HH Magazine
Poesia

O Espectador

Atormentado, o ser observante concedia piscadelas selênicas

ao deitar-se sob um céu noturno, escuro e anuviado, de segunda-feira

O clima denso apareceu em suas pálpebras, eram pesos de pluma

Vinha de um domingo solar, mas anômalo, sentia calafrios e alegria

Ele entretinha-se com os latidos de Dom Quixote e sorria satisfeito

Observava o cão, acariciava-o com calma, o amava profundamente

 

Ansiava pela manhã seguinte, verde e solar, queria tomar café

e esmagar folhas secas, escorregar em relvas molhadas, de terça-feira

Sentia-se, também, nostálgico e melancólico, mas não conseguia dormir

Contemplava o mundo, deitado no chão, onde não havia fluidez

e questionava-se para além das substâncias, telas e sintetizadores

Portanto, criou raízes no subsolo, atrofiando-se com ânsia e miopia

 

De repente, assustou-se e arfou com o movimento de um vulto

Assistiu a imprevisibilidade de uma sombra dançante, pernuda

e divertiu-se com a grama, a rama, o sapo, o salto de uma rã

Percebeu beleza, acontecimento, ouviu uma orquestra de coaxos

e sentiu-se curioso, mas enojado, estupefato, esverdeado, são e salvo

Pensou aceso, inflamando-se de ruídos e frases desconexas, riu

 

Constatou uma coceira no cenho, coçou, encarregou-se de relaxar

e fitou o bater de asas no lampadário lateral, bonito e cintilante

A presença de uma repetição exaustiva, um instinto único, vão

e incandescente, eram mariposas, traças e bruxas coreografadas

Uma orgia transversal, lunática, suicida, de graça trivial, ele viu

e suspirou de alívio pela primeira vez naquele dia…

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Starry Night (1893). Autor: Edvard Munch.

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