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Ensaio

O olhar sobre o negro – um corpo que grita

Foto: DW / Deutsche Welle

Não venho armado de verdades decisivas. Minha consciência não é dotada de fulgurâncias essenciais. Entretanto, com toda a serenidade, penso que é bom que certas coisas sejam ditas. Essas coisas, vou dizê-las, não gritá-las. Pois há muito tempo que o grito não faz mais parte de minha vida.

(Frantz Fanon)

Eu soube que era negra quando li Franz Fanon pela primeira vez. Foi brutal, doloroso e libertador. Me senti enjoada como se tivesse levado um soco no estômago, uma verdade que cortava todo meu corpo e que agora gritava: a minha negritude. Havia passado parte da minha vida na zona do não-pertencer – não conseguia me ver, me enxergar. Tudo em minha volta só distanciava cada vez mais o olhar de mim: era como se o mundo gritasse que nada em mim era para ser visto. Então eu escondia.

O cabelo armado eu prendia
Tinha medo que vissem 
Falavam que era feio…
Odiava minha pele marrom 
e rezava para que fosse mais clara 
Alisei o cabelo…
Quis chorar, 
não era eu 

Um corpo mutilado e atravessado por violências impelido a auto aversão e repulsa de si mesmo para existir. Isso é um manifesto da experiência pessoal de uma mulher negra, que como outras mulheres negras cresceu nesse mundo de uma brancura que queima. Eu estou com vocês: eu vejo a dor de se esconder, dessa máscara branca costurada em nosso lindo rosto negro, eu vejo o olhar… Vocês sabem de qual olhar que estou falando – o olhar do branco sobre o negro.

Quero tratar desse olhar específico – o olhar colonial.

***

Essas palavras foram ditas em 1951, pelo psiquiatra e intelectual martinicano Frantz Fanon, em uma das obras mais brutais e importantes do século XX: “Pele Negra, Máscaras Brancas”. Suas palavras fortes e necessárias que com serenidade entendia que certas coisas precisavam ser ditas. Certas coisas precisavam ser ditas aos brancos, que ouvem em desconforto e incômodo. Certas coisas precisavam ser ditas a nós negros. Então Fanon diz, sem gritar… ainda assim sua voz ecoa tão forte que ressoa em mim mais de meio século depois em uma aula de História das Áfricas.

Eu nunca poderei esquecer aquela aula. Escrevia sem parar no caderno, eu estava com um nó na garganta. Abaixei a cabeça e chorei, algo bonito e doloroso aconteceu: pela primeira vez eu consegui me ver. Depois disso eu não quis mais me esconder. Fanon me encontrou, aquela professora me encontrou e aquela aula me fez finalmente vir a ser. Escrevo isso talvez numa tentativa de conciliação com Fanon – suas palavras me cortaram e fizeram sangrar. A leitura havia sido essencialmente radical, algo mudou em mim, algo mudou em meu olhar – foi revolucionário. Eu sangrei para finalmente me libertar. Eu vi aquela máscara ali – algo costurado em meu rosto que não me pertencia, eu não a queria mais ali.

***

Eu queria ser eu! Mas introjetaram em mim o desejo de ser branca, de possuir a branquitude para sobreviver. Eu queria ser eu! E eu era negra.

Então olhei para o mundo e vi aquele olhar. Aquele olhar do branco sobre o negro – o velho olhar colonial. O olhar do outro, esse olhar que fixa. Quando te olham pela primeira vez com esse olhar é como se não conseguissem te ver de outra forma. O olhar do branco sobre o negro – olhar que aprisiona o corpo negro. Um olhar único que aprisiona numa história única! É a partir desse olhar – olhar violento, pretensioso e mesquinho -, que o homem negro se dá conta do racismo e de como será fixado por aquele olhar – o olhar do outro. Mas o corpo grita, ele não quer ser aprisionado por esse olhar e se torna potência. O corpo negro grita porque ele não quer mais se esconder.

Eu espero que Franz Fanon continue encontrando muitos outros jovens negros em aulas como aquela para que saibam que, ainda que seja doloroso, não precisam mais continuar se escondendo naquela máscara que nunca lhe pertenceu. Escrevo sem chorar, essas palavras saem como redenção. Fanon ainda me atravessa, mas eu não choro mais. Suas palavras que outrora me cortaram são as mesmas que hoje me costuram.

Eu não vou gritar, eu apenas vou dizer. Eu não preciso gritar para que minha voz ecoe.

Esse é meu manifesto,

de palavras que eu precisava dizer.

Referências

Fanon, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Sebastião Nascimento. São Paulo: Ubu Editora, 2020.

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