Há alguns mundos lá fora: o que se presentificou foi o da pipa. Acordei sem hora naquele dia, como se fosse o primeiro. Inaugurei mais uma vez o tempo e, pela janela, notei que o céu ainda não tinha decidido sua cor. Estava meio assim, azul acinzentado com claridade de leite. Lá longe, uma pipa tremulava.
Pus-me a olhá-la. Demorei pouco para trazer à consciência aquela pipa em suas possibilidades de ser. Observando-a melhor, notei que dançava. Dançava como quem não sabe se é livre ou presa: pipa jazz, pipa verde, pipa rio. Foi lindo demais ver o movimento daquele ser inanimado. Seria apenas a beleza da vida colorindo o dia sem aviso, ou o nada, esse fundo antigo, tentando se vestir de sentido?
Nesse ímpeto, quis, com todas as forças comprimidas em mim, no ápice do conatus, tocar a borda de mim mesmo e materializar o nada: continuo querendo. Estava lá, veio sem a menor dúvida. O ar que irrefutavelmente carregava as frequências para fazer os verdes e as melodias também levantava a pipa para bailar.
Podem apontar para todos os lados: o jazz com seu ritornelo, a pipa com seu debicar. E como são belos, como conversam, mas não em convenções. Já tinha visto isso antes nos livros, mas neles era sempre um jogo de significar. Em alguns momentos, a pipa dança o jazz. Quanta ginga, aú e meia-lua, talvez um tango? Dançar no céu com a força do vento, dançar com o mais belo dos fundos. O ar sendo meio, frequência que colore os corpos, carregando som e luz. No fundo, era como se vento e música se entendessem por sinais secretos de coexistência.
Hoje me lembro de Rosa dizendo que “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” Talvez fosse isso. Eu estava no meio daquilo tudo. Aqueles entendimentos foram espetaculares. Tudo o que foi vivido ali, naquele abrir a janela, me fez esquecer que estava de mudança. Num repente, eu quis ser pipa, mas me lembrei da linha. Ser passarim é mais mágico.
As músicas acabam, os ventos param e a pipa, que rege orquestras nos céus em que dança, com sorte, durará o mês de agosto inteiro. Se não fosse a linha, a pipa seria livre igual ao jazz. Se não fosse o sopro, o jazz não encontraria inspiração e expiração. Dessas danças veio a ardilosa certeza me cobrir com seu manto: a beleza, elaborei, não é coisa que se avisa. Ela acontece quando a gente está aqui, e ela está por aí o tempo todo.
No improviso de um sopro espremido; notado, no giro de um papel colorido colado no bambu no ar; debicar. Talvez seja só isso que vale: o instante antes de se perder. Adélia Prado escreveu: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo.” E é verdade. Às vezes só se vê a pedra. Mas naquele dia, pipa era pipa e, ainda assim, dançava ao som de Birdland. Naquele instante, o vento deixou de ser apenas o movimento do ar. O sagrado foi generoso comigo. Deixei que o jazz e as pipas me dissessem o que eu não sabia perguntar. E foi então que me veio: tem que haver perguntas?
Com a consciência de saber do querer, mesmo sendo a efemeridade uma constância, vai-se dando beleza às pipas e às músicas. É nessas e noutras que se toma ciência de que mudar é um imperativo, embora sua sutileza, manifestada em constante repetição, já tenha imprimido uma suposta ordenação do caos. Nesse território onde a efemeridade se disfarça e suspende o entendimento do que chamamos de realidade, tudo pulsa como força inevitável: instante, fato, situação, teoria e corpo sucedem-se ad eternum, sem cerimônia, entradas ou saídas.
Mas e aquele instante, pipa e jazz? Apenas mais um entre tantos, meus e de tantos outros. No vaivém dessas substituições, restam os números tentando dar conta, como se fosse possível descrever a magnitude da travessia. Tudo é correnteza. O devir pipa se mostrou como um rio de águas inquietas, arrastando os acontecimentos. Às vezes, as pipas se despejam em cachoeiras de metáforas; outras, repousam em lagoas de palavras densas. Sempre flutuando em sentidos que se vão, mas deixando, nesse movimento de ir, pequenas variações de nuances que fazem de cada existência um instante único, total e real.
