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Além do olhar: as artistas do Brasil

Memória Caatingueira

A utilização de energia renovável é considerada uma das alternativas à exploração desenfreada dos combustíveis fósseis. Tem-se que a adoção de fontes de energia elétrica como a eólica abrem a possibilidade de um impacto ambiental menos significativo, ou ainda, menos prejudicial à longo prazo. A energia eólica utiliza aerogeradores para converter a energia cinética do vento em eletricidade. Renovável, limpa e sustentável. Mas será que podemos falar de uma isenção de impactos ambientais e de impactos sócio-históricos na aplicação desse tipo de energia? Essa é a pergunta que norteia o trabalho de Yasmin Formiga, que é artista visual, educadora e ativista ambiental. 

Nascida em Santa Luzia (PA), cidade em que vive e trabalha atualmente, Formiga é graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal da Paraíba (UFPA). Sua obra se aprofunda nos desafios socioambientais e territoriais da Caatinga, um bioma singular do Nordeste brasileiro. Sua pesquisa mais recente é um grito de alerta: ela expõe as contradições e os impactos da monocultura de energias renováveis, com destaque para as usinas eólicas e solares que, ao invés de soluções, se revelam como uma nova forma de neocolonialismo e apropriação do território no sertão nordestino. Diante desse cenário, Yasmin nos convida a repensar nossa relação com o semiárido. Ela propõe diálogos entre espécies, experiências de comunhão com a natureza e práticas de pertencimento, abrindo caminhos para outras formas de habitar e cuidar desse espaço. A artista quebra o estereótipo da Caatinga como um lugar inóspito e sem vida, convidando a um olhar mais sensível, político e engajado na valorização de um bioma historicamente explorado e ignorado. A arte de Formiga nasce do contato direto com a matéria orgânica. É com esse insumo que a ativista cria performances-instalações, obras de land art, objetos de memória, bandeiras e pinturas. Tudo com um propósito claro: conscientização ambiental. Sua prática evoca uma cosmovisão caatingueira profundamente enraizada no território, nos saberes ancestrais e na resistência desse povo.

Essa perspectiva do cuidado interespécies dialoga com a preocupação de Ana Kemper, apresentada anteriormente nessa coluna. É importante pontuar a relevância dos aspectos tempo e espaço nas duas concepções discutidas. História, memória, natureza, identidade e conscientização são as palavras-chave. A abordagem por meio da land art, comum às obras das duas artistas, reforça a emergência de uma visão integrativa da arte. Em tempos de Antropoceno, não podemos nos permitir acionar a discussão da preservação ambiental apenas quando a natureza dá sinais claros e nem apenas quando esses sinais nos afetam diretamente: estaríamos, então, nos fechando para um movimento que ocorre além do nosso olhar, além do nosso sentir, mas que tem se feito presente há décadas sob formas e dimensões variadas. Não cabe, portanto, o instantâneo abandono dessas temáticas no meio científico.

O decolonialismo é, na obra de Formiga, o que deve nos chamar à uma visão mais crítica acerca dos fenômenos do Antropoceno e de suas implicações locais. A performance Ponto de ativação (Complexo eólico de Canoas), de 2024 nos leva por uma experiência profundamente arraigada nos conceitos de memória e de pertencimento. A artista caminha pelo cenário inicial, o complexo eólico de Canoas, e nos são mostradas pedras empilhadas em um local árido, sem vegetação. Yasmin Formiga caminha e as pás dos aerogeradores giram sem cessar. O som produzido por esse movimento, causado pela força do vento, é constante e ininterrupto durante toda a performance de Formiga, não nos deixando esquecer do motivo de sua presença e de sua performatividade. Formiga passa, então, a buscar as pedras e a aloca-las em formato de um círculo no chão. Uma a uma, e cuidadosamente escolhidas e posicionadas no círculo, as pedras passam a marcar um espaço ritualístico, ou algo muito semelhante a isso. A land art de Yasmin Formiga está envolta em uma série de possibilidades de memória ancestral. O ato de carregar as pedras individualmente, sem a pressa de recolher e alocar mais de uma por vez, nos leva a uma narrativa que se repete por algumas vezes e, por isso mesmo, tem seu potencial de diálogo com o espectador ampliado. Podemos pensar, por exemplo, que o nosso esforço em prol da proteção e do cuidado com a natureza deve ser proporcional ao nosso descuido com a mesma: afinal, todo esse estrago não foi feito em uma década ou duas. Tivemos tempo o suficiente para pensar em nossos atos. Compensar o descaso com cuidado. A lógica do curto prazo com a criação de condições de possibilidade para a conscientização socioambiental.

