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Resenhas

Machine Messiah: a sociedade sob o domínio da técnica

O rápido avanço tecnológico tem tornado mais evidente aquilo que a Teoria Crítica já nos alertava: o avanço tecnológico dentro da lógica capitalista pode ser uma armadilha, pois no lugar de ajudar no processo de emancipação leva a alienação, domesticando os indivíduos e lançando-os em uma sociedade marcada pela desigualdade social. Considerando o pessimismo da razão, típico desta teoria, e observando os desdobramentos contemporâneos, não é preciso ser pitonisa para constatar que o supercomputador, o Multivac de Isaac Asimov, começa a perder sua aura de ficção para tocar no real. A massificação que já era um fato desde o século passado, agora desdobra-se em uma complexa coisificação dos indivíduos. Diariamente somos bombardeados por informações falsas e conteúdos vazios, tais como os shorts, que mal conseguimos assimilar e já somos colocados diante de outro.

Diante disso, emerge a sensação de aceleramento do processo histórico e uma percepção de que, a depender dos direcionamentos sociais, determinadas contradições tendem a ficarem mais acirradas. Em verdade, todos estamos sendo impactados em alguma medida, seja psicologicamente, corporalmente, culturalmente, economicamente… O próprio mundo do trabalho, em particular, e o sistema econômico, de modo geral, tem acirrado as suas contradições. O processo de produção e reprodução das ideologias negacionistas, por exemplo, tem alcançado velocidade exponencial e produzido retrocessos civilizatórios — que vão do “terraplanismo” às normatizações do “Terceiro Reich” — os quais afetam todas as esferas sociais.

É sob este prisma que interpretamos o 14º álbum da banda Sepultura: Machine Messiah. As letras foram produzidas, em sua maioria, por Andreas Kisser e Derrick Green e ganharam a cena musical em 2017, muito antes do lançamento do Chatgpt e do encharcamento das redes com áudios, vídeos e imagens de IA. Trata-se de uma crítica à robotização da nossa sociedade, que cada vez mais deixa de ver a tecnologia como uma ferramenta para tomá-la enquanto substituta da própria vida. O álbum traduz sonoramente a dinâmica do indivíduo assujeitado e do condicionamento da vida pela técnica, o que nos torna refém do emaranhado de redes ideológicas que cancelam o futuro enquanto possibilidade do novo. É um soco no estômago da sociedade, sobretudo neste atual momento, quando ocorre a rápida ascensão da IA e da robótica.

A música de abertura, que também nomeia o álbum, dá o tom da novidade: a faixa demonstra que a banda continua capaz de se reinventar, podendo também flertar com o melódico. Este flerte, não apenas se resume ao instrumental, mas também emerge na postura vocal de Derrick que apresenta outra camada de voz, para além do gutural. Quanto à letra, somos capturados pela metáfora apocalíptica que traz a figura da “besta” como representação da tecnologia divinizada, que inverte a relação sujeito-objeto. É o novo messias que emerge das profundezas: Machine Messiah. Ela promete te dar tudo: “I’ll give you everything”. Por outro lado, pode tirar tudo, inclusive os nossos sentimentos: “prepare to feel nothing”. Essa máquina anuncia, eloquentemente, a morte da alma, da autenticidade: “the soul is dead”. Observando o desdobramento da narrativa, pode-se notar a constituição de uma nova crença, agora direcionado a todo artefato tecnológico.

Na sequência temos I Am The Enemy, que traz uma espécie de remédio: “open your mind and attention”. A letra nos incita a manter a mente aberta e atenta às coisas que vemos e ouvimos, pois do contrário seremos iscas fáceis das tramas conspiracionistas. “Re-humanize our lives!”, com certeza, é um chamado para que, de fato, consigamos tomar as rédeas da vida e nos humanizar, não nos deixando sucumbir às teias que nos aprisionam. Esta música quer lembrar que, ao resistirmos e realizarmos intervenções conscientes no mundo, não apenas humanizamos as nossas relações, como também humanizamos a nós mesmos. E a frase final afirma categoricamente: “you are human”, nos lembrando da nossa humanidade e indicando que ainda podemos interferir e reinventar a nossa sociabilidade.

Phantom Self descreve uma tragédia singular: um acidente de automóvel que deixa sequelas e altera a personalidade do sobrevivente. Considerando o contexto geral do álbum, facilmente identificamos que se trata de uma crítica a robotização e a crescente desumanização, que tem levado a perda de autenticidade.

