Há cinco anos e meio perdi meu pai. Desde então, tudo o que escrevo inevitavelmente atravessa esse vazio. Ele suicidou de forma muito traumática para mim e para minha família. A escrita que segue é uma tentativa de atravessar essa perda. Não busco reconstruir tudo o que aconteceu, mas experimentar o que me resta. Portanto, o que escrevo não é uma não é uma narrativa nem uma explicação: é uma travessia. Uma experiência que começa em mim e termina em algo que me excede. O que escrevo aqui é uma tentativa de tocar o que me escapa, o que eu não digo, o que ainda está entre a vida e a morte. O que escrevo convida quem lê a atravessar o que foi experienciado junto de mim. Não há método aqui, apenas experiência, uma travessia de palavras.
O suficiente de mim
Era um ambiente rural, sempre muito presente em toda a minha vida. Meu pai sempre estava lá, sempre esteve em todos os lugares. Assim como esteve mergulhado no caos, já esteve na superfície de uma vida tranquila. E foi uma vida inteira.
O momento que precedia a revelação era um momento de paz. Era um calmo antes de toda uma desgraça que se libertaria como uma praga em nossa família, em minha vida. Eu já imaginava, eu já me preparava. Eu já sentia que nada era normal e que eu podia, ou deveria, confiar em mim mesmo, ao menos aquela única vez.
De repente caos. E mais nada.
O completo caos como o que não se lembra ou não fosse nada, o caos que me fez ceder o si mesmo em prol de um outro que nem em si está. Foi assim. Foi pânico, foram gritos. Foram fortes.
Esses gritos e esse pânico estiveram presentes por muito tempo após sua morte. Estiveram presentes até a minha própria morte. Até a morte de minha vó. Os gritos, o pânico, ambos também gritavam dentro de mim.
Eu morria todos os dias, de formas diferentes. Eu morreria todos os dias, de outras formas. Eu morri. Eu morri todas as vezes que vi minha vó lamentar sua perda. Eu não conseguia dimensionar tal experiência. De conceber uma vida e vê-la morta. Eu morria ao imaginar. Eu morria assistindo seu sofrimento, cotidiano, insistente, sempre presente. Inquietante.
Eu morri uma vez vendo seu sofrimento contra seu próprio mundo, contra seu próprio corpo. Eu queria morrer imaginando os seus ossos. Eu morri daquela vez, sim, mas também seguiria morrendo todas as outras vezes.
Você morreu antes mesmo de morrer e eu seguiria morrendo. Morreria naqueles que transformavam a minha vida no pior. Haveria a morte contra um exército também, contra o sacro império romano, sim. Sim, eu sigo morrendo por tudo sim, por ela, sim.
Simultaneamente, não. Eu não sigo morrendo mais. Eu apenas me sigo.
Me sigo na tentativa de compreender o desejo de morte. Não apenas o meu, mas os desejos daqueles (outros) ao meu redor. Sempre é inviável, porque sei da dor, sei da morte. Mas morrer não significa apenas isso, realmente nunca significou. Significa também barulho, significa encontrar-se no outro e enxergar também vida. Significa se quebrar por inteiro. Bem como não significa nada.
O meu corpo se lembrava disso, o tempo todo. Eles me faziam e refaziam, o tempo todo.
Talvez ele seja louco. Talvez o alívio seja.
O alívio quando eu percebi que ele estava em mim e sobre mim, assim como ela, assim como a música, como o que é arte também sempre esteve. O alívio esteve em todas as coisas, então. O alívio também se tornava dor.
Eu mesmo, não queria ser alcançável. Não queria ser educado. Na morte e no grito, no pânico, queria ser eu, eu e você.
Era como um tiro. Ou como uma corda? Era também claro, claro, assim como era escuro. Era também o significado entre vida e morte, ele era, ela era.
Tudo que era meu, tudo que não era, era tudo, um só. Eu também me perguntava o que eu era. Eu me questionava sobre eu ser o que eu estava sendo. Eu me questionava acerca da dor. Não sabia o quanto era demais. Eu queria ser tudo ao mesmo tempo, tudo que eu era, tudo que não era. E no fim, eu sei, não sou. Não tenho direito de estar aqui, de ser quem sou, de ter morrido tantas vezes, pois afinal, se morre apenas uma.
Essa liturgia de dor e morte, de transcendência, de vida. Eu não compreendo. Não compreendo esse ritmo em que escrevo. Talvez não seja meu próprio, talvez seja o seu. Talvez seja a morte, ou a vida, seus ritmos. O passado recua, sempre. Isso que escrevi, tudo que vou escrever, está e estará incompleto. Sempre estará, essa liturgia entre vida e morte.
Créditos na imagem de capa: Francis Bacon – “Figure with Meat” (1954). Disponível em: https://share.google/RAMNdwESXtoRKnlNI
