Eu vi coisas que vocês não imaginariam.

Naves de ataque em chamas ao largo de Órion.

Eu vi raios-c brilharem na escuridão, próximos ao Portal de Tannhäuser.

Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.

Hora de morrer.

 

Discurso na última cena do replicante Roy Batty, em Blade Runner

 

A Meta, dona do Facebook e Instagram, anunciou a demissão de 600 especialistas do setor de AGI e superinteligência, ou seja, a inteligência artificial geral de estado da arte. Foi um movimento esperado, que já havia sido antecipado pelo CEO da empresa, Mark Zuckerberg. Não se trata de um recuo, como pode parecer à primeira vista, mas justamente de movimento contrário. A empresa está racionalizando contratações anteriores e realocando seu quadro, visando exatamente impulsionar o desenvolvimento de superinteligência artificial. Mas há outra nuance, sub-reptícia e profundamente reveladora: O fato de que essas demissões são possíveis exatamente porque é a própria IA quem está eliminando cargos e funções, assumindo postos e atribuições até então exclusivamente humanas.

Mencionar isso pode soar como “chover no molhado”, dirão alguns. Sim, de fato não é novidade que a Inteligência Artificial (IA) exacerba um movimento antigo, o de substituição do trabalho humano pela máquina. A novidade, contudo, é que isso esteja atingindo, e tão prematuramente, pessoal altamente especializado. Ora, que a tecnologia coloque no olho da rua o cidadão médio que pouco ou nada pôde estudar, obter algum preparo profissionalizante, já não escandaliza a ninguém, virou lugar comum. Aliás, nem é novo, remonta aos primórdios da revolução industrial. Mas aqui não se trata disso. Estamos falando da substituição de mentes altamente treinadas, capacitadas, mão de obra agraciada com os maiores salários do planeta. Trata-se da perda de emprego por parte das aves raras da sociedade tecnológica, justamente as que colocam os ovos de ouro. E isso sim, é novo no cenário e contraria uma crença quase religiosa e que apregoa, já há algum tempo, que a superespecialização resguarda profissionais de altíssimo grau de capacitação das guilhotinas high tech. Bem, não é o que está parecendo. Ao menos em vista desse movimento da Meta, o qual, muito provavelmente, não será caso isolado.

Estamos num mato sem gps?

Mas então, se isso for verdade, cabe a pergunta óbvia: Afinal, quem ainda pode colocar a cabeça no travesseiro sem ter pesadelos com o fantasma da obsolescência profissional? O que é que você, que não tem QI 240, pode fazer para se blindar de uma tecnologia que não poupa nem a seus próprios geniais criadores e numa velocidade que impossibilita qualquer reação?

— Calma, não sejamos alarmistas… — é o que dizem alguns analistas. Tudo se ajeita, as IAs não dominam habilidades humanas difíceis de replicar, como pensamento crítico, criatividade, liderança, empatia. É o grupo dos Integrados, uma classificação criada por Umberto Eco, que se opõe a outro grupo que ele denominou Apocalípticos. Eu bem que gostaria de fazer fila com os Integrados e crer que as IAs realmente estão distantes da possibilidade de desempenharem tais papéis e temos tempo para adaptação. Mas não. Já andei dizendo em outros ensaios que não há mais espaço para ingenuidades e o fato é: em muito pouco tempo essas lacunas nas capacidades das IAs serão superadas. Aliás, subestimar desenvolvimento tecnológico é mais comum do que se imagina. Bill Gates criou um gargalo na capacidade de acesso à memória RAM, quando projetou o DOS, sistema operacional precursor do Windows. Fixou o limite em míseros 640 KB. Quando questionado, respondeu: Porque motivo alguém pode querer mais memória RAM do que isso? Bem, o tempo passou e, hoje, qualquer computador caseiro precisa de pelo menos 8GB de RAM para funcionar de maneira satisfatória. Uma bagatela de cerca de 13.000 vezes a quantidade estimada como máxima por Gates em 1980. E por que? Porque mesmo um visionário como ele, pode subestimar desenvolvimento tecnológico. Ele não acreditava no potencial da computação pessoal, imagine no computador na palma da mão, presentemente realidade cotidiana e banal.  Então, não se trata de sermos Apocalípticos, mas de enfrentar a dura face dos fatos que se apresentam. Temos um competidor tenaz e talvez feroz, que se aperfeiçoa diuturnamente, não se cansa, não sofre de estresse, não come, não dorme, está permanentemente conectado e processa dados a velocidades cada vez maiores, turbinado por redes neurais crescentemente sofisticadas que aprende às nossas custas, conhece toda a produção humana em toda e qualquer área, em termos de rede é onisciente, onipresente e, ao menos por enquanto, ainda não onipotente. E a pior parte, a serviço da classe dominante. Claro. Ou você acredita que as mega empresas desenvolvedoras das IAs oferecem versões gratuitas para atender aos seus interesses?

