CHARTIER, Roger.; SANTOS, Andréa Pereira dos.; DUMONT, Lígia Maria Moreira. Livro, mundo digital e leituras: práticas e apropriações. Goiânia: Editora UFG, 2022. ISBN: 978-65-86636-16-1. 115 p.

 

No final de 2020, Roger Chartier passou mais tempo do que o habitual diante da tela de seu computador. Na ocasião, respondia por e-mail a perguntas enviadas por Andréa dos Santos e Lígia Dumont; correspondência que, dois anos depois, daria origem à obra Livro, mundo digital e leituras, publicada pela Editora da UFG. O historiador francês, referência incontornável nos estudos sobre história da leitura e dos livros, é diretor da École des Hautes Études en Sciences Sociales e professor do Collège de France. Já Andréa dos Santos, doutora pela UFMG, é docente no curso de Biblioteconomia e no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFG. Lígia Dumont, por sua vez, doutora pela UFRJ, atua tanto no curso de Biblioteconomia quanto no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UFMG.

A publicação se dedica principalmente em pensar a leitura no contexto digital. Mundo esse que, conforme conclusão presente no volume, pode ter características bastante efêmeras — ou seria “incertas” um adjetivo melhor? —. Nesse sentido, busco evidenciar os pontos mais solidificados do debate proposto, bem como o arcabouço teórico que sustenta as reflexões das autoras e de seu interlocutor ilustre.

No primeiro capítulo, “Literatura e história da leitura”, as autoras expressam seu interesse em compreender sobre quais “ombros de gigantes” Chartier se apoia para desenvolver seus trabalhos; sejam essas referências fruto de convivência direta ou de leitura; sendo a frase de Quevedo, “Escuchar a los muertos con los ojos”, mobilizada por elas, sintética desse segundo caso. A pergunta tem sua resposta iniciada com uma reflexão sobre como, após o efervescente maio de 1968, a historiografia francesa passou a preocupar-se em não se restringir à “herança única da historiografia nacional”. Em seguida, somos lembrados de que, para compreender de forma complexa um debate, é imprescindível realizar um “inventário dessas bibliotecas mentais”; só assim seria possível uma hermenêutica de como determinados temas foram pensados em épocas específicas, a partir dos “instrumentos de compreensão” disponíveis (p. 20). Por fim, Chartier destaca as obras de N. Elias e P. Bourdieu como fundamentais para seu entendimento sobre a articulação entre estruturas políticas, o mundo social e as produções e práticas simbólicas. Do primeiro, adota a concepção de que o exercício de poder e as configurações sociais tornam-se categorias psíquicas perceptíveis nas obras estéticas; do segundo, a noção de que é impossível dissociar “representação”[1] e “prática”; ou, nas palavras do próprio sociólogo, “física social” e “fenomenologia social”.

Em seguida, as autoras questionam Chartier sobre a experiência da leitura; ao que ele contrapõe uma provocação: “Quem domina o sentido de um texto?”. O foco, então, desloca-se para o leitor, figura que reúne os elementos constituintes da escrita (uma apreensão que compartilha com Roland Barthes) e assume papel central na atribuição de sentidos. Afinal, são os espectadores que se apropriam do texto e, ao fazê-lo, o ressignificam. Esse processo de apropriação pode se dar por diferentes vias: 1. pela “relação dialógica entre as propostas das obras e as categorias estéticas e interpretativas, que conformavam o horizonte de expectativa de seus públicos”, como sugere a estética da recepção formulada por Jauss; 2. pela “interação dinâmica entre o texto e o leitor”; 3. ou, ainda, por leituras de viés mais estruturalista, nas quais o sentido emergiria da linguagem de forma automática e impessoal (uma perspectiva criticada pela história cultural, a qual sustenta que as formas de ler, ouvir ou ver um texto também participam ativamente da construção de seu significado) (p. 25). Ao final, Chartier assevera que o mundo dos textos é, simultaneamente, o dos objetos e o das performances. Dentro dessa perspectiva, existe uma comunidade de interpretação que fornece suporte e orientação sobre os modos de leitura, conformando os significados atribuídos a certos textos em épocas específicas e permitindo que a interpretação de uma mesma obra possa se transformar com o tempo.