Uma outra possibilidade de interpretação, também abordada por Renata Fernanda Lima de Melo em seu texto crítico acerca da obra Aqui Tem Mulher-Sertão (2020) de Formiga é a associação com os rituais pagãos e com a presença feminina em sua integração com a mãe terra. Na obra de 2020, a artista paraibana repete a forma ritualística, porém, ainda sem o enfoque nas questões das energias renováveis e sim numa performance que coloca no centro da narrativa a mulher sertaneja, suas histórias e suas identidades, mais uma vez evocando a noção de pertencimento não apenas a um território politicamente delimitado, mas a uma comunidade caatingueira. Voltando a Ponto de ativação, o feminino também é trabalhado. A começar pelas vestes de Yasmin Formiga, que lembram vestes ritualísticas pagãs. O trabalho, refletido no ato de pegar as pedras e carregá-las até o local desejado, também remete a uma ancestralidade em comunhão com os elementos naturais. A performance se segue com o posicionamento de uma bacia de argila com água, um cacto e algumas folhas ao centro do círculo de pedras. O cuidado ao reunir esses elementos, assim como no ato de partir com as mãos as folhas e as colocar na bacia, nos envolve em um movimento de concentração no momento presente, como se estivéssemos com a artista, experimentando todas as sensações que ela propõe com a obra. Formiga usa a água com as folhas para lavar o rosto e, repetindo a ação, nos lembra, novamente, das práticas ancestrais de cura e de proteção (presentes em crenças diversas, como as nórdicas, as nativas brasileiras e as africanas, por exemplo). Mesmo para quem habita um ambiente urbano, longe da caatinga, não é difícil assimilar o papel espiritual das plantas e da água, basta lembrar das benzedeiras. Segue-se a essa limpeza uma dança ao redor dos elementos do ritual de Yasmin Formiga. 

O ponto de ativação na obra da artista refere-se a uma intervenção da memória no desenvolvimento de atividades que ferem a existência histórica das comunidades e da natureza da Caatinga. A questão da proteção é muito presente na obra de Formiga. Em outras obras, como Antropofagia Caatingueira, Ponto de ativação (complexo eólico de Chafariz), Instrumento de Proteção e Proteja a Caatinga, a artista e ativista torna a acionar a coletividade como instrumento de resistência ao neocolonialismo. A presença e o impacto das empresas de energia elétrica não devem ser isentados de crítica por se tratar de fontes renováveis. Ao contrário, devemos nos atentar para as justificativas elaboradas para essas ocupações, que impõem às comunidades e à biodiversidade locais adaptações e limitações significativas. Além do desmatamento e da ameaça à biodiversidade, a fragmentação dos habitats na Caatinga é outro fator preocupante, com a abertura de estradas a instalação das infraestruturas que atendem a esses empreendimentos, dificultando o deslocamento das espécies animais e vegetais segundo seus cursos naturais, além de acentuar os riscos de alterações nos ciclos hidrológicos e as possibilidades de contaminação da água disponível devido às interferências nos processos de construção das estruturas. Pesquisas como as da própria Yasmin Formiga (2023) e de outros estudiosos como Elisson Lima (2023), Cleiton Couto (2024) mostram os impactos dessas iniciativas no território nordestino. No que tange aos impactos socioambientais, destaca-se o conflito por terras com as comunidades locais, nas quais se incluem uma maioria de comunidades quilombolas e de agricultores familiares. Ambas as saúdes do solo e das pessoas se encontram ameaçadas pela implantação das usinas, potencializando o prejuízo socioambiental. Por fim, não podemos deixar de citar o impacto paisagístico, que está ligado diretamente à existência e à memória dessas comunidades.