Por favor, não esqueça, é importante: Não temos mais tempo para ingenuidades. Não custa lembrar que a Albânia já tem uma ministra IA.

Aqui, quem ladra não apenas avisa. Morde.

Para quem acompanha de perto a evolução dos Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs) e das IAs generativas, a curva de aprendizado e as novas capacidades que surgem são, de fato, subestimadas por muitas análises tradicionais. Se considerarmos que a “tomada de decisão mais acertada” é aquela baseada na análise de grandes volumes de dados, conhecidos no meio tech como  Big Data, na identificação de padrões complexos e na previsão de resultados com alta precisão, como prever falhas estruturais, otimizar a logística de suprimentos ou calcular o risco de um investimento, a IA já está apresentando desempenho superior ao do ser humano. No que concerne a fatores como senso crítico e empatia, a obtenção dessas capacidades num prazo relativamente curto, em torno de cinco anos, está de acordo com as metas de desenvolvimento da AGI e da superinteligência. E com relação às questões éticas… bem, não quero parecer cínico aqui, mas convenhamos… ética nunca foi o forte dos humanos. Nesse quesito, provavelmente passaremos vergonha muito cedo. Além disso, a ética que sempre prevaleceu foi a da classe dominante e, consequentemente, não haverá surpresas. Lógico, porque IAs são treinadas com dados que refletem a versão da história, as prioridades e os vieses, sejam sociais, econômicos ou políticos, de quem as cria e financia. Leia-se: As grandes potências tecnológicas e econômicas, os donos do capital. O que a sociedade global aceita como “normal” — Gaza, massacre nos complexos do Alemão e da Penha, no RJ, — é internalizado pela IA como parte do status quo. Ela é uma ferramenta para otimizar o mundo como esses grupos de poderosos querem que seja e, evidentemente, não como nós gostaríamos que fosse. Ao automatizar decisões na área de justiça criminal, finanças ou até mesmo em estratégias militares e de segurança pública, como o uso em operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro, a IA tem o potencial de tornar esses sistemas mais eficientes em manter as estruturas de poder e as desigualdades existentes, consolidando “a ética dos donos do mundo”.

Existe alguma esperança, na dicotomia entre apocalípticos e integrados?

Esperança é o que resta quando já não sobra nada. É irracional pela sua própria natureza, uma imensa vantagem especificamente humana. A esperança é a nau dos desesperados, por contraditório que pareça. Mas o ser humano é mesmo um poço de contradições e a esperança nos garante que, aqui também, haja o que os budistas denominam “caminho do meio”. Talvez não precisemos assumir a postura carregada de cinismo conformado dos integrados e nem a máscara derrotada e sombria dos apocalípticos. Porque apocalípticos e integrados são duas faces do mesmo espelho: ambos acreditam que a história lhes pertence, eles têm sua própria narrativa e versão. Mas talvez estejamos diante de uma nova etapa — a da História Total — em que não há mais dentro nem fora, nem profecia nem progresso e a desconfiança acerca de verdades e versões ameaça rasgar a camisa de força imposta pela historiografia euro centrada. O caminho do meio é, portanto, a lucidez, que nos possibilita ver todos os lados simultaneamente, como numa tela cubista de Picasso.

A questão passa pela compreensão do papel do Estado, agente regulador dos papéis sociais, econômicos, políticos, religiosos e culturais. Ou seja, o Estado nos vigia e regula sob todos os pontos de vista, incluindo aí o papel das IAs. E como se sabe, o Estado existe para garantir as prerrogativas da classe dominante, porque o Estado é um instrumento dela, da burguesia. E aqui poderíamos substituir o termo Estado por Capital. Não há novidades, Marx e Engels nos ensinam isso há mais de um século.

Bem, mas e nós?

Talvez o único papel que um humano comum possa assumir seja o de tentar organizar grupos de resistência para mudar o poder de mãos ou, ao menos, a lógica de funcionamento do Estado. Nesse sentido, contar com pessoas altamente bem preparadas representa uma diferencial determinante. O cenário que se descortina, a nossa rota, é de ruptura civilizacional, como tem sempre destacado a filósofa Marilena Chaui. De um mundo semelhante ao da ficção científica de catástrofe, onde a resistência viverá nos porões, lutando pela sobrevivência e buscando os meios para recuperar o controle da própria existência, mistura sinistra de Matrix, Blade Runner e Mad Max. Uma mudança de rota é a única alternativa possível a esse cenário apocalíptico. E quando digo pessoas altamente bem preparadas, não estou me referindo exclusivamente a um tipo de letramento tecnológico, científico ou matemático. Também. Mas me refiro a um preparo muito mais abrangente, que nos conduza ao que o Paulo Freire denominou, muito apropriadamente, educação libertadora.