A última pergunta gira em torno da sobrevivência do livro impresso; ao menos para certos usos. O historiador relativiza parte de seu otimismo anteriormente declarado ao reconhecer um desafio contemporâneo à leitura tradicional: “os gêneros mais frequentes compostos e lidos na textualidade digital são os gêneros breves das redes sociais”. Tais discursos, por serem segmentares e maleáveis, alteram a própria dinâmica entre parte e totalidade no interior de um texto. Nesse contexto, a leitura no ambiente digital sequer pode ser considerada “fragmentária”, pois já não remete a nenhuma noção de “totalidade” subjacente (p. 28).

Em “História do livro e da leitura”, discutem-se as diferentes histórias da leitura e o lugar singular da história cultural como ferramenta capaz de tornar visíveis esses aspectos; evitando, como escreve Chartier, reduzir “uma edição de uma peça de Shakespeare”, por exemplo, ao mero estatuto de “documento”, sem considerar seus outros possíveis empregos. O capítulo também aborda a materialidade do objeto livro: o manuseio, aqui, é entendido como algo que vai além do prazer, estabelecendo-se pela recusa em equiparar as lógicas que regem os ambientes digitais àquelas da cultura impressa. Esta última, segundo o autor, seria de natureza topográfica e cartográfica; nesse sentido, as páginas que o leitor percorre, os corredores de uma biblioteca ou as estantes de uma livraria o transformam em um verdadeiro “caçador furtivo”. Nessa correlação direta entre suporte e experiência de leitura que Chartier mobiliza Michel de Certeau: “ler é peregrinar em um sistema imposto (o do texto), análogo à ordem constituída de uma cidade ou de um supermercado” (p. 32).

O capítulo seguinte, denominado “Impactos sociais da leitura”, parte da premissa, assumida pelas autoras, de que a leitura é crucial na aquisição do que Bourdieu concebe como “capital cultural”. Em um primeiro plano, elas se preocupam em mostrar como pessoas driblam a escassez para se tornarem leitoras, oferecendo exemplos nesse sentido. Chartier, no entanto, contribui para o debate calibrando parte do deslumbramento que costuma acompanhar esse tipo de narrativa; ele adverte que, embora as histórias pessoais tenham sua importância, devem ser tratadas como objetos de pesquisa por expressarem formas de representar a experiência ou a realidade. A aproximação com o que Bourdieu chama de “ilusão biográfica” e o esquecimento de que a memória é uma construção podem, nesse sentido, comprometer o trabalho. O historiador observa: “Nas narrações de herdeiros sociais e culturais, os livros são imediatamente e sempre presentes. A história do leitor nascido em um mundo saturado pelo livro é uma viagem começando muito cedo” (p. 36); no lado oposto, aqueles que se encontram desprovidos dos livros em sua realidade, ou quase — relativismo importante —, constroem-se segundo outros padrões narrativo, pois, para eles, a leitura é uma conquista. Ainda assim, tais modelos não esgotam o barema, já que certamente há realidades mais complexas ou híbridas que superam essa dicotomia. De forma geral, Chartier adverte: “Nunca devemos esquecer que os discursos mais pessoais mobilizam, sem necessariamente saber, as fórmulas retóricas ou as estruturas narrativas disponíveis em um dado tempo” (p. 37).

Um desdobramento importante dessa discussão é o questionamento sobre qual leitura está em jogo. Está claro — ao menos do meu ponto de vista — que vivemos na época em que mais se lê; contudo, essa leitura aparece, para Chartier, como “onipresente, obsessiva e necessária” (p. 39), acarretando, por conseguinte, uma leitura fundamentalmente apressada — nos meus termos, instrumental. Resta saber, no entanto, se essa leitura que hesita diante de um livro é a mesma que avança com desenvoltura nas redes — (anti) — sociais: seria ela outra forma de ler ou somente a deturpação convulsionada da lógica da leitura lenta e crítica, tão característica dos livros — embora nem todos os livros sejam lidos dessa maneira, ou sequer tenham esse objetivo. Chartier sublinha, por fim, o papel das políticas públicas como fundamentais para reforçar essa distinção morfológica e cultural entre as diversas modalidades de leitura.

