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Ensaios e opiniões

O trem, o saveiro e a província idílica: as canções de estrada do Clube da Esquina

Um sonhador, após ver-se longe da pessoa que ele deseja, admite sua própria bravura, mas assume, também, sua fragilidade e permite-se chorar neste momento de sofrimento. Ele não encontra consolo em nenhum lugar, tampouco em sua casa. Encontra-se sozinho e incapaz de resistir à angústia.

Ele sai estrada afora, não para, segue adiante em seu caminho, mas tem dúvidas sobre a possibilidade da efetivação de seus sonhos. Como ele poderia sonhar? Seu sonho apresenta-se de forma tão frágil quanto o suave sopro de uma brisa que é disseminado pelo vento. O sonho acaba junto ao seu pranto. Está tudo apático, o sonhador já não sente mais nada. O seu maior desejo, agora, é autoexterminar-se.

Apesar da pulsão de morte, o sonhador continua a caminhar. Após uma pausa, ele reconhece que ainda há muito o que viver, a morte já não é mais uma opção. O anseio de amor pela vida e pelas pessoas é retomado e, caso este amor seja interrompido contra sua vontade, o sofrimento não lhe parece assustador, como fora outrora. O sonhador não passa mais seus dias apenas pensando em seus sonhos. Ele os faz acontecer. Ele os vive.

 

Barulho de trem

 

No ano de 1967, Milton Nascimento lança seu 1º álbum solo, intitulado Travessia. Este é o marco zero do Clube da Esquina, enquanto movimento, pois seis das 10 faixas que integram o LP foram compostas em uma parceria entre Milton, Fernando Brant, Márcio Borges e Ronaldo Bastos. Dou ênfase ao fato de que fora um lançamento, comercialmente, “solo”, pois, em 1964, Milton, Wagner Tiso e Marilton Borges, então membros do Conjunto Holiday, haviam lançado um compacto de samba-jazz, melodicamente distante do que viria a ser o Clube da Esquina – aqui, enquanto álbum. Entretanto, o trio já apresentava a temática da Minas Gerais provinciana, destacada na faixa-título Barulho de Trem, que narra a ida de alguém a uma estação de trem e suas observações sobre as pessoas que embarcavam na locomotiva ou que permaneciam na plataforma.

O compacto lançado pelo Conjunto Holiday, germe da formação musical e da colaboração criativa do trio de jovens mineiros, nada tinha de inovador entre os seus contemporâneos, pois era mais um dos muitos grupos de músicos que tentavam sobreviver ao tocar o que estava em alta: chá-chá-chá, samba-canção e samba-jazz. O que sobressai ao comum, dentre as quatro faixas do vinil, é a reprodução do som de uma locomotiva que parece estar chegando ao encontro do ouvinte, à medida em que a melodia da música se desenvolve. Mais tarde, o Clube da Esquina transformará, também, os repiques dos sinos das igrejas católicas em adicionais rítmicos às suas obras. Estes dois elementos (o som do trem de ferro e dos sinos) são influências do maestro modernista Heitor Villa-Lobos que, por meio de sua orquestra, possibilitou que o popular se misturasse ao erudito e que sua música traduzisse as características sonoras do Brasil. Villa-Lobos, décadas antes do Clube, afirmou que era concebível produzir uma música essencialmente brasileira, popular e melódica e liricamente sofisticada.

Além disso disso, Barulho de Trem apresenta alguém confortável em sua posição de observador passivo. O eu lírico sente-se satisfeito por ir à estação somente para observar quem passa por ela, pois sabe que o distanciamento causado por uma viagem gera sofrimento. Feliz de mim/ Não venho despedir de ninguém/ Feliz de mim/ Sou livre deste tal vai e vem[1] são os versos da última estrofe da canção, afirmando que o enunciador tem sua felicidade garantida ao não precisar passar pelo processo de despedida e de deslocamento.

O embrião do Clube, portanto, já nos apresenta temas que refletem aspectos da experiência mineira, como a forte influência das ferrovias no imaginário afetivo dos moradores do estado provinciano. No álbum de 1967, todavia, além das características mais palpáveis, o eu lírico que emana as canções é um sujeito saudoso, inquieto e melancólico, por vezes, quase existencialista. Ele relata demasiadas autorreflexões sobre a morte, o autoextermínio e a solidão, mas há, de maneira complementar, uma forte esperança na possibilidade de futuros capazes de trazer-lhe alguma mudança que o fará abandonar tais pensamentos infelizes.

