre o rosto, sorriso malandro iluminando o alvo-neve dos dentes. Um cigarro aceso descansava displicentemente na mão e, na lapela, o cravo vermelho ardia como sangue vivo. Flutuou em passos lentos, bailando como quem pisa em corações.
— Boa noite, minha gente — a voz carregada de malícia, afeto e provocação. — Hoje a gira não tá como de costume, não. O tambor chamou gente de longe… outros mundos, outros tempos… Lá de onde a alma esquece o corpo — e o corpo, coitado, já não lembra mais da alma. Onde o vento sopra gelado no inverno… e teme a curva quente do verão.
Tragou um gole demorado da garrafinha de marafo, e piscou com desconfiança divertida:
— O que é que a encruzilhada me apronta dessa vez?
A névoa engrossou, rodopiando em torno de dois médiuns tomados pelo transe.
— Opa… lá vem coisa — murmurou Zé, ajeitando o chapéu e sorrindo como quem conhece todos os passados… e já espiou o futuro.
Do corpo de um ergueu-se um homem alto, de postura nobre, peito aberto e olhar carregado do peso das eras: Johann Wolfgang von Goethe — sim, o próprio Fausto em carne de espírito.
Do outro, irrompeu um sujeito de olhar enviesado, passo incerto, sorriso debochado e pinta de cafetão: Charles Bukowski, o ébrio mais sóbrio que a Terra já conheceu.
Ali estavam, frente a frente: um filósofo de palavras esculpidas no mármore da história… e um poeta bêbado que escrevia nas sarjetas das esquinas, onde a vida escorre com o vinho barato e a tinta da madrugada.
— Wo befinde ich mich? Que lugar é esse? — perguntou Goethe, a voz grave e curiosa. — Este solo… vibra. Há tambor no ar e fumaça de estrela nova queimando. Sou Johann Wolfgang… mas talvez isso aqui já não importe.
Bukowski tossiu debochadamente, coçou a cabeça entre os cabelos ralos e prateados. Pegou um copo esquecido no chão.
— Alguém viu minha cerveja? Porra… sonhei com um cavalo e acordei num terreiro. Foda-se. Talvez aqui seja melhor que aquele inferno. Cadê ela? Tá aí?
Zé Pelintra rodou no centro da roda, gargalhando tão alto que o som reverberou como trovão.
— Olha aí, olha aí! Chegaram! Dois cabras de peso: prosa e verso. Um com o livro na mão… outro com o fígado na contramão! Se acheguem, meus doutores. Aqui é a Gira dos Mundos — não tem título, nem cátedra… e muito menos pena ou máquina de escrever. Mas tem encruza, vela e coração batendo torto.
Bukowski apertou os olhos no seu melhor estilo, por entre os rolos de fumaça do cigarro.
— E esse sujeito aí, de terno branco? Parece cafetão santo…
— Sou Zé, meu camarada. Zé Pelintra. Malandro de umbanda, doutor da rua, filósofo de esquina. Aqui, quem manda sou eu. Te cuida, malandro — aqui, jacaré que dorme vira bolsa!
A risada veio funda, sacudindo o ar como se o próprio riso fosse um toque de tambor.
Goethe inclinou-se num gesto respeitoso. — Um prazer, senhor Pelintra. Este lugar possui uma densidade simbólica extraordinária. Sinto arquétipos dançando sobre o chão.
Bukowski fez uma careta de nojo… — Ah não… lá vem o papo Jung com tempero hermético e confeitado com palavreado acadêmico. Alguém me dá um trago, por caridade.
Zé Pelintra riu alto e bateu palmas. — Calma, calma que ainda falta a dona do pedaço.
O tambor mudou o ritmo novamente, desta feita acelerando. Uma das médiuns rodou rápido até parar, de salto erguido e punho fechado. E então Pombagira Rosilda se fez presente em toda a sua pompa e circunstância — vestido vermelho-vinho colado ao corpo, olhar de navalha afiada pintado de batom. O sorriso perigoso abriu espaço para uma voz que cortava no ar como faca na carne.
— Olha o que o tambor me chamou pra ver… Dois gringos cheios de nós nas cabeças. Um fede a álcool barato e mágoa e não tem um pingo de vergonha. O outro… cheira a livro embolorado e ego inflamado pra ocultar os medos.
Aproximou-se de Bukowski e cheirou-lhe o pescoço. — Hmmm… Esse aqui já beijou mulher que depois virou poema. Fez da dor um ofício e marca o papel com as lágrimas da amargura. Gostei do cabra…
Depois caminhou até Goethe, lenta, medindo-lhe cada gesto, como quem avalia. — Mas esse aqui… esse aqui eu não sei. Fala bonito, mas será que geme? Sabe gozar? Já sujou as vestes com lágrima de abandono?
Goethe hesitou. — Eu… medito sobre o sofrimento humano. O amor, para mim, é uma forma de…
— Medita? — Rosilda soltou uma gargalhada, bem ao seu modo. — Homem que só medita, não ama. Amor bom é o que bagunça. Que te arrasta pro chão com gosto de vinho e sal.
Virou-se para Zé pelintra. — E então, Zé? Qual vai ser o tema da noite?