Em “O conceito de leitor”, Andréa Santos e Lígia Dumont apresentam que, para a pesquisa “Relatos da Leitura no Brasil”, considera-se leitor aquele que leu um livro, ou parte dele, no último trimestre. Além disso, as autoras traçam uma breve história das formas de leitura: da passagem do rolo para o códice, da convivência entre manuscritos e impressos, até a diversificação dos gêneros textuais no século XVIII. Ao final, perguntam se a materialidade interfere nos próprios conceitos de leitura e de leitor. Chartier responde apontando para o aumento do uso da internet; algo que, segundo ele, não representa um recuo da leitura em si, mas sim da leitura aplicada ao livro.

Na Antiguidade, ler rolos exigia uma movimentação corporal completa, e o leitor não podia escrever enquanto lia; o códice, por sua vez, permitiu esses gestos indiretos e uma leitura fragmentada. O que ainda não compreendemos por completo é a relação entre o ato de ler e as telas. Para o autor, a leitura de textos eletrônicos deve considerar a textualidade como algo “suave, flexível e infinita”. O acontecimento de Gutenberg foi, sem dúvidas, um ponto de virada na história; agora, a entrada do mundo digital parece desencadear um novo frenesi dentro dessa grande revolução, ao modificar o ecossistema editorial. Os “circuitos de consagração social” — formulação bourdiana que Chartier não mobiliza — deslocaram-se, e a crítica literária clássica cede espaço aos booktubers. Ainda que não tratadas diretamente no livro, algumas consequências desse processo são: maior confusão entre autor e obra e a transformação do escritor em influencer.

Nesse ambiente, a autopublicação torna-se cada vez mais viável: as comunicações eletrônicas substituem as epístolas e a autoedição complica a vida das editoras. No primeiro caso, observa Chartier, a contrapartida da comunicação universal e imediata é o aumento exponencial de erros, falsificações e manipulações. No segundo, trata-se da redução de custos e da perda de controle sobre o que se publica. A autoedição enfrenta ainda outros desafios: o caráter efêmero do acesso e a desordem dos discursos no mundo digital. “São assim relativizados e aumentados dois medos referentes à cultura escrita” (p. 53): o medo da perda e o do excesso. Pessoalmente, gostaria de lembrar a célebre nota de Umberto Eco: “O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”; e, sobre o excesso nas redes, que dificulta a formação de memórias, creio que em Joël Candau encontram-se algumas ideias interessantes.

Em seguida, os autores discutem a divulgação da ciência moderna, tema que desemboca na leitura voltada à pesquisa; prática também impactada pelo mundo digital, onde, segundo Chartier, um leitor navegante pode perder-se sem um farol. Nesse contexto, cabe às bibliotecas ensinar a ordem dos discursos, evitando que o pesquisador se afogue na “proliferação” (excesso) ou “rarefação” (desejo de controle). Ocorre, ainda, que a internet é fértil para distorções e falsificações — impulsionadas pela própria lógica algorítmica; reconhecê-las exige instrumentos intelectuais que a biblioteca, entre outras instituições, pode oferecer ao cidadão. Um cidadão que hoje vive em condições propícias à circulação da desinformação: pela materialidade (textos lidos na mesma tela e do mesmo modo, gerando um sentido de “equivalência”), por hábitos culturais (leitura fragmentada e apressada) e por fatores sociais (uma confiança ampliada e pouco crítica).

Nessa esteira, os autores enveredaram-se nos imbróglios que envolvem a produção de conteúdo e o acesso a ele. Chartier aponta que existe um confronto entre duas lógicas no mundo digital: uma, de natureza intelectual, advinda do Iluminismo, que pressupõe o livre acesso ao saber; e outra, de ordem econômica, nascida no século XVIII, que funda a noção de propriedade e mercado do saber. O capitalismo editorial, emergente da segunda modalidade, tem alçado medidas draconianas, conforme denunciado por Robert Darnton e coadunado por Chartier, nas quais as revistas são pagas pelos pesquisadores para publicarem, pelas universidades para receberem os exemplares e, por fim, pelos cidadãos que, através dos impostos, financiam a produção do conhecimento. O acesso livre, nesse ambiente, configura-se como uma alternativa a esse ciclo vicioso.