O estigma de um ambiente árido, sem vida e sem memória, a partir do qual parece ser justificada a ocupação sem cuidado ou remorso da Caatinga, é veementemente criticado pela arte de Yasmin Formiga. A artista mostra o risco de se carregar esse estigma também pelo prisma da própria identidade nacional, uma vez que a Caatinga é o único bioma exclusivo do território brasileiro, o que implica que as espécies habitantes desse ecossistema também são únicas, não podendo ser encontradas em outra localidade. Formiga critica o fato da importância da Caatinga quanto aos seus serviços ecossistêmicos não ser tão mencionada, ou ainda, ser ignorada, em eventos e discussões voltados à preservação e cuidado com o meio ambiente. É importante lembrar que, dentre esses serviços, a Caatinga é responsável por regulações e controles fundamentais para a região e para o planeta, se pensados em uma escala além da nacional. Regulações climáticas e hídricas, controle de erosões e a provisão de recursos às comunidades vem sendo deixados de lado em face de uma lógica neocolonialista. O valor cultural e social da Caatinga remonta à cultura sertaneja, influenciando a culinária, música, religiosidade e as festas populares. O conhecimento acerca do uso sustentável de seus recursos e a convivência com o semiárido, ponto essencial da obra da ativista, são de domínio das comunidades tradicionais que habitam a região. Transcendendo a expressão artística, a pesquisa de Yasmin Formiga centra-se na investigação das pedagogias e poéticas inerentes à Caatinga como arcabouços teórico-metodológicos para a compreensão e atuação diante desses processos. Argumenta-se que os saberes ancestrais, as narrativas orais, as práticas socioculturais e as formas de organização comunitária são mobilizados como recursos epistêmicos e práticos para a contestação da lógica extrativista e para a construção de modos de vida alternativos e sustentáveis.

A artista destaca a relação ontológica entre os povos e o bioma Caatinga, evidenciando como essa simbiose molda as identidades locais, as cosmologias e as táticas de resistência. A pesquisa de Formiga sublinha a capacidade dessas comunidades de “catingueirar”, termo que designa a engenhosidade e a resiliência intrínsecas ao semiárido, transformando as adversidades em potencialidades para a autonomia e a autogestão territorial. O trabalho de Yasmin Formiga constitui uma contribuição significativa para os estudos sobre territorialidades, lutas sociais e ecologias políticas demonstrando como as comunidades do Vale do Sabugy, por meio de suas pedagogias e poéticas enraizadas na Caatinga, articulam formas de resistência e propõem epistemologias outras diante do avanço do neocolonialismo energético, reafirmando a soberania e a autodeterminação dos povos do semiárido brasileiro.

 

 

 


REFERÊNCIAS

 

COUTO, Cleiton Teixeira. A Implantação da Mineração de Ferro e do Parque Eólico na Comunidade Cachoeira de Baixo, Guirapá–Pindaí-BA: Relações de Pertencimento Representadas na Escola. Caetité: Universidade do Estado da Bahia [Dissertação de mestrado], 2024.

FORMIGA, Yasmin da Nóbrega. Pedagogias e poéticas catingueiras: modos de enfrentamento do neocolonialismo e das energias renováveis desde o Vale do Sabugy. João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba [Monografia de conclusão de curso], 2023.

LIMA, Elisson Ygours Costa de. Impactos sobre a fauna associados à fase de instalação de empreendimentos eólicos no Estado do Rio Grande do Norte. Natal: Universidade Federal do Rio Grande do Norte [Monografia de conclusão de curso].2023.

MELO, Renata Fernanda Lima de. Um ritual de destruição hegemônica. In: Prêmio Pipa – Yasmin Formiga. Disponível em: https://www.premiopipa.com/yasmin-formiga/ Acesso em 24 de junho de 2025.

Prêmio Pipa – Yasmin Formiga. Disponível em: https://www.premiopipa.com/yasmin-formiga/ Acesso em 24 de junho de 2025.

 

 

 


Créditos da imagem da capa: Reprodução. Ponto de ativação no complexo eólico Canoas. In: Prêmio Pipa – Yasmin Formiga. Disponível em: https://www.premiopipa.com/yasmin-formiga/ Acesso em 25 de junho de 2025.

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