À minha vozinha, como lembrança.
Não conheci a vó. Conheci a madrasta do pai; mas, essa não era vó. Vó era mãe do pai, Elisabetha, a lituana. Não Olga, a alemã. Não conheci a vó, mãe da mãe. Conheci a viuvez do vô. O nhem nhem nhem da sozinhês.
Vó era Aurora. Quando cheguei, ela já tinha partido, ido embora. Partido o coração do vô, do tio, da mãe. Numa aurora que já foi embora, não conheci a vó. Sei dela apenas o que sei. Sei dela o que ouvi dizerem; mas, também não sei contar isso outra vez.
Era simpática. Era afetiva. Afetuosa, carinhosa. Era delicada, resumida de corpo como a mãe. Alma de sopro. De encontro.
Esta historinha é história. Memória nenhuma. Memória não há no trote da história. Memória pobrinha.
E chove, chove lá fora. Aqui dentro, história pingadinha. Café, leite, pão com manteiga na chapa. Esta história é vó. É Aurora.
Com ela estar. Nela permanecer sem esgar. Nem momice de escárnio, nem visage. História etimológica, não memória.
O vô conheceu a vó em São Paulo. Ele vinha da aldeia. Ela de Alfama. Ele era queijo de cabra do ao pé da Serra. Ela, estrela de chão de pedra das curvas e ladeiras de Alfama, do ao pé do castelo de São Jorge.
Ele era destemido chacareiro. Ela, claridade que precede horizonte. Nascer do sol de todo dia elegante. Bonito, gigante.
A vó era alvorada. Juventude. Morreu nova. Era começo do pé no chão da estrada marcha-estradeira da gente daqui de casa. O vô era benzedeiro.
O sol, aqui, abre. A vó era encantada. Começo. Origem. Princípio. Precipício. Desfiladeiro de história doce. Primeiro tempo de glicemia complicada. A vó era diabética.
O sol, aqui, fecha. A vó era Rosicler. Variedade da cor rosa. Composta branca na memória da mãe que me contou a história. Elas tomavam café da tarde, todas as tardes. A mãe, a vó, as tias. A madrinha também ia. E eram pães, bolos, cafés, mortadelas.
A mãe conta que as irmãs, tias dela, mais a vó, mais ela, colhiam da toalha da mesa da cozinha da casa da tia, ou da casa da vó, ou da casa dela, do pão as migalhas. Fartavam-se na frase repetida:
– Migalha também é pão.
E era.
A vó era composta de geleias e compotas compostas doces de branco, vermelho e azul. Era amiga da Lili, que passava roupa aqui em casa quando este narrador narradorzinho era. Lili foi embora. Quando voltou, era calafate num belvedere temporal.
A vó era Rosa de São Francisco de Assis. Austral, fenômeno natural no hemisfério Sul, lugar de onde agora brota. Era boreal bolota. Brotoeja em minha pele que chora, chove, molha.
Este narrador chora por ter chegado depois que a vó foi embora. A passagem da vó pela terra se parece com o dia de hoje. Acomodado preceito antigo no novo.
A vó era fenômeno. Natural noturno. Em ficção, noturno para Pernambuco. Noturno do Cumbuco. Suposta origem elétrica de raias, faixas. Às vezes, feixes. Arcos de luz da Catedral da Luz, da matriz de Santana, dos arcos da Lapa.
Apareceu no firmamento do vô. Nas latitudes mais altas. Mormente nas regiões árticas.
A vó foi nota de arranque, de ataque de voz do coral aqui de casa. Pivô de toda nossa história. Este narrador agora chora. Chove chuva lá fora. Aurora de brancura branca; de brancura alva, de claridade clara. Brancura lavada. A claridade tua alma.
Fim da história.
Avó, outra história. Historinha de ir embora.
Chove. O vô e a vó foram embora. Agora, chove. A vó era Aurora. Esta história é etimológica. Desenho do som do mantra. Coisa sólida. Feixe de sol que abre. Sorrisos daqueles bestas que aurora boreal colore e nos transforma nos transformes.
Créditos na imagem de capa:ChatGpt