As autoras entram também na discussão sobre a autoria, mobilizando pensadores como M. Foucault para se perguntarem se escritos banais ou pessoais podem ser considerados “obras”, e S. Hall, que compreende as identidades como móveis, tornando pouco viável “relacionar a identidade de um autor à sua obra de forma fixa; ou seja, as identidades intelectuais tendem a sofrer mudanças e isso se revela em suas obras posteriores” (p. 71). Chartier, diante dessa miríade, apresenta seu próprio entendimento: haveria uma radical transformação no regime de atribuição da autoria entre os séculos XVIII e XIX, intimamente relacionada à emergência de novas formas de organização editorial e à institucionalização do autor como figura central. Também recorrendo a Foucault, ele nos lembra que atribuir nome próprio às obras não é um gesto universal nem constante. Com isso, demonstra como, a partir desse período, surgem arquivos literários se ligam a “construção de categorias filosóficas, estéticas e jurídicas que definiram um novo regime para a composição, publicação e leitura dos textos” (p. 73). É nesse contexto que “o manuscrito autografado torna-se o testemunho mais fundamental, a encarnação visível do gênio invisível do escritor”. É também nesse momento — e o autor insinua que em partes decorrente dele — que as composições literárias passam a assumir formas mais originais e enredos menos reutilizados; gradualmente, os “lugares comuns compartilhados ou colaborações impostas por patronos e empresários” (p. 74) são substituídos por criações mais livres e que expressam sentimentos íntimos — mudança que Jacques Rancière compreende como a transição do regime representativo para o regime estético das artes, embora não esteja em completo acordo com Chartier quanto às razões desse fenômeno.

Em “Crítica literária e produção do sentido”, Roger Chartier retoma a crítica à perspectiva estruturalista, segundo a qual o significado de um texto derivaria exclusivamente da “potência total de funcionamento impessoal da linguagem” (p. 77). Essa concepção, dominante por um tempo, foi amplamente questionada entre as décadas de 1960 e 1970, período em que o papel do leitor na construção do sentido ganhou maior reconhecimento. Todavia, em ambas as abordagens, permanece uma pergunta fundamental: “Como libertar os leitores da submissão obrigatória à maquinaria linguística do texto sem, no entanto, oscilar dentro de um inventário infinito, díspar, da diversidade das leituras?” (Idem).

Chartier aponta três caminhos teóricos em resposta a esse dilema. O primeiro vem de H. R. Jauss, especialmente de sua noção de “horizonte de espera”. Esse conceito “designa as categorias estéticas compartilhadas às quais as obras geralmente vão se conformando”, e que, por isso, moldam sua recepção. No entanto, como realça o autor, “as mais provocantes dentre elas (…) transformam profundamente” esse horizonte (Idem). Ele seria, portanto, fruto da experiência prévia do público, das convenções formais e temáticas e da oposição entre linguagem poética e linguagem cotidiana. A segunda resposta aparece em S. Fish, com sua ideia de “comunidades de interpretação”, alternativa tanto à tirania do texto quanto ao solipsismo da leitura; nesse modelo, as interpretações não são nem universais, nem puramente individuais. A leitura de obras literárias, aqui, seria o resultado de um acordo coletivo sobre o que se reconhece como literatura, reconhecimento este que só se mantém enquanto a comunidade leitora continuar validando os critérios dessa categoria. Por fim, R. Barthes é citado como quem defende que a leitura é “o lugar onde se constrói um sentido que escapa do controle e da vontade do autor” (p. 79). Por isso, seria nessa instância que se dá a reinvenção constante da obra.

O problema dessas três abordagens, segundo R. Chartier, é que tratam os textos apenas por seu conteúdo semântico, deixando de lado aspectos materiais e desconsiderando as dimensões sociais e históricas do ato de ler. Sua proposta, então, é ir além: “Para ultrapassar esses limites, é preciso entender o mundo dos textos como um mundo dos objetos e de performances, e o mundo dos leitores como aquele das comunidades a que pertencem” (p. 80). Por isso, acrescenta, é necessário considerar os leitores dentro de seus contextos, definidos por um conjunto de competências, práticas e usos sociais da escrita. Essa mudança de perspectiva exige atenção especial aos elementos que moldam a materialidade dos textos (como impressores, copistas e editores), bem como às figuras que lhes atribuem legitimidade (professores, autores e críticos).