 

Canções de estrada

 

Fui criada em uma cidade que só surgiu e desenvolveu-se graças à ferrovia e à dinâmica econômica que esta atividade mobiliza. Como a maioria dos mineiros interioranos, a imagem do trem sempre foi muito significativa para mim, pois ilustra a identidade do lugar de onde eu venho. Minha cidade, como diversas outras do Centro-Oeste de Minas Gerais, emergiu e formou-se somente no século XX, como consequência do “progresso” tecnológico e industrial que, finalmente, havia chegado até nós. Tal progresso destruiu a memória e a identidade do meu lugar, visto que ambas foram anuladas em nome de um falso desenvolvimentismo que descaracterizou a minha cidade e deixou-a semelhante às suas vizinhas limítrofes, sem muitas singularidades extraordinárias. Dessa forma, as locomotivas que ainda atravessam a minha cidade são, possivelmente, a única coisa que (os progressistas) não conseguiram apagar. Apesar disso, há uns anos, surgiu um pequeno movimento entre os habitantes que exigia a retirada da linha férrea da área urbana do município, com a justificativa de que o trem atrapalhava o tráfego dos veículos no Centro da cidade e de que ele era algo ultrapassado.

Em Travessia, Milton Nascimento canta alguém que precisa sair de seu local de origem e que o pretende fazer através de uma estrada. Este nome supõe uma via terrena e de fácil locomoção, pois o acesso e a permanência neste caminho de fuga não é um empecilho para quem precisa ir embora. A única música do álbum de 1967 a tratar da temática do trem de ferro é Três Pontas, que descreve o entusiasmo de quem fica na estação à espera da locomotiva. A canção ainda diz que os passageiros que desembarcam trazem esperança para quem quer/ nessa terra se encontrar[2], ou seja, o trem traduz e preserva a Minas Gerais idílica que foi lesada pelos ideais desenvolvimentistas, sobretudo, àqueles que impulsionaram a substituição das ferrovias pelas rodovias. Assim, não é possível que a estrada de fuga para o sujeito angustiado seja uma malha ferroviária, pois esta é intocável e não é capaz de mesclar-se aos problemas externos. O trem conserva a “pureza” da experiência satisfatória outrora vivenciada pelo eu lírico do álbum.

Descartada a possibilidade da fuga do sujeito angustiado ser feita através do trem, é possível considerar, também, que o Clube da Esquina apresenta uma forte relação com a ideia do cais portuário como um espaço que está no horizonte libertário. Com o recente álbum Coisas Naturais (lançado em março de 2025) de Marina Sena, mineira de Taiobeiras, uma cidade no Norte do estado, pude perceber como nós, mineiros, temos uma profunda relação com o mar. O fato do nosso estado não ter acesso direto ao litoral nos mobiliza de forma muito romântica. Das 13 faixas do álbum de Marina, cinco fazem menção ao mar como um lugar muito íntimo e próximo, como se ela sempre pertencesse a ele. É importante destacar que Marina é uma das poucas artistas pop da atualidade que compõem suas próprias músicas, ou seja, ela canta a partir da perspectiva de alguém (mineira) que cresceu em um local que desejava uma praia com uma imensidão de água disponível.

Trago o exemplo de Marina Sena para afirmar que o ideal de liberdade que o porto causa sobre Minas Gerais não é algo limitado às décadas de 1960 e de 1970, portanto, o Clube traduz o desejo atemporal de sair da província e ir até o final da estrada. Não basta movimentar-se dentro do próprio estado, migrando de um lugar indesejado para outro lugar menos violento e mais próximo, territorialmente. É preciso ultrapassar a fronteira de Minas Gerais.

Em Cais, presente no álbum de 1972, o sujeito diz que inventa um cais para quem, assim como ele, deseja libertar-se. Além do cais, ele inventa o mar e a possibilidade de sonhar um horizonte de expectativa e assume que tem ciência da dor que enfrentará ao lançar-se ao desconhecido, mas, ainda assim, não hesita em partir. A dor de enfrentar o novo é mais suportável do que a dor de permanecer estagnado em seu local de origem. O sujeito da canção sabe que tem o caminho do que sempre quis/ e um saveiro pronto pra partir[3] e anuncia isto a quem deseja segui-lo. Há um gesto de empatia ao considerar que seus companheiros, também, poderão embarcar na saveiro consigo; todos partirão em companhia. O sonhador encontra no porto uma maneira de libertar a si e a quem divide a atmosfera de angústia consigo. Entretanto, e, mais uma vez, é geograficamente impossível que um mineiro acesse o mar e essa idealização serve apenas para continuar mobilizando novos horizontes e produzindo movimento ao sonhador.

