Te procurei em cada rosto da Afonso Pena. Penso em como tudo que é belo, divino e maravilhoso é multiforme por natureza — não mapeável, indizível. Se faz presente na ausência. A língua que faz falta, você transforma em um outro possível. Bochecha de guardar olho.

Renuncio à tua lembrança. Apostasia. De você, eu quero presentismo, daqueles que quebram as utopias da busca por futuro, pedindo sempre mais do agora.

Abre-se o último sol antes das águas de março. Apresso o olhar pela multidão; seu sorriso chega antes de você. Todas as cores do mundo nos rodeiam. Queria abraçar com as retinas cada pedaço da sua matéria.

Abraço solto. Suspensão. De todos os nossos momentos, escolho sempre a tua chegada. Caminhamos ao lado do trio. Uma nebulosa púrpura no desenho que antes era Cassiopeia, à direita do teu ombro. Faço uma oração ao Deus do Tempo, como quem diminui o passo ao subir as escadas do templo maior, adiando meu encontro com a adaga de obsidiana.

Conto os passos enquanto o trio avança. Confesso com os olhos. Renuncio. Reverencio a tua beleza — física também, mas não só. Ensaio uma frase de quatro ou cinco palavras. Elas me fogem. Tudo o que poderia ser dito se perde no sentir. Não entendo, mas, se entender, talvez não sinta. Tua risada é caminho; meu coração, encruzilhada atravessada.

Desenho um xadrez cósmico. Sei que todos amam as aberturas, mas o que me interessa são os finais. Li uma vez que o xadrez tem três finais possíveis: os teóricos, os práticos e os artísticos — tendo este último o componente da improbabilidade. A matemática sagrada das coisas possíveis. Penso que todos os movimentos do mundo já foram feitos, mas nunca da mesma maneira. Você segue, solta. Aquilo que você ameniza é minha parte favorita do seu ser. Essa que brilha interminável toda vez que toca a superfície tortuosa da liberdade.

Peço por um quarto de hora; escorre entre os dedos da tua mão direita. Entrego metade do mundo pela noite inteira. Acho que foi por ti que se fez silêncio no céu por duas horas. Uma dança entre o uno e o múltiplo, negando toda dualidade primordial. O tomismo revira na boca do meu estômago.

Ouço o som dos ogãs. O canto é consagrado em fios de conta. Entrelaço cada momento com um cuidado de anos e o frio na barriga de quem acaba de te conhecer. Entro devagarinho. Você desvia o olhar. Procuro os mesmos sinais de sentimento. Um pedacinho escapa no canto do lábio. Você os esconde debaixo dos cílios, como quem protege uma pérola depositada numa vieira no fundo do mar.

Peço ao Deus das sementes que floresça tudo aquilo que eu regar. Ele mistura o meu sangue com farinha, a hóstia dos povos. Totem eterno que vive como prova de que tudo o que te toca exala agora um aroma de mar aberto.

Não consigo deixar de procurar terra firme, mas a segurança pouco interessa para quem conhece a imensidão revoltosa do seu Atlântico. Penso que os navegadores que atravessaram o Cabo da Boa Esperança são os únicos que realmente entendem a sensação que tenho toda vez que sou atravessada por você.

Não dou pé. Me recuso a nadar contra tua correnteza. Me deixo levar, vez ou outra, para o centro da tempestade que se forma no seu olhar — antes que você me entregue de novo para a maré baixa da praia. Sinto a areia nos pés. Fecho os olhos, num cortejo de fé, andando na orla entre as curvas das tuas costas. Penso que toda a literatura ocidental foi a busca por esse mesmo eixo que rege as qualidades sublimes do amor. Sublimação. Não a física, mas a psicanalítica.

Respiro fundo. Procuro pelas suas mãos na rua. Parece natural, quase estrutural. Relaxo os músculos e peço em silêncio ao Deus das ilusões que me permita viver teus segredos por mais alguns encontros. Ele acena a cabeça, me prostro em reverência. Ele cobra um preço alto pelas concessões, mas eu pago.

Escorrem de mim as dádivas das ilusões futuras — uma barganha perto da permanência do seu olhar no momento presente. Assim como fez Neruda antes de mim, abriria mão da primavera para que continuasse me olhando.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Caraparú, Pará, 1999. Luiz Braga.