Atormentado, o ser observante concedia piscadelas selênicas
ao deitar-se sob um céu noturno, escuro e anuviado, de segunda-feira
O clima denso apareceu em suas pálpebras, eram pesos de pluma
Vinha de um domingo solar, mas anômalo, sentia calafrios e alegria
Ele entretinha-se com os latidos de Dom Quixote e sorria satisfeito
Observava o cão, acariciava-o com calma, o amava profundamente
Ansiava pela manhã seguinte, verde e solar, queria tomar café
e esmagar folhas secas, escorregar em relvas molhadas, de terça-feira
Sentia-se, também, nostálgico e melancólico, mas não conseguia dormir
Contemplava o mundo, deitado no chão, onde não havia fluidez
e questionava-se para além das substâncias, telas e sintetizadores
Portanto, criou raízes no subsolo, atrofiando-se com ânsia e miopia
De repente, assustou-se e arfou com o movimento de um vulto
Assistiu a imprevisibilidade de uma sombra dançante, pernuda
e divertiu-se com a grama, a rama, o sapo, o salto de uma rã
Percebeu beleza, acontecimento, ouviu uma orquestra de coaxos
e sentiu-se curioso, mas enojado, estupefato, esverdeado, são e salvo
Pensou aceso, inflamando-se de ruídos e frases desconexas, riu
Constatou uma coceira no cenho, coçou, encarregou-se de relaxar
e fitou o bater de asas no lampadário lateral, bonito e cintilante
A presença de uma repetição exaustiva, um instinto único, vão
e incandescente, eram mariposas, traças e bruxas coreografadas
Uma orgia transversal, lunática, suicida, de graça trivial, ele viu
e suspirou de alívio pela primeira vez naquele dia…
Créditos na imagem de capa: Starry Night (1893). Autor: Edvard Munch.
