Em entrevista ao programa Provocações da TV Cultura, o escritor Rubem Alves, quando indagado por Antônio Abujamra se a vida era uma causa perdida, responde que, apesar da inevitabilidade da morte, alegria e felicidade possibilitam que a vida não seja efetivamente uma causa perdida. Para tanto, retomando um trecho de Guimarães Rosa, arremata que a felicidade pode ocorrer somente em raros momentos de descuido. Como demostrou Marcelo Rangel (2025), a felicidade, esse momento de descuido, ocorre quando os indivíduos podem sentir-se participantes da constituição de uma realidade que se movimenta incessantemente. Todavia, no século XXI, em razão de uma subjetividade marcadamente individualista e das dificuldades em projetar futuros para além das catástrofes, a escassez da felicidade é acentuada. Diante dessa retração das expectativas e do isolamento proporcionado por uma subjetividade centrada no indivíduo como empreendedor de si mesmo, outros afetos, como o sofrimento depressivo, são largamente impulsionados.
Nesse sentido, o presente artigo almeja propor, de forma ensaística e preliminar, a existência de uma historicidade depressiva marcada por uma estrutura temporal na qual o presente se estabelece como um real definitivo e o futuro, quando imaginado, é experimentado como reiteração do presente ou como ameaça. Confinado nesse presente que se sempre se projeta adiante, o sofrimento depressivo assinala a quase impossibilidade de um futuro distinto do presente ou do passado. Para tanto, produzo esse texto na dupla condição de sujeito afetado pela depressão e historiador. Trata-se, portanto, de uma reflexão que parte de uma afetação individual, mas que pretende se desdobrar em uma investigação que possa também ser coletiva. Os afetos, quaisquer que sejam, como assinala Filipe Campello (2022), embora sofridos especificamente, nunca são posse de determinado indivíduo, compondo, assim, uma gramática a partir da qual podem ser pensados.
A melancolia, na definição de Rangel o ceticismo de um sujeito que age apesar das próprias desconfianças, sempre me foi presente. Todavia, ao longo dos últimos anos, a melancolia foi acompanhada da depressão e do transtorno de ansiedade generalizada que, no meu caso, estão associados ao transtorno do espectro autista. O convívio com a depressão, largamente tratado em psicoterapia e com fármacos prescritos pela psiquiatra, impulsionou uma série de reflexões que, combinadas com as perspectivas inauguradas pela teoria da história, ofereceram os itinerários para esse esboço.
Mark Fisher (2020), tragicamente afetado pela depressão que o conduziu ao suicídio, concebeu o realismo capitalista a partir da ausência de alternativas, conforme expresso no slogan There is no alternative formulado primeira-ministra britânica Margareth Tatcher. A ausência de alternativas significa, nessa leitura, uma sincronização compulsória de projetos e ideologias políticas às formas sociais e econômicas impulsionadas pela globalização de um projeto liberal.
Esse alinhamento, por sua vez, confere a esse projeto o estatuto de realidade. Como não há alternativas, os limites imaginativos de futuros possíveis se retraem em torno de uma realidade precária que se impõe como a única possível. A imposição dessa realidade, para Fisher, é associada a experiência depressiva. Em Fantasmas da minha vida, ao analisar a banda britânica Joy Division, Fisher (2022) aponta a depressão como uma posição na qual o indivíduo acredita ter descoberto a verdade última. Diante desse real desnudado, as possibilidades de experimentação de outros afetos e outros futuros tornam-se teatrais ou farsescas. Portanto, a análise de diversos elementos culturais e políticos, como o thatcherismo ou a música do Joy Division, marcam uma relação entre realismo e depressão que se acentua a partir das últimas décadas do século passado e adquire maiores proporções no início do século XXI.
Enquanto Fisher aponta para um presente compreendido como única realidade possível, historiadores como Zoltan Simón (2022) assinalam outras experiências temporais para as primeiras décadas do nosso século. Simón contesta o argumento de que as sociedades ocidentais estejam vivenciando um regime de historicidade presentista. Ao contrário, tais sociedades ainda experimentam um tempo centrado no futuro que, diferentemente das expectativas modernas, é vivido com ansiedade e temor.
Isso ocorre em função de uma mudança sem precedentes na história humana e planetária. Sucedendo a estabilidade climática do Holoceno, era geológica característica dos últimos 12 mil anos, o Antropoceno inaugura uma nova era geológica na qual os humanos tornaram-se capazes de afetar as dinâmicas de funcionamento do planeta Terra. Com isso, a vida no planeta, humana e não humana, que floresceu a partir das condições climáticas próprias ao Holoceno, encontra-se seriamente ameaçada pelas mudanças no clima terrestre.