A sucessão marcou-se no constructo da realidade e gerou expectativa. A negação apresentou-se primeira, famigerado clichê do apego ao mundo: negar o mundo para que a dificuldade de aceitá-lo pareça apenas um rodopio. Mas a casa estava lá, estática, me olhando. Cheia de sombras, luzes e muitos ângulos.
Pus-me a percorrê-la em acessos à memória. Ia e vinha dos cômodos, olhando para a desconstrução, para a ruína, até a exaustão. Ali a encontrei. Por ali permaneci boa parte do dia. Ruminando aquele espaço, entendi que, por hábito, a posse da matéria vem lembrar de quem são os lugares. O que me era preciso naquele momento era o pragmatismo. Embalar as coisas da cena tendo como consolo o desembalar, uma projeção solta demais, à qual foi tudo: a propriedade privada para minhas estruturas. Uma ilusão para trazer leveza ao desmembramento da cena.
A decomposição vai performando para desviar a atenção do medo das incertezas. Enquanto a certeza, essa velha atriz de muitos personagens e infindas geometrias, revela-se como uma mudança que se repete, sempre mudando para continuar sendo certeza. Certeza que pode ser pedra, mas também rio denso e movediço, pipa e jazz. Ou mesmo o vento que volta pelo mesmo caminho só para provar que existe.
Correntes em suas polissemias, que prendem e descrevem o movimento das águas. Um princípio que a negue do lado oposto, em forma de gato, de sonho que desconstrói os átomos. Certeza que se instala como quem constrói palco e ali se reinventa, ensaiando a mesma cena com novos gestos. É a segurança que dança sobre o abismo, o ponto fixo que se move. A certeza é uma raiz que migra, pairando sobre as culturas, vestindo roupas e encarnando palavras. Diria mais: ela age como o farol que gira e, ainda assim, mantém a luz no mesmo ponto. Às vezes ela está exatamente de costas e só o breu prevalece. Às vezes a certeza vem como em Newton, com feixes de luz que atingem o nervo óptico, e tudo que se vê é o branco, como Oxalá criou o mundo, sem agonia.
Estava certo de que precisava organizar a logística da mudança. Apegado a certas estruturas, fui me esquartejando. Gestalt e a casa, minha terceira pele. Os quadros já não estão nas paredes. Todas aquelas cores e formas repousam no escuro das caixas lacradas com silvertape. As luminárias permanecerão sem iluminar muitas noites; hibernarão em sono latente. Stand by até quando? Dos livros espalhados pela sala, só ficou um verniz na memória sobre a descoberta de seus recheios. Todos os artefatos, utensílios e aparelhos estão em caixas identificadas. Alguns livros eu não li e não lerei. Eles vão se perder. Até para se decompor é necessária certa ordenação. Sistema cretino. Coisa que a certeza gosta muito.
Tudo ali deixou, passo por passo, de ser bibelô e enfeite. O que escapou do encaixotamento foram somente as plantas. Estão do lado de fora, continuam a crescer com as chuvas e o sol forte do verão. Em meio aos processos de desconstrução racionalizada de costumes, de corpos em cenas construídas, de pactos sociais e de afetos temporalizados, elas vivem a plenitude. Temos muito a aprender com elas.
Vou ali brincar com a infância e com o verde.
Fui brincar com memória e esquecimento. Quando eu era um tiquinho de gente, o mundo era mais mundo. Os verdes eram mais fortes e presentes. Faziam-se e se desfaziam em tantas camadas. Dentre as cores, a mais presente. E isso também mudou.
Escrevo para reencantar o mundo, para reencontrar esses lugares onde existia magia no verde.
Múltiplos e intensos em paletas misturadas. Em famílias que refletiam em tudo. Pura mata. A densidade era tanta que as horas passavam envolventes e despercebidas em observações sedutoras. Atordoava gostoso o estar no mundo. Mesclavam-se em borrões renoirenses alguns instantes do que se apresentava. Confundiam a vista, e eu, tão ambientado, captava reflexos mesclados daquele extinto agora.
Fragmentos do mar, os verdes me vinham como suas ondas. O novo do broto, que fumava raios solares, e o cítrico do lima surgiam como lanças apontadas para o azul do céu. Nos capins, alguns riscos misturavam-se em dimensões. Aspargo, esmeralda e bandeira faziam danças interseccionadas que remetiam às grandes baías. Ali moravam todos os santos. Algo vai indo até perder-se, mas não desaparece, apenas deixa de ser sentido. Vira lenda, vira cosmo, vira Uakti, vira o balé esguio dos bambuzais, que exploravam ao máximo a flexibilidade na fixidez. Vira cristal de memória.
