Não se pode pressupor o fim de algo que esteve imóvel. Mas isso não significa que, ao se mover, a história necessariamente tenha um objetivo definido. Talvez, ela seja antes o resultado de rupturas. Se tomarmos a história partindo de um processo orientado por um objetivo, teremos o “fim da história” ou como cumprimento bem-sucedido de seu desenvolvimento, ou o “fim da história” sendo o fim da própria ideia de história, que concluiria um movimento progressivo.
Ambas as definições pressupõem um rumo, um objetivo futuro e postulam sobre uma substância que não podem deixar de assumir. Essa substância se desenvolve ao longo do tempo, sendo o único sujeito ontológico assumindo a totalidade da história. Ou seja, haveria uma “essência” identificável que permanece a mesma ao longo do tempo e dá sentido às transformações. Diante dessas definições, uma das mais famosas de todas as teorias de um “fim da história” como realização é a autorrealização do Geist de Hegel, quando afirma que: “A história universal é o progresso na consciência da liberdade – um progresso que temos de reconhecer na sua necessidade”, sendo uma “Progressão da Evolução” (HEGEL, 1975). Outra definição mais recente é a de Fukuyama, que postula um “fim da história” a partir do fim da evolução ideológica com a estabilização da democracia liberal. De modo sucinto, para Hegel, o fim da história seria a realização da liberdade humana; para Fukuyama, o triunfo da democracia liberal após a Guerra Fria.
Ambas as concepções, mesmo que divergentes e distantes no tempo e na sua abordagem, servem de exemplo para entendermos concepções históricas que assumem uma substância como sujeito ontológico totalizante, que atingem um destino específico, cumprindo com um objetivo. O movimento da história, ou seja, o processo histórico, seria provocado visando o cumprimento dos objetivos supracitados.
É importante ressaltar que não se trata aqui de atribuir a explicação da história a concepções externas, senão daquelas determinadas pela própria ação humana. O que não significa também pressupor que a história seja uma realização de uma determinação original e essencial do homem. Sobretudo o que será discutido é a forma que organizamos e experienciamos nossa relação com a alteração da sensibilidade histórica no século XXI, em uma tentativa de prescrever uma representação diante de uma transformação ontológica em curso. Por sensibilidade histórica, entendo aqui a dinâmica em que uma sociedade se relaciona com o tempo histórico e de que maneira ela percebe as mudanças, as rupturas e as continuidades que estruturam sua própria existência.
Nesse sentido, se a história não possui um objetivo com o futuro, de que maneira ocorre uma mudança histórica e quais os seus impulsos? De que modo, afinal, se dá o seu movimento em relação ao passado?
Para descrever os aspectos dessa mudança, utilizarei o capítulo A quasi-Substantive Philosophy of History, da primeira parte do livro History in times of Unprecedented Change de Zoltán Boldizsár Simon. No trecho intitulado History Moves Again, o autor apresenta interpretações desenvolvidas por dois autores diferentes. Zoltán reúne aqui uma síntese do trabalho de Frank Ankersmit e Eelco Runia, que discutem o que provoca as alterações históricas, e sua relação com o passado a partir de uma ausência de uma substância estável e identificável que se desenvolve.
É interessante observar que Ankersmit e Runia estão interessados em um tipo de transformação específica, a qual descreve as alterações marcantes ocorridas nos assuntos humanos, profundamente traumáticas resultantes de eventos que os autores denominam “sublimes”. Esses eventos destroem “as histórias pelas quais vivemos” e estabelecem uma cisão com as quais “alguém se torna o que não é mais”. Estabelecendo uma dissociação com o passado, quase que um processo psicológico em escala coletiva. Isto é, um distanciamento radical entre o presente e o passado, onde o coletivo “reprime” sua antiga identidade. Eventos como revoluções ou guerras mundiais podem servir de exemplo na medida em que inauguram momentos em que o passado muda seu sentido e um novo sujeito histórico emerge.
Segundo essa descrição, o processo histórico perde, assim, o destino ou objetivo para se tornar momentos de ruptura muitas vezes traumáticos, que estabelecem uma nova identidade coletiva. Em outras palavras, em vez de a história ser aqui descrita em uma progressão linear impulsionada por uma substância em desenvolvimento, há apenas a experiência de uma próxima ruptura que rompe com a ideia de continuidade.
É a partir do meio de lidar coletivamente com a descontinuidade causada por eventos “sublimes/traumáticos” que se estabelece uma nova identidade ou transformação histórica. O esforço para explicar o “como” ocorre essa mudança dissociada e descontínua recai sobre o uso de conceitos da psicologia e psicanálise.
Ankersmit estabelece um paralelo com a ideia de Freud sobre a reação melancólica a uma perda traumática quando descreve que: “O objeto perdido é, primeiro, puxado para dentro do sujeito para, em seguida, ser repelido novamente como objeto criticado – enquanto permanecerá, por fim, para sempre parte do sujeito nessa forma” (ANKERSMIT, 2005, p. 341).
Em um nível coletivo, o mundo antigo desempenharia o papel do objeto perdido, estabelecendo a seguinte relação: o mundo antigo se torna parte do sujeito apenas para possibilitar que o novo mundo se dissocie dele. O mundo antigo é perdido, internalizado, criticado, rejeitado, mas é essa própria rejeição que se torna a identidade deste novo mundo. Definindo-se como oposição ao que se abandonou, assumindo uma forma intensa de construir identidade pela negação.