Assim, diante do Antropoceno, as expectativas foram drasticamente alteradas. O futuro não desapareceu, mas em vez de orientado a partir do progresso, é assombrado pela possibilidade de encerramento da aventura humana na Terra sem o recurso a uma pequena Eva capaz de voar no espaço em uma nova Arca de Noé. Trata-se, assim, não de realizar um futuro de progresso, mas de evitar um futuro catastrófico. Mesmo oferecendo possibilidades para uma nova percepção da relação entre os humanos e o planeta, que aponta, como na obra do historiador indiano Dipesh Chakrabarty (2025), para a necessidade de uma nova antropologia filosófica do humano, o futuro é inegavelmente ameaçador e impulsiona afetos como a ansiedade e a depressão.
Evidentemente, a reflexão em torno desses modos de historicidade do século XXI não conduzem inevitavelmente a uma experiência depressiva. Mesmo Fisher, em sofrimento agudo frente ao realismo capitalista, mobilizava ainda a história como forma de distanciamento de um real imposto como absoluto. Todavia, o que pretendo apontar é que as experiências temporais assentadas em um presente que se projeta indefinidamente ou em futuro ameaçador podem configurar uma historicidade depressiva na qual o sujeito melancólico perde quase permanentemente sua capacidade de ação. Se o melancólico duvida de si mesmo e ainda assim age com certa projeção para o futuro, o depressivo está submerso na verdade do presente ou do futuro.
Para o sujeito depressivo, a felicidade torna-se ainda mais escassa. A diminuição da agência e a dificuldade de projetar futuros não ameaçadores, contribuem para que a solidão, que acompanha a agudeza do sofrimento, constitua um mundo opaco e distante. Nessa experiência de distanciamento, a felicidade própria ou alheia é pensada como uma farsa a ser desmascarada mais adiante. Ainda mais grave, a permanência nesse estado impulsiona ideações suicidas e, quando as janelas para o futuro se encerram definitivamente, a própria vida torna-se um fardo impossível de ser sustentado ou tolerado.
Portanto, partindo inicialmente das definições de Marcelo Rangel acerca da melancolia e da felicidade, pretendi contribuir para o apontamento da estrutura temporal dos afetos depressivos. Diferentemente da melancolia, a depressão se estabelece como uma forma de presentismo diversa daquela analisada por François Hartog (2013, 2025), na qual o indivíduo permanece aprisionado a um presente marcado um futuro escasso ou ameaçador. Nesse presentismo que ameaça uma quase desistoricização da realidade, o passado pode se tornar refúgio, lamento ou mesmo mais um peso para o sujeito, criando, assim, mais uma dificuldade para a quebra dessa historicidade depressiva.
Tal historicidade, evidentemente entrecortada por marcadores específicos de cada indivíduo, é também produzida coletivamente a partir de experiências, que não se configuram enquanto um regime de historicidade, mas que decorrem das tessituras temporais elaboradas nas primeiras décadas do século XXI. Em tempos em que o presente pode se projetar como confinamento e o futuro aparece como ameaça, a historicidade depressiva adquire sempre novos impulsos.
Em Perto do coração selvagem, Clarice Lispector (2019) narra o combate da personagem Joana com os limites da linguagem. Na célebre passagem em que a personagem afirma que liberdade é pouco e que seu desejo ainda não tem nome, Joana compreende que a linguagem é uma forma de limitação do desejo. Nesse sentido, ler, escrever e publicar sobre a historicidade depressiva é uma maneira de obrigar uma definição da linguagem. Com isso o afeto depressivo, que se espraia tolhendo os movimentos de um corpo que parece desejar a imobilidade, adquire um limite a partir da linguagem. Colocado em texto, esse limite se configura para reduzir o tamanho dessas afetações outrora não nomeadas e, com isso, é capaz de estabelecer aquele brilho fugidio de um momento decisivo que, mesmo que efêmero, pode recordar um futuro para além da depressão.
REFERÊNCIAS
CAMPELLO, Filipe. Crítica dos afetos. Belo Horizonte: Autêntica, 2022.
CHAKRABARTY, Dipesh. O global e o planetário. São Paulo: Ubu, 2025
FISHER, Mark. Fantasmas da minha vida: escritos sobre depressão. São Paulo: Autonomia literária, 2022.
FISHER, Mark. Realismo capitalista. São Paulo: Autonomia literária, 2020.
HARTOG, François. Chronos: o Ocidente confrontado ao tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2025.
HARTOG, François. Regimes de historicidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. São Paulo: Rocco, 2019.
RANGEL, Marcelo. Melancolia e felicidade: a estrutura temporal dos afetos. Toledo: Quero saber, 2025.
SIMON, Zoltán. Planety futures, planetary history. In: SIMON, Zoltán (org); DELIE, Lars (org.) Understanding history: past, present, and future. Londres: Bloomsbury academic, 2022.
Créditos na imagem de capa: Melancolia, Edvard Munch
Marcus Vinícius Furtado da Silva Oliveira
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