Bastava o ar mexer para a cena mudar. Nada ama mais o vento do que o verde. Musgo e oliva escondiam-se, alternando-se constantemente, e juntos, somente em movimento, criavam um novo tom que só existia no ventre de sua mistura. Ainda não foi descrito. Ele habita a mistura do movimento, as fendas dimensionais. O efeito na paisagem era de difícil e imprecisa definição.
Na mata, floresta, escuro, jade e exército guerreavam. Pacíficas, as árvores disputavam com muito afinco um espaço sob o sol, o único Deus possível daquele mundo dos verdes vialacteanos. As folhas das árvores caíam dando lições sobre o cair. Naturalmente, como quem já conhece, as folhas descem ao chão sobre o qual nasceram e viveram. O chão é o céu das folhas. Nele, elas realizam a eternidade no movimento transicional da matéria.
As copas cresciam estrondosas, impunham-se em presença. Antes de qualquer significação, já estavam lá. Onde? Não importava. Quase habitantes de outra instância, existiam interdimensionadas. Não se pensava, nem se duvidava. Uníssonas, unificadas em alternâncias entre os elementares espetáculos. No movimento, a sinestesia impunha-se sibilante. Milhares de minúsculas folhas dançavam ímpares em assincronia melodiosa e, quando a brisa passava, eu pegava uma carona.
Às vezes descia em um bosque florido com grama e pássaros. Outras vezes, descia numa floresta tropical em dia chuvoso. O solo quase não era tocado pelos raios de luz. Eram refúgios onde Deus não explicava as coisas e a vida encontrava caminhos para prosseguir. Ali também havia luta e morte, caçadas miméticas. A brisa passou quando as trevas chegaram.
E foi no colo do ar que nasceu o entendimento: as mudanças não chegam como intrusas. São elas que sustentam o próprio embalo da vida. Entre verdes, brincadeiras e fragmentos, a existência vai se pintando em sucessões descontínuas, como se cada cor fosse apenas um intervalo do que insiste em permanecer. Os costumes talham janelas, talham corpos, objetos e coisas em molduras pelas quais o mundo se deixa atravessar. Pipas, jazz, verdes e janelas: tudo recortado em vibração. Som, cor e energia que a cultura abraça como sucuri.
Passei um café e sentei no chão da sala vazia, com um pijama sujo. Olhei pela janela e já tinha anoitecido. O dentro das janelas, tecido pela intersubjetividade, onde sentidos se limitam à mise-en-scène, desmanchava-se e reconstituía-se como ondas feitas de palavras, imagens e objetos encaixotados.
Janelas não flutuam no nada. Apoiam-se em estruturas que nunca vemos por inteiro. Se pairassem, seriam totalidade absoluta, mas o que fazem é delimitar, dar contorno ao indeterminado, impor corpo à certeza. A paisagem se afirma no recorte, e o real, reduzido a escolhas, colore-se na moldura que o cerceia.
Depois de tanto olhar, de tanto esmiuçar reflexos, de buscar nas variações todas as tonalidades, o que resta são reminiscências: presença que já se esvazia em abstração. Nesse instante, o céu não serve mais de fundo. A levitação não vem do alto, mas da ausência completa de chão, quando o corpo perde referências e só sobra a página em branco. Branco: não ausência, mas espaço de todas as cores possíveis, virtualidade do que ainda pode tomar forma.
E é justamente nessa tentativa de dizer o nada que a dificuldade se impõe: falar sobre a ausência é sempre insuficiente. Ainda assim, quando o canto dos pássaros atravessa, rompe toda imprecisão. A presença canta: o real se escancara.
A desconstrução da casa me induziu. Querendo ou não, os contornos da mudança vão se materializando. De uma hipótese dedutiva à realização, a contragosto, do rompimento da zona que confortou o corpo. A casa era mais que um espaço arquitetado. Era um mostruário das importâncias das coisas, dos segredos escondidos em objetos achados, das proporções medidas, das formas orgânicas e do que era evidenciado pela crença na beleza.
E sobre a mudança, a vida segue.
Créditos na imagem de capa: por Christhian Lue