A quarta música, Alethea, vem como uma denúncia no processo de subjetivação realizado pelas diversas esferas sociais, incluindo a própria educação formal que é atravessada pelos valores das classes dominantes, os quais nos fazem acreditar em uma história paralela, distante da verdade, que convém apenas a elite. A crítica também abarca o mundo televisivo, dominado pela elite corporativa, que também contribuiu para a formação do sujeito alienado, controlado pelo medo constante inculcado pelo jornalismo sensacionalista. Ainda, observa-se a denúncia acerca das conciliações de classes e falsas dicotomias: “Left, right, all: A con”. Não se trata de uma crítica aos ideais progressistas, mas das simulações e do uso de nomenclaturas que não correspondem aos reais interesses. Por isso, a letra aponta para a clareza da radicalização: “my choice, blood in my eyes”. E, finalmente, a música encerra em tom de resistência: “Scars won’t break me”.

Em seguida, nos deparamos com um fôlego técnico, proporcionado pela Iceberg Dances, que de alguma maneira parece preparar o terreno para uma explosão de consciência ética em Sworn Oath. Se o instrumental explora a dualidade entre o caos metálico e a sofisticação do violão de Andreas Kisser, apontando para uma reelaboração estética da própria banda, a composição de Sworn Oath atua como o despertamento de consciência, que sugere um renascimento sem limitações: “It’s the start of a rebirth without limitations”.

A sétima composição sai de uma crítica mais abstrata, presentes sobretudo em Machine Messiah e Alethea, para ganhar contornos muito concretos diante da exploração dos corpos e da terra. O trecho “Plant toxins. Buy cheaper. Buy” nos leva a refletir sobre a nossa relação com os alimentos e como somos economicamente forçados a consumir alimentos contaminados por agrotóxicos devido aos preços. E enquanto somos infectados para sobrevivermos, por outro lado, as ações e os lucros vão aumentando: “More money. Raised profits”. Assim, a letra identifica as corporações como os verdadeiros parasitas que se alimentam do sofrimento: “Mass suffering, look what they’ve done”. Sob esta perspectiva, a faixa expõe a face predatória do sistema vigente, onde a vida é reduzida a uma coisa descartável.

Silent Violence, a oitava faixa é difícil ouvi-la sem associá-la ao burnout. A letra descreve toda a dor e estresse produzido pela mecanização da vida e pelas agressões diretas e silenciosas, comuns aos ambientes de trabalhos hostis e exploratórios. Tudo isso vai se acumulando e cria um tipo de demônio interno, um estado depressivo. Por conseguinte, a música denuncia que o mundo do trabalho afeta a saúde mental devido a constante exigência de produtividade a qualquer custo.

A penúltima faixa, Vandals, nos leva a um ambiente de desintegração no qual nada funciona. A letra questiona as ideias da ordem e do progresso e aponta para um cenário de ruínas onde o progresso prometido se revelou uma ilusão vazia. Em seguida, vem a última música, Cyber God, que encerra o álbum com uma crítica ao mundo digital. Novamente o aspecto melódico retorna, com Derrick explorando novas técnicas vocais. A letra aponta que o Deus cibernético coloniza e captura mentes, transformando as pessoas em simulacros de gente, que desferem os seus julgamentos e ódios através de suas telas. Trata-se de referências aos ataques virtuais e toda deterioração humana que emerge nos limbos das redes sociais. Mas, diante de tudo isso, a letra conclui que a verdadeira libertação reside na recusa em se deixar absorver: “the fight is strong. I won’t retreat”.

Por fim, o que podemos dizer sobre este álbum é que ele é extremamente conceitual e trouxe um novo tom à banda Sepultura — tom este que reapareceu no álbum Quadra, evidenciando a capacidade do grupo de se reinventar e prosseguir, mesmo após décadas e diversas alterações em sua formação. Ainda, acerca desta minha interpretação — tomando emprestadas as palavras de um historiador E.P. Thompson — pontuo que ela deve ser compreendida como provisória e seletiva e, justamente por isso, deve estar aberta a outras considerações.

SEPULTURA. Machine Messiah. Örebro: Nuclear Blast, 2017. 1 CD.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Sepultura: Machine Messiah. Disponível em: https://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/entre-tradicao-e-inovacao-sepultura-reitera-o-peso-em-machine-messiah.html

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