Nesse sentido, alguns passos poderiam ser úteis, como por exemplo: Introduzir nas escolas e na educação de adultos a literacia algorítmica. Não perguntar o que a IA faz, perguntar “Quem se beneficia com essa decisão da IA? Quem paga por ela? Que dados foram excluídos?” Desmistificar a IA como mágica e revelá-la como um cálculo otimizado, enviesado e servo de interesses alheios. Ensinar a pressionar políticos por leis que exijam “Direito de Explicação Algorítmica” em decisões que afetam a vida das pessoas, como emprego, saúde, segurança. E jamais, jamais subestimá-la.

A luta começa com a exigência de transparência. A tecnologia open source oferece uma alternativa ética e técnica, mas a inércia social e a falta de conscientização transformam essa escolha em algo marginal, relegado a entusiastas ou nichos específicos. Usar software livre muitas vezes exige um custo de aprendizado e adaptação que, mesmo sendo pequeno, a maioria das pessoas não está disposta a pagar. A submissão é, paradoxalmente, o caminho de menor resistência.

Mas isso não basta. O ser humano perdeu o sentido do belo, do ético, do sobre humano. Está brutalizado e o imediatismo grosseiro impera. Nietzsche já denunciava isso cem anos atrás, assim como Benjamin. Darcy Ribeiro tentou reabilitar e educação no Brasil, mas foi combatido e derrotado. Hoje é o caos. E não é por acaso que os governos de direita retiram dos currículos a filosofia, sociologia, história, artes e quaisquer disciplinas que possam cultivar o espírito humano. Elas são libertadoras, no mais genuíno sentido Freireano.

História Total: O papel do ensino

Acredito firmemente que o ensino de história tenha um papel de destaque nessa estratégia de combate e resistência. Não se trata apenas de uma disciplina, mas de uma visão de mundo. Ao exigir a História em sua totalidade — do pensamento, da arte, da ciência, das religiões, das diversas tradições e culturas mundo afora e não apenas da política ou da economia — eu a proponho como sendo a única arma capaz de combater a brutalidade do imediatismo: a perspectiva de longo prazo. Como um antídoto para as mazelas decorrentes de pensamentos estreitos, lateralizados e formatados por vieses obscuros e inconfessos. História como disciplina essencial, em todas as séries, no ensino superior inclusive, em todos os cursos. Mas que superasse definitivamente o foco na descrição de eventos e cronologias e trouxesse à cena os elementos que realmente podem contribuir para uma mudança real de perspectiva por parte dos atores subalternos. Mostrar como diferentes sociedades, na Grécia Antiga, na China Imperial, em comunidades indígenas, nos Andes, na Mesoamérica, definiram “ética” e “justiça”. Expor que não há uma única “verdade”, mas que o debate sobre os valores é eterno e vital. Estudar momentos em que a liberdade foi sacrificada por segurança, ordem, progresso tecnológico, ou simplesmente ódio cego e as consequências a longo prazo dessas escolhas. Por exemplo, a censura na União Soviética versus a vigilância atual das Big Techs, o Grande Irmão de Orwell, em 1984. Através da História da Arte e das Religiões, levar o discente a habitar mentalmente a visão de mundo do “outro” — o estrangeiro, o inimigo, o diferente — a fim de que a empatia se torne um reflexo cognitivo, uma segunda natureza.

A História Total não forma filósofos, mas ajuda a pensar de forma crítica. Não torna a pessoa uma socióloga, mas fomenta a compreensão das relações sociais. Não desenvolve talento artístico, mas permite que se vislumbre a multiplicidade de possíveis compreensões acerca da realidade humana. Não promove a fé, mas fornece ferramentas para que se perceba que existe mais pontos em comum do que diferenças, entre as diversas crenças e religiões. Não muda o mundo, mas prepara os indivíduos que podem propor mudanças com base em novos valores.

Compreender com a razão e internalizar com sentimento todas essas questões seria o objetivo final da educação da resistência. O despertar. A chave para que o “sonâmbulo” não veja o noticiário, o algoritmo ou a política como fatos neutros, mas como produtos intencionais de um centro de poder. Para que o eleitorado não vote num candidato que vai congelar seu salário, aposentadoria. Ou tentar convencê-lo de que vacina mata. E para que legisle em pró de um Estado que o proteja do projeto de substituição humana por tecnologia cibernética, única alternativa realista capaz de combater a possibilidade concreta de que os postos de trabalho sejam ceifados, sejamos hiper especializados ou não.

Não há outro caminho e, se não começarmos a abrir essa picada no mato, talvez em poucos anos já não haja mais caminho. Sequer mato.

egeo

 

 

 


Créditos na imagem de capa: egeo