Mariana de Matos, conhecida por seu nome artístico Maré de Matos, é uma artista transdisciplinar natural do Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. É graduada em Artes Visuais pela Escola Guignard (UEMG) e Mestre em Teoria Literária pela UFPE. Atualmente, Mariana é doutoranda pela USP, onde desenvolve o projeto Museu das Emoções. Sua prática artística e teórica se dedica a explorar as complexas relações entre versão e verdade, história única e (contra)narrativas polifônicas, e poder e posição. A artista se aprofunda em pesquisas sobre representação e responsabilidade, a invenção da raça, a narrativa de si, o imaginário e o delírio da modernidade, além da subjetividade e das poéticas negras. Seus trabalhos se destacam por transitar habilmente entre os domínios da imagem e da palavra, criando uma linguagem híbrida e potente. Ela demonstra um profundo interesse pelo Atlântico Negro como um processo de formação identitária, pela revisão como um princípio norteador e pela poesia como uma ferramenta política de emancipação. Maré de Matos é uma defensora apaixonada do direito à emoção para todos os indivíduos que foram historicamente privados do estatuto de humanidade.

            A mobilização de elementos da performance e da intervenção na obra de Matos transcende o mero sentido de uma escolha por determinadas linguagens artísticas. A presença da artista em locais que dialogam com as palavras presentes em suportes variados – que também auxiliam na composição das obras de forma potencializadora, é capaz de nos suscitar muitos questionamentos, revelando a intencionalidade crítica da mineira acerca do que compreendemos por história. Em Marco Zero (2019), ao erguer um tecido vermelho em frente ao mar, Matos trabalha uma reescritura do passado colonial. A cor vermelha do tecido, que nos lembram velas de uma embarcação, trazendo ainda toda a simbologia da cor vermelha, uma das cores mais intensas no sentido de transmissão de emoções que, dependendo de cada situação, podem ser conflitantes: do amor à violência, da força ao poder e, compreendendo a obra de Matos como confrontadora da história única, entendemos que Marco Zero se inscreve na proposta de revisão de um Atlântico Negro em que ela busca trabalhar o direito à memória e à emoção, até hoje suprimidas pelas condições de subalternidade impostas, sobretudo, à população negra e periférica. Semelhante diálogo acontece em Racismo, também de 2019, em que vemos uma placa com os dizeres Racismo em frente a um prédio cuja arquitetura logo nos traz uma noção de tradicionalismo. Também é latente a potência da obra de Mattos quando pensamos no papel das instituições em relação ao racismo ao longo da história do Brasil em ambos os sentidos de omissão e de combate. É interessante pontuar que as obras de Mattos nem sempre buscam o diálogo entre imagem e palavra: há também uma busca pelo contraste, pelo questionamento, pelo não-óbvio que marca sua pesquisa. Isso faz com que a complexidade histórica seja um objeto de reflexão para o espectador, suscitando uma perspectiva crítica e não-linear. Para essa breve apresentação da obra de Matos, nos interessa discutir, em especial, as aproximações de sua obra com as formulações de Hayden-White (1928-2018) acerca das noções de historiografia e teoria literária, com destaque para a obra História (2019), em que Maré de Matos posiciona uma placa com os dizeres “a História é uma ficção” em frente à uma árvore imponente sugerindo, para além das palavras em si, uma possível problematização com relação à historiografia que ainda se mantém distante de questões que tendem a desestabilizar o ethos da escrita hegemônica.

A ideia de White (1994) é elaborada em torno da noção de que, embora a história busque a verdade sobre o passado, a forma como essa verdade é apresentada e compreendida se encontra profundamente enraizada em estratégias narrativas. Essa associação é, para o autor, construída e tradicionalizada a partir da literatura. Ao criticar a noção de uma historiografia puramente objetiva e factual, White defende que a escrita da história não seria meramente um registro de eventos, mas sim uma construção discursiva. O processo de seleção, de organização e de apresentação das fontes e dos fatos empregaria, segundo o autor, recursos teóricos e figurativos que contribuem para um direcionamento da interpretação, isto é, para um processo de molde do significado do passado. A crítica de White e a arte de Maré de Matos se encontram quando percebemos que ambos trabalham a “invenção do sentido”. Ambos trazem, a partir de linguagens diferentes, a noção de que a história, embora não seja uma ficção no sentido de ser inventada, termina por depender de estratégias de textualização para lhe conferir inteligibilidade, ponto em que se assemelharia a uma produção literária. O principal questionamento em White seria, no limite, a natureza da pretensão de verdade.

            Matos se dedica a investigar, justamente, quais são as naturezas das pretensões da história que nega à população negra o direito à emoção, à integração social e, sobretudo, à participação naquilo que deveria ser uma proposta coletiva de mudança e avanço nos reconhecimentos e nas devidas responsabilizações de atos racistas e de outras violências infligidas à essa população. À essa concepção, em White encontramos uma correspondência com a artista quando vemos que White defende que a compreensão da natureza tropológica do discurso histórico não deslegitima a busca pela verdade, mas, ao contrário, permitiria uma análise mais sofisticada de como o sentido é construído na historiografia. O autor também desafia as concepções tradicionais da historiografia ao ressaltar o papel crucial da teoria literária e da retórica na construção do conhecimento histórico, abrindo caminhos para uma análise mais profunda das formas e significados na escrita da história. Torna-se significativo pensar nos elementos mais presentes nas obras de Matos: a natureza, construções humanas diversas e o mar. O mar, além de remeter ao Atlântico Negro ao qual Matos se dedica em suas pesquisas, também nos remete a um sentido poético das ondulações da água. Dentre as noções que podemos interpretar, estão presentes os sentidos da sinuosidade, do ziguezague, da impermanência das mesmas águas no mesmo lugar. Todos esses entendimentos estão refletidos no ofício do historiador e são necessários para que a perspectiva crítica esteja presente e seja cada vez mais aprimorada, sobretudo nos estudos decoloniais.

Maré de Matos explora em sua prática a contribuição das subjetividades negras para o pensamento decolonial, desafiando narrativas únicas com o que ela define como (contra)narrativas polifônicas, ou seja, histórias ou discursos que se opõem, questionam ou desconstroem narrativas predominantes, hegemônicas ou únicas, mas não apenas a partir da perspectiva da artista e sim, de uma coletividade de vozes e de experiências. Utilizando-se de linguagens híbridas e atuando nos territórios da imagem e da palavra, ela busca elucidar legados coloniais e defender o direito à emoção de sujeitos historicamente desumanizados. Em obras como A Emoção (2020), Eu Quero (2020) e Na ruína do Império (2018), somos convidados a um profundo questionamento sobre a construção da história e da verdade e, ao dialogar com autores como Hayden-White, a artista não apenas expõe as fragilidades das narrativas hegemônicas, mas também oferece um caminho para a revisão e a polifonia, dando voz às experiências e emoções daqueles que foram historicamente silenciados. Sua arte, que transita entre a imagem e a palavra, o corpo e o espaço, emerge como um potente instrumento de emancipação e um convite irrecusável à reflexão crítica sobre o nosso passado e presente.

 

 

 


REFERÊNCIAS:

Prêmio Pipa – Maré de Matos. Disponível em: https://www.premiopipa.com/mare-de-matos/

WHITE, Hayden. Teoria literária e escrita da história. Revista Estudos Históricos, v. 7, n. 13, p. 21-48, 1994.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Reprodução. História, de Maré de Matos. In: Prêmio Pipa – Maré de Matos. Disponível em: https://www.premiopipa.com/mare-de-matos/ Acesso em 08 de outubro de 2025.