Runia relaciona esse movimento à ideia de “vertigem”, um impulso inconsciente para provocar alterações radicais “um desejo de saltar, encoberto pelo medo de cair”. (RUNIA, 2014, p. 136). Para ele, de tempos em tempos, nós simplesmente cedemos ao impulso de “cometer a história”, de avançar em direção a atos “sublimes”, traumáticos, mesmo que isso aparentemente vá de encontro aos nossos melhores interesses. São esses atos disruptivos que criam o novo e o descontínuo que “quebram a linha” (SIMON, 2019).
Mas, se essas rupturas são tão traumáticas, por que, quando olhamos para o passado (consciência histórica), parece que o movimento da história é resultado de algo contínuo?
Runia descreve que, após a ruptura, surge uma tendência para criarmos narrativas. A escrita da história seria uma atividade paradigmática que suaviza os rastros dessa transformação radical, criando uma ilusão de continuidade. Para fazer sentido daquilo que foi perdido e reduzir o desconforto, um mecanismo de redução de dissonância cognitiva. O ponto fundamental é que, na realidade, o que se alterou foi algo novo: um “novo nós”, uma nova identidade coletiva, que pode ser entendida como um novo sujeito ontológico. Ou seja, uma nova forma de existir enquanto grupo. E essa nova identidade está na sua raiz dissociada da anterior. Desse modo, o que Ankersmit e Runia descrevem não é um caminho com um destino, mas um mecanismo de mudança, um padrão que se repete: ruptura, trauma, dissociação e formação de uma nova identidade.
Um ponto importante é que esta interpretação não aponta para um objetivo final identificado nas filosofias da história mais clássicas. Falta nesse sentido, a direção. Falta uma substância única que se mantenha igual ao longo das alterações históricas. Por isso, Zoltán a denomina filosofia da história quase substancial, porque ainda há movimento e alteração, mas não há uma essência que evolua para um fim específico, um “Telos”. Nesse sentido, os autores descrevem o “como” dessa descontinuidade, mas não seu destino (SIMON, 2019).
De modo geral, na medida em que a explicação de transformações marcantes nos assuntos humanos está relacionada à identidade, e na medida em que é uma explicação da mudança histórica em si, ela descreve um cenário autorrepetitivo, segundo o qual os assuntos humanos mudam periodicamente. Os casos particulares discutidos descrevem um mecanismo postulado na descontinuidade e dissociação histórica, que atribui um certo movimento à história. Mas, diferentemente das filosofias substantivas da história, o movimento, devido à falta de qualquer substância identificável que pudesse reter sua identidade em meio a todas as alterações, não leva a lugar algum, ou, para ser mais preciso, o movimento conceitualizado da história não leva a um destino definido. Sendo assim, nem ao cumprimento de um propósito final nem às fases inevitáveis de uma cultura semelhante a um organismo. Há apenas uma próxima ruptura que se segue.
Se esse mecanismo de ruptura, trauma, dissociação e nova identidade não ocorreu apenas no passado longínquo, mas descreve a maneira como a transformação histórica realmente funciona, isso revela que se trata de um processo em curso.
As crises que vivemos, sejam elas climáticas, políticas, sociais ou tecnológicas, podem ser vistas como eventos que nos obrigam a mudar e forçam uma ruptura que impulsiona uma nova identidade coletiva, cujo contorno ainda mal conseguimos perceber. Onde as mudanças e os traumas atuais podem nos empurrar para uma transformação muito mais radical do que imaginamos. Claro que não há aqui a pretensão de estabelecer uma previsão, mas antes um quadro de referências para se pensar sobre a natureza destes processos. O futuro, segundo Zoltán, é uma esfera de existência fundamentalmente desconhecida e imprevisível, que simplesmente será ou virá a ser, em vez de ser algo que podemos antecipar ou deduzir com base em eventos ou padrões passados.
Se a história avança por saltos de ruptura, talvez devêssemos estar mais atentos aos sinais desses sintomas em curso, em vez de procurarmos apenas a continuidade de processos lineares. Isso significa que talvez a sensação de crise permanente não seja um desvio temporário, mas sim um sintoma de estarmos atravessando um desses momentos de transformação traumática.
REFERÊNCIAS :
ANKERSMIT, Frank, Sublime Historical Experience. Stanford, CA: Stanford University Press, 2005.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. The Course of World History. In: HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Lectures on the Philosophy of World History. Trans. Hugh Barr Nisbet, Cambridge: Cambridge University Press, 1975. Cap. 2, p. 124-138.
RUNIA, Eelco, Moved by the Past: Discontinuity and Historical Mutation. New York: Columbia University Press, 2014.
SIMON, Zoltán Boldizsár, History Moves Again. In: SIMON, Zoltán Boldizsár. History in times of unprecedented change: A Theory for the 21st Century. London: Bloomsbury Academic, 2019. Cap. 1, p. 39-57.
Créditos na imagem de capa:
CAMARGO, Iberê. Carretéis. 1958, óleo sobre tela. Iberê Camargo (1914–1994) foi um dos maiores pintores brasileiros do século XX, conhecido por uma obra expressionista marcada por forte densidade emocional. Disponível em: https://revistacontinente.com.br/edicoes/167/ibere-camargo–um-gigante-e-sua-solidao. Acesso em: 20 nov. 2025.
