Esse texto integra a pesquisa “Tempo histórico, sonhos e a pandemia da covid-19: sonhar a morte, narrar o absurdo”, financiado pela FAPEMIG, Demanda Universal 2022.
O último momento que eu estive com o meu filho, que eu fui reconhecer, ele estava dentro de um saco. […] Eu não pude dar um abraço no meu filho, eu não pude dar o último beijo. Eu cheguei a levar uma roupa para vesti-lo. […] Eu tive que ficar parado três horas, na porta do cemitério, ou quatro, olhando um carro, sabendo que o meu filho estava ali dentro, para ser enterrado.[1]
Eram muitos os mortos naquele 11 de junho de 2020, feriado do Corpo de Cristo. Abriram covas e fincaram cruzes na areia da praia de Copacabana para lembrá-los. Se precisavam ser lembrados, de alguma parte, já estavam esquecidos. Um homem enrolado junto à bandeira do Brasil arrancou com ferocidade as cruzes, jogou-as no chão. Outro homem, pai de um filho morto pela peste, com a máscara no rosto, foi reerguendo com ternura e firmeza os crucifixos derrubados pelo ódio. Como o anjo da história de Walter Benjamin, ele sofre diante da catástrofe. Mas diferente do anjo que foi obrigado a seguir adiante pelo vento que não o permitia parar; o pai se deteve, cuidou e se apiedou dos que foram. O pai hoje está morto. Alguns meses depois da peste, partiu com dores no coração.
A cena em questão poderia ter sido um sonho, um pesadelo de Márcio Antônio do Nascimento Silva, que perdeu o filho, Hugo Dutra do Nascimento, em abril de 2020 por complicações do coronavírus. Não bastasse a perda, viu o filho morto ser violentado quando em uma ação da ONG Rio de Paz, que homenageava as vítimas da Covid e exigia ações políticas do governo de Jair Bolsonaro para que enfrentasse a crise sanitária, viu as cruzes serem derrubadas odiosamente. No mesmo mês da partida de Hugo, Bolsonaro, ao ser questionado sobre as mortes e o caos funerário, afirmou com deboche “Eu não sou coveiro”. Disse ainda que a “Covid apenas encurtou a vida delas por alguns dias ou algumas semanas” e que como “como uma chuva”, a pandemia atingiria a todos. E enquanto Bolsonaro verbalizava o horror, roubava para si a palavra, restou para alguns o espanto e a tristeza. Estávamos sós com os mortos, com o medo. Mas uma linguagem que parecia faltar brotou em sonhos.
Sonhei que estava andando na rua quando me dei conta de que estava sem máscara. Em desespero corri até uma farmácia no intuito de comprar alguma, mas, chegando lá, não encontrei o que buscava. Ao sair da farmácia, senti uma vergonha profunda por estar sem máscara na rua, uma sensação de estar totalmente exposta, desprotegida. O meu receio era o de que estar sem máscara pudesse parecer, aos olhos dos outros, que eu era apoiadora do governo Bolsonaro. Acho que isso foi o que me causou mais angústia. [2]
C.Rio de Janeiro. 05 de agosto de 2020
Estava num restaurante com meus pais, todos estavam sem máscara. Eu me sentia incomodada e ia embora. Estava usando meu cachecol favorito enrolado na cara. Ia andando para casa. Via no aplicativo que iria andar muito. Passava por uma avenida e via pneus pegando fogo, protestos na periferia. Não dava para passar. Vejo minhas antigas chefes, elas dizem para mim que é muito bom me ver, e me levam até um carro. Lá dentro está uma senhora com quem trabalhei que gosto muito. Sento ao lado dela e choro.[3]
São Paulo. 04 de julho de 2020.
A pandemia da Covid-19 desencadeou uma crise de proporções difíceis de precisar, já que em um período muito curto, instaurou uma realidade distinta para as gerações dos últimos cem anos. O risco da contaminação e de morte; a necessidade da redução das sociabilidades; o colapso de sistemas de saúde e funerários; a impossibilidade de despedida dos entes queridos; a transformação da relação com o trabalho; o redirecionamento do tempo com familiares e com o lar; a solidão e a falta dela são alguns exemplos de uma rede de situações que atravessaram os sentidos e as práticas mais generalizadas que organizavam nosso cotidiano. Embora não seja possível descrever a exata extensão dos impactos sociais e existenciais dessa experiência, para quem a viveu, especialmente, sob o medo da morte, tratou-se de um momento crítico da história global, que assumiu desafios específicos quando levado em consideração marcadores de gênero, de classe social e étnico-raciais.