— O tema, Rosilda, é esse aqui: qual é o sentido de viver quando o desespero é o que mais revela? Pra decidir isso temos um poeta de boteco e cana e um mago da palavra e vinho. Que se enfrentem com verso, que se entendam na ginga, que se afoguem, quem sabe, num gole simbólico.
Bukowski se encostou num pilar, tragou fundo e soltou a fumaça no ar. E riu como quem nada tem a perder. — Beleza. Mas se alguém recitar rima rica, eu vomito aqui mesmo, já aviso.
Goethe manteve-se sereno. — E se alguém cuspir na linguagem e faltar com o decoro, eu choro com gosto.
Os tambores bateram como um coração apressado. A gira estava armada.
O toque arrefeceu, mas o ar ficou pesado. Goethe sentou-se diante de uma vela vermelha, ereto como uma coluna antiga. Bukowski largou o corpo numa cadeira de plástico e acendeu outro cigarro usando a chama da vela da gira. Zé girava o copo na mão, enquanto Rosilda observava com o sorriso afiado.
— Opa, opa! — Zé ergueu o braço. — Chegou a hora do duelo que ninguém pediu, mas todo o mundo precisa. O tema? “O sentido da vida entre o gole e o abismo.” Valendo!
Bukowski levantou-se com lentidão e encarou a vela. — Eu já tentei encontrar sentido em mulher, em copo, em porrada, em cavalo de aposta e em poesia barata. Busquei o fim da linha da sarjeta, mas encontrei desilusão. Houve vezes em que pensei ter encontrado, mas era tudo tão fugaz quanto um suspiro depois do gozo. A vida, pra mim, é uma piada mal contada por um palhaço deprimido. Mas sabe? Tem dia que eu dou risada. E tem dia que choro.
Olhou para Goethe. — E você aí, com sua elegância germânica e essa luz nos olhos… já cambaleou bêbado pelas ruas às três da manhã sem saber se tava voltando pra casa ou pra infância?
Goethe levantou-se como quem prepara um rito. — Já mergulhei nas entranhas da linguagem, buscando o nome secreto das coisas. Já amei com o verbo e já sofri em silêncio, que é o modo mais profundo de gritar. A vida, pra mim, é a travessia de uma ponte feita de palavras. E cada verso é um passo. Mas sim… já amei tanto que esqueci o nome da mulher. E a cada dia, sofro mais por saber demais.
Encarou Bukowski. — E você, já leu um poema e sentiu o mundo inteiro tremer por dentro?
Rosilda caminhou entre eles, sinuosa. — Ah, que lindo… Um fala como quem acaricia a sombra, o outro cospe a alma em cima da mesa. Um sabe dançar com os símbolos, o outro arranca a roupa deles no tapa. Mas os dois tão querendo a mesma coisa: serem amados, apesar do fedor do mundo.
Zé bateu palmas, lenta e pausadamente. — Eita que essa gira tá pegando fogo! Mas então me digam: se hoje fosse o último dia de vocês, o que diriam pra quem vocês amaram mal?
Bukowski olhou para o chão. — Que eu tentei com todo o meu ser. Mas estava tão quebrado por dentro que só conseguia amar sofrendo, refeito caco de garrafa quebrada de bêbado caído na esquina. E que toda vez que eu fugi, era porque doía demais permanecer.
Goethe fitou a chama da vela, bruxuleante. — Que o amor me falou da beleza, mas também do medo de perdê-la. E a vida me mostrou que o medo paralisa. Às vezes fui ausente por orgulho, e outras presente por vaidade. Mas em cada verso escrito, eu pedia perdão e me sentia consolado pelas rimas.
Rosilda sorriu. — Homens que sangram pelas palavras e sofrem pelas letras… Mas será que vocês aguentam amar sem escrever? Sem metáfora? Na carne viva? No susto da entrega?
O silêncio caiu como pedra num lago calmo, provocando ondas de vazio aterrador. O malandro olhou para o público invisível, para Goethe e Bukowski. — Estão vendo? A encruzilhada não julga. Ela mostra. Aqui, poesia e desespero são irmãos siameses, a palavra é rua sem saída e atalho pro Diabo. Ou caminho de elevação, estrada para o paraíso. Agora é com vocês: quem fala mais verdade, quem grita ou silencia? Quem ama mais, rabisca ou apaga?
Os tambores aceleraram, a luz piscou rápido e um vento estranho percorreu o terreiro, sibilando. Rosilda girou no centro, braços abertos. Zé estalou os dedos. Goethe e Bukowski se olharam — e pela primeira vez, riram juntos, brindando o derradeiro adeus.
Os tambores gritaram forte, Rosilda girou, abrindo os braços como quem liberta pássaros de luz. Zé estalou os dedos e o cigarro em sua boca acendeu-se como por encanto. Goethe e Bukowski se olharam uma última vez — e naquele instante, entre a gargalhada e o brinde, entenderam que estavam no mesmo inferno. Só que um assinava com sangue e cerveja. O outro, com tinta dourada e vinho alemão.
Créditos na imagem de capa: egeo
Erich Georg
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Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
Qualis Periódiocos:
A1 História / A2 Filosofia
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