De volta ao trem, em Ponta de Areia, faixa que divide o álbum Minas (1975), o Clube canta sobre a destruição da ferrovia que conectava Minas Gerais a um distrito portuário da Bahia: Ponta de areia/ ponto final/ Da Bahia-Minas/ estrada natural/ Que ligava Minas/ ao porto, ao mar/ Caminho de ferro/ mandaram arrancar […] Maria-fumaça/ não canta mais […] Na praça vazia/ Um grito, um aí/ Casas esquecidas/ viúvas nos portais[4]. Novamente, o trem de ferro atua como o local (mais do que como o objeto) que mobiliza o horizonte do sujeito que teve suas raras oportunidades de chegar ao cais destruídas. A ferrovia Bahia-Minas já estava tão intrínseca aos mineiros que eles a consideravam uma “estrada natural”, assim como a estrada que tratarei adiante. Anteriormente, o Clube utilizava o som do apito da locomotiva de ferro em suas canções; agora, é o barulho de uma cancela que está presente no instrumental de Ponta de Areia, indicando a ausência sonora do transporte.

Entre o litoral e a malha ferroviária do interior, está a estrada de terra, e é através dela que o sonhador consegue, finalmente, caminhar. O eu lírico reforça o seu desejo e encontra o meio por onde irá movimentar-se: Que vontade eu tenho de sair/ […] ir por aí/ Estrada de terra que/ só me leva, só me leva/ Nunca mais me traz/ Que vontade de não mais voltar/ Quanta coisa que vou conhecer/ Pés no chão e os olhos vão procurar onde foi/ Que eu me perdi[5]. Com a ausência da locomotiva e do saveiro, o sujeito precisa migrar sem nenhum outro transporte, ele vai com o pé nessa estrada[6] e reconhece a potência que possui para ser tudo o que ele deseja. Ele sabe, também, que nada será como antes[7] e está alvoroçado com isso, porém pede que seus amigos ainda os envie notícias do lugar de onde ele está emergindo; há um abraço à memória dos companheiros presentes no local que lhe trouxe sofrimento, qualquer dia eles irão rever-se.

 

Tem uma pedra no meio do caminho

 

Minas Gerais foi colonizada e explorada após expedições de bandeirantes paulistas adentrarem a mata do lado Oeste do mapa nacional. As estradas de terra que cortam o estado simbolizam um espaço de guia ao desconhecido e de possibilidade do novo. A mesma estrada de terra que nos trouxe a violência da colonização e da mineração é, também, o caminho de fuga ao desenvolvimentismo urbano que nos adoece e nos sobrecarrega.

Solto a voz nas estradas/ Já não quero parar/ Meu caminho é de pedras/ Como posso sonhar? […] Vou querer me matar[8]. Um caminho de pedras e/ou asfaltado gera tamanha angústia ao eu lírico que o faz considerar o seu autoextermínio. Como ele pode mobilizar sonhos e futuros em um lugar que fere a sua existência? Não há mais vida. A fantasia da Minas Gerais idílica e isenta de apontamentos críticos só é possível, pois existe uma outra Minas Gerais violenta e modificada que não produz nenhuma identificação e acolhimento sobre os seus habitantes.

 

 

 


REFERÊNCIAS

 

[1] Milton Nascimento. Barulho de Trem. Barulho de Trem, Dex, 1964.

[2] Milton Nascimento; Ronaldo Bastos. Três Pontas. Travessia, Ritmos, 1967.

[3] Milton Nascimento; Ronaldo Bastos. Cais. Clube da Esquina, Odeon Records, 1972.

[4] Fernando Brant; Milton Nascimento. Ponta de Areia. Minas, EMI, 1975.

[5] Cacaso; Maurício Tapajos. Carro de Boi. Geraes, EMI, 1976.

[6] Lô Borges; Márcio Borges. Tudo O Que Você Podia Ser. Clube da Esquina, Odeon Records, 1972.

[7] Milton Nascimento; Ronaldo Bastos. Nada Será Como Antes. Clube da Esquina, Odeon Records, 1972.

[8] Fernando Brant; Milton Nascimento. Travessia. Travessia, Ritmos, 1967.

 

 

 


Créditos da imagem da capa: Cafi

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