Dentre as transformações produzidas pela crise sanitária, vale atenção ao impacto dela na nossa relação com a temporalidade – experiências e expectativas foram alteradas em âmbitos individuais e coletivos, ainda que circunstancialmente. No Brasil, compreender os efeitos da pandemia e seus desdobramentos nos modos de apreendermos o tempo, tornou-se um exercício com características muito particulares e desafiadoras, tendo em vista que a crise sanitária foi potencializada por um projeto político que não se preocupou em preservar vidas.
No contexto mais inicial da pandemia, a linguagem pareceu se tornar insuficiente para dar conta do dia a dia pandêmico e do absurdo do cotidiano negacionista. Parecia restar uma profunda e generalizada sensação de perplexidade, espanto e exaustão para aqueles que se colocaram contrários ao projeto que incentivou tratamento com medicação ineficaz, ignorou o colapso em hospitais pela falta de oxigênio, resistiu à vacinação quando ela se tornou possível, não manifestou solidariedade às vítimas e às famílias enlutadas… O modo de governabilidade de Jair Bolsonaro, então presidente, expressava sem pudor o desejo, o poder e o gozo de matar e deixar morrer. Seu governo, somado ao modo como a crise sanitária afetou as pessoas, colocou parte expressiva dos brasileiros diante de um profundo estranhamento em relação ao tempo, produzindo certa sensação de suspensão do futuro.
Esse estranhamento se associava à dificuldade de produzir sentidos à crise vigente e a dificuldade de compreender aquela experiência fazia parecer escapar qualquer senso de justiça possível. Não seria de todo equivocado afirmar que a pandemia abriu uma atmosfera generalizada da angústia, aqui entendida como uma disposição afetiva relacionada ao esvaziamento de sentidos cotidianos, responsáveis por produzirem os direcionamentos existenciais e as ações. Quando há esvaziamento radical desses sentidos, os sujeitos encontram-se diante de uma experiência fundamental, mas perigosa: descobrem-se ontologicamente indeterminados. A angústia suspende, ainda que temporariamente, o poder do mundo, das experiências generalizadas construídas historicamente sobre nós. Isso força a uma pausa, que obstrui certo movimento automático da existência cotidiana, cujas consequências são imponderáveis.
A pandemia também impôs uma fratura ética na medida em que para parte do mundo científico, social e político era doloroso e difícil compreender o motivo pelo qual algumas pessoas preferiram morrer a se proteger e a se vacinar ou porque preferiram arrancar as cruzes de condolência às vítimas do que guardar por elas algum luto, silêncio e respeito. Nessa conjuntura, encontrar na linguagem sedimentada respostas suficientes aos desafios provocados por uma experiência de proporções tão complexas não foi simples e, talvez, por isso, os sonhos foram um caminho para nos aproximar intensamente da angústia e, sobretudo, foram também um modo de a atravessar pela necessidade da narrativa e de seu compartilhamento.
A pandemia foi um período único no que tange ao compartilhamento coletivo de sonhos facilitado pelo acesso às redes sociais. Também foi um período único para dormir, ao menos para aqueles que puderam gozar desse privilégio em razão da alteração das relações com trabalho e do isolamento e para aqueles que não foram atravessados pela insônia. Nesse contexto, houve um significativo aumento de interesses intelectuais na composição de panoramas oníricos que ofereceram um repertório crítico do imaginário e da apreensão psicológica e afetiva do cotidiano pandêmico.