O último capítulo se dedica a refletir sobre os ganhos e perdas decorrentes do deslocamento das bibliotecas físicas para os ambientes digitais. Para tanto, Chartier recorre a P. Ricœur, que distingue, no léxico aristotélico, duas formas de memória: mnémé (surgimento espontâneo das lembranças) e anamnese (esforço consciente de rememorar). Em ambas, o esquecimento é condição essencial para a memória existir. A partir do conceito de “esquecimento de reserva”, formulado por Ricœur, Chartier propõe uma mediação entre dois temores: o da “proliferação indomável da escrita” e o da “perda, da falta e do apagamento”. Isso porque haveria dois tipos de esquecimento: o profundo, ligado à destruição de rastros documentais e psíquicos, e o de preservação, que mantém algo em estado de latência — uma espécie de presença-ausente. Desse modo, o trabalho da memória pode assumir diferentes formas: desde a cura psicanalítica até políticas de reparação e justiça. Em continuidade, arregimentando Foucault, Chartier discute como a produção dos discursos está sujeita a mecanismos de controle e seleção. Segundo ele, há três procedimentos que “asseguram a rarefação dos discursos”: 1. os sistemas de exclusão, que delimitam o que pode ou não ser dito (como a oposição entre loucura e razão); 2. os princípios de classificação e ordenação; e 3. as regras de restrição de acesso, que impedem determinadas vozes de circularem em certos espaços discursivos. J. L. Borges é então conclamado à conversa como expressão literária dessa tensão entre acúmulo e escassez, que marca a transição do impresso para o digital. Em Funes, el memorioso, o esquecimento aparece como condição indispensável: “A opressão da memória impede tanto o sono como o pensamento” (p. 97). Afinal, pensar exige esquecer diferenças, generalizar, abstrair.

Nesse contexto, Chartier defende que deve haver um desejo de coexistência entre o impresso e o digital. Para isso, é necessário reconhecer que cada suporte opera segundo lógicas distintas; mas que às escolas, bibliotecas e meios de comunicação cabe o papel de ensinar a leitura lenta, crítica e totalizante, típica da cultura impressa. Caso contrário, afirma o autor, estaríamos diante de um “perigo mortal para o conhecimento, ameaçado pelas falsificações”, e de uma “democracia ameaçada pelas manipulações ideológicas, religiosas e políticas”. Neste cenário, a própria ideia de verdade se vê “desafiada ou descartada” (p. 100).

Em conclusão, faz mister salientar que, embora a obra se anuncie como um diálogo, persiste nela a forma estrutural da entrevista. Nota-se que as autoras, ocupando o lugar de entrevistadoras, frequentemente se alongam, retomando a palavra com densidade antes de encaminhar uma pergunta ao convidado. Ainda que esse procedimento não comprometa o valor da interlocução proposta, enfraquece, por vezes, a escuta ativa que se espera de um formato dialógico. Se a escolha foi manter a arquitetura da entrevista, seria recomendável privilegiar a voz do entrevistado, permitindo que suas reflexões fluam com maior continuidade e centralidade. Trata-se, portanto, de uma obra instigante, mas cuja forma poderia se beneficiar de um equilíbrio mais sensível entre intervenção e escuta.

 

 

 


NOTAS

[1] O termo adquire novos contornos na leitura de Chartier (p. 91), especialmente quando articulado às contribuições de Louis Marin. A representação, nesse contexto, pode ser compreendida tanto em sua dimensão transitiva (como o ato de representar algo), quanto em sua forma reflexiva (“toda representação se apresenta representando algo”). Dessa maneira, a representação passa a envolver não apenas aquilo que é mostrado, mas também os códigos, intenções, razões e finalidades que estruturam esse ato.

 

 

 


REFERÊNCIAS

CANDAU, Joël. “O jogo social da Memória e das Identidade: transmitir e receber”. In: CANDAU, J. Memória e identidade. São Paulo: Contexto, 2011, p. 105–136.

CHARTIER, Roger. O que é um autor? Revisão de uma genealogia. São Carlos EDUSFCar, 2021.

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Tradução de Monica Costa Netto. São Paulo: EXO experimental org.; Ed. 34, 2005.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Arte da capa confeccionada por Ilíada Damasceno Pereira.