“A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado”
Marc Bloch
No tempo presente estamos vivendo uma verdadeira crise de mentalidades, em razão da forte polarização que persiste no cenário contemporâneo. Percebe-se que mesmo com os resultados das eleições de 2022, as problemáticas políticas estão em efervescência constante. Como consequência desse fato social, tivemos o 08 de janeiro de 2023, data que marca os atos antidemocráticos ocorridos em Brasília.
A democracia brasileira está “respirando por aparelhos” (…). Pode parecer um termo agressivo de caracterizar esse importante regime político. Sem essa forma de governo não teríamos elegido os representantes políticos estaduais e federais. Nesse sentido, vale ressaltar o conhecimento do passado como ponto de partida para a análise do presente e seus reais compromissos verídicos. A grande “bomba-relógio” se iniciou em 2018 com o avanço das redes sociais, além da intensa rivalidade de progressistas e conservadores, preocupados em quem iria comandar o Planalto nos próximos quatro anos.
Afirmo que 2018 foi um ano de laboratório, onde testamos o crescimento do setor da extrema direita e de seus projetos reacionários de cunho fascista. As urnas acusaram uma nova “figura política”, a qual chegou no poder com o convencimento das plataformas digitais, além da sua tentativa de assassinato em Juiz de Fora/MG. Os anos se passaram. Com isso, houve o aparecimento da crise sanitária que abalou o globo inteiro e os planos de todas as populações, tanto do hemisfério norte quanto do sul.
Diante desse ângulo, o governo federal da época (2019-2022) não soube lidar com a nova “peste contemporânea” que varreu os continentes além-fronteiras. O Brasil virou um verdadeiro “faroeste sanitário” (A fome aumentou, ausência de vacinas, deboche e descaso com a pandemia do covid-19). Hoje, estamos vivendo suas heranças diretas, que são as saudades dos entes queridos. E a herança indireta que são as cicatrizes sociais, econômicas e políticas daquele tempo.
Enfim, 2022 – o ano mais acirrado desde a redemocratização. O Brasil completamente dividido em razão da preocupação de quem iria assumir o próximo mandato. Final de Outubro, o ícone do partido dos trabalhadores derrota o mito do partido liberal. Porém, a crise democrática ainda estava só começando, houve muitos ocorridos. Entretanto, o 08 de janeiro de 2023 foi o marco na História Contemporânea Brasileira. O atentado aos três poderes, como nunca houve desde a fundação da capital federal. Lastimável perceber como essa herança já estava engajada como um projeto reacionário nos “rebeldes” ou “golpistas” – como estão sendo chamados e reconhecidos.
Reafirmo que essa tentativa da abolição do Estado Democrático de Direito já era um plano ou, mais do que isso, uma ação efetiva de pessoas heteronômicas e facínoras mergulhadas no coletivo e incapazes de colocar o espírito crítico e questionador em prática. Talvez sim, mas a inclinação para aquilo que entendem e leem como rebeldia faz parte da consciência humana dos participantes do referido ato. Para entender o presente não se pode negar o passado; por mais que não possamos mudá-lo, o seu conhecimento é necessário. Sem o referido conhecimento não entenderemos o tempo presente. É algo tão fácil de compreender.
Em tese, é necessário perceber que o 2018 foi o estopim para que o atentado de 2023 ocorresse. O avanço foi rápido suficiente para enxergarmos que a ruptura democrática, atrelada aos setores reacionários insistentes em não respeitar às urnas diante dos seus resultados, é uma marca de tudo que estamos vivendo em pleno 2025. Acrescento aqui: às vésperas do ano que está por vir.
Talvez estejamos entrando em uma irrupção do futuro? Quais os rumos que a democracia brasileira está tomando? Aonde iremos? Se tirar o respirador, ela falece. Assim o fantasma assombrará em ventos fortes a política do País. Esse fantasma de um grupo que insiste e persiste em se apresentar como os “conservadores da pátria”, mas na verdade são contrários ao jogo democrático. Fazem da democracia um verdadeiro fantoche. Quais desafios do presente a historiografia enfrenta? Quais desafios futuros a historiografia encontrará?
Créditos na imagem de capa: Cena de ‘Apocalipse nos Trópicos’, de Petra Costa – Netflix/Divulgação
Davi Silva de Carvalho
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História da Historiografia: International
Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
Qualis Periódiocos:
A1 História / A2 Filosofia
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