Nesses estudos, inclusive nos que realizei, encontramos uma convergência de análises no que tange ao modo, aos afetos e às imagens sonhadas. Eram comuns sonhos relativos ao medo de pegar o vírus e da morte, à vulnerabilidade perante os agentes e os planos de saúde, o receio do não uso de máscara e a angústia de ordem política que se soma ao não uso dela. Esse tipo de sonho foi tão recorrente, configurando uma espécie de sonho típico, que se assemelhou ao sonho da angústia de estar nu em espaços públicos. O medo produzido pela pandemia e seus desdobramentos políticos se apresentaram, portanto, literal e metaforicamente nos sonhos. Encontram-se imagens com a nova rotina proveniente do isolamento, hospitais, medo e culpa da aglomeração, mas também foram recorrentes os sonhos com ameaças por insetos, espíritos, seres sobrenutrais e por pessoas desconhecidas ou conhecidas. Também profundamente comuns cenas de destruição do mundo por bombas, ataques terroristas, violência policial, a relação com as tecnologias digitais. Os arquivos e as pesquisas de modo geral sinalizam que os sonhos de uma minoria – ao menos daqueles que os tornaram públicos – não repercutiram o medo da covid-19 ou das ameaças provenientes do contexto pandêmico.
Os sonhos foram um modo de experimentar e assimilar intensamente a pandemia e o crescimento no compartilhamento coletivo das atividades oníricas, foram um modo de narrar a experiência do sofrimento, reagindo, de algum modo, ao silenciamento que a angústia impôs. Mas que o futuro se tornou em diferentes níveis uma fonte de angústia a partir da pandemia não parece algo difícil de constatar. Mais importante talvez do que esse diagnóstico seja a pergunta sobre o que fizemos-faremos com ele, o que faremos com a suspensão de sentidos tão radicais (para uns mais que outros/as) que tomaram a forma de um sofrimento agudo, de um sofrimento histórico? É possível perguntar por um legado sobre o modo de relação com o tempo a partir dessa experiência? É que procurarei abordar na segunda parte desse ensaio.
NOTAS:
[1] Trecho do depoimento de Márcio Antônio do Nascimento Silva em 18 de outubro de 2021 para a CPI da Pandemia realizada pelo Senado Federal em 2021.
[2] Sonho 473. Pandemic Dreams Archive. Publicado em 05 de agosto de 2020. Disponível: https://archivedream.wordpress.com/2020/08/05/dream-473/. Último acesso em 31/07/2025.
[3] Sonho 477. Pandemic Dreams Archive. Publicado em 04 de julho de 2020. Disponível em: https://archivedream.wordpress.com/2020/07/04/dream-467/. Último acesso: 31/07/2025.
REFERÊNCIAS:
BARRETT, Deidre. Pandemic Dreams. Oneiroi Press, 2020.
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005.
BORGES, Fabiane; DINIZ, Lívia; FRAZÃO, Rafael; PIMENTEL, Thiago. Onirocracia, pandemia e sonhos ciborgues. Blog N1 edições. Pandemia crítica. 2020.
DUNKER, IANNINI, GURSKI, PERRONE, ROSA (Org.). Sonhos Confinados: o que sonham os brasileiros em tempos de pandemia. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.
MUNIZ DE ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval. A palavra como luto e como luta. In: Peter Pál Pelbart. (Org.). Pandemia Crítica. 1ed. São Paulo: edições SESC; n-1 edições, 2021, v. 01, p. 220-232.
O Onírico. Primeiro Jornal oniropolítico do Brasil. Edição, no 1. Porto Alegre, junho de 2021.
PEREIRA, Mateus; MARQUES, Mayra; ARAUJO, Valdei. Almanaque da COVID-19: 150 dias para não esquecer ou a história do encontro entre um presidente fake e um vírus real. Vitória: Editora Milfontes, 2020.
RODRIGUES, Thamara. SESQUIM, Ilda. AZEVEDO, Helena. (Org.). Escritas do isolamento: afetos e distâncias na pandemia da COVID-19. Rio de Janeiro: Apeku, 2023.
RODRIGUES, Thamara. Utopia, temporalidade e sonhos: sobre o cuidado com a realidade. REMATE DE MALES (ONLINE), v. 44, p. 1, 2024.
SOUZA, Laura Barcellos Pujol de. Ainda sonhar: rastros oníricos do nosso tempo. Tese apresentada de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da UFRGS. Porto Alegre, 2024.
Créditos da imagem: James Ensor – Skeleton Musicians, 1907.
Thamara Rodrigues
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