A cultura dialoga profundamente com a historiografia, e filmes muitas vezes são usados na realização de críticas sociais. No filme “Pecadores” de Ryan Coogler lançado em 17 de abril de 2025, podemos perceber todos esses elementos incorporados em um longa-metragem de terror, a partir do qual podemos pensar assuntos profundos de nossa sociedade envolvendo o racismo, a desumanização e a subjulgação de corpos.

Em um primeiro momento, cabe ressaltarmos o contexto da ambientação do filme, este, se passa em Mississipi, no Estados Unidos, nos anos de 1932, Estado que aboliu a escravidão oficialmente em 7 de fevereiro de 2013. No filme, percebemos de forma clara os aspectos da segregação racial e do racismo, evidenciados na separação em todos os aspectos de ambientes frequentados pela população negra e ambientes frequentados pela população branca. Assim, dois irmãos “Fumaça” e “Fuligem” ao retornarem para o Delta do Mississipi onde nasceram, compram uma serraria de um homem branco da região (que mais à frente descobrimos ser membro da Ku Klux Klan) com o dinheiro que obtiveram em Chicago, e no decorrer do filme passam o dia trabalhando na abertura de um bar voltado a população negra, que conta com a apresentação de blues por parte de seu primo “Sammie” e um antigo amigo “Delta Slim”. A trama se desenvolve e o bar é aberto, a música é apreciada e atrai a atenção de um trio de vampiros que persiste em atacá-los e é liderado por um vampiro irlandês que tem como estilo musical o folk.

Dessa forma, cabe destacar como a escravidão, evidenciada pela colheita incessante do algodão, e a segregação espacial que leva a criação de um bar próprio para comunidade negra, refletem os aspectos historiográficos de um contexto no qual a segregação era institucionalizada: “[..] as chamadas leis “Jim Crow” instituíam a segregação racial por leis locais e estatais no sul dos Estados Unidos a partir das últimas décadas do século XIX.” (AGUIAR, 2019, p. 30). A partir disso, podemos pensar os aspectos trabalhados por Toni Morrison em seu ensaio “Racismo e Facismo”, no qual a autora trabalha como o racismo e o fascismo constroem uma estruturação de poder que parte grandemente da subalternização do outro, que é demonizado, objetificado, subjulgado e cerceado em suas formas de expressão.

Um dos pontos trabalhados por Morrison para essa estruturação de poder, é: “IV. Cerceie todas as formas de arte; monitore, difame, ou expulse aqueles de desafiem ou desestabilizam os processos de demonização e deificação.” (MORRISON, 2019, p. 1). No filme, é mostrado como o estilo musical do blues configura uma forma de resistência por parte da população negra, evidenciada principalmente durante a apresentação de Sammie que evoca ao momento presente a presença de uma ancestralidade e até mesmo de uma posteridade, mostrando como esse estilo musical se vê associado a identidade negra. Sobre esse estilo musical, Letícia Ferreira Aguiar em seu artigo: “Robert Johnson e o racismo em Mississipi nas décadas de 1910-1930 no documentário “O Diabo na Encruzilhada”” discorre sobre como:

 

“O blues é apresentado de forma a explicitar sua relação com o processo de resistência negra e a formação de uma cultura afro-americana, em meio a cultura sulista norte-americana, branca, cristã e racista. Enfocando um contato com a cultura africana, desde assuntos até formas de produzir músicas do continente ancestral, o blues é sinônimo de ruptura com a mentalidade opressora.” (AGUIAR, 2019, p. 31).”

 

A partir disso, podemos traçar um paralelo entre o pensamento desenvolvido por Toni Morrison e a relação entre os Vampiros que tocavam folk e os negros que ouviam blues. Os vampiros nesse paralelo podem ser analisados enquanto a supremacia branca que busca cercear os meios de produção cultural negra, subjulgando suas formas de representação, e procurando no caso do filme impor o folk. Outro aspecto trabalhado é o da demonização do blues, no filme vemos como o pai de Sammie, um pastor, se opõe ferrenhamente quando este se propõe a tocar blues, se referindo a essa música como sendo do diabo, o que dialoga com tanto com Aguiar, quando essa trabalha em seu artigo sobre a demonização desse estilo musical quanto com Morrison que evidencia essa demonização como forma de opressão.

Outro conceito que podemos pensar através da análise do filme, é o de “soberania” desenvolvido por Mbembe, que para o autor se refere: “[…] a capacidade de definir quem importa e quem não importa, quem é “descartável” e quem não é”. (MBEMBE, 2019, p. 33). No filme, percebemos o exercício dessa soberania por parte tanto dos vampiros que representariam uma alegoria a essa classe dominante branca, quanto à própria classe branca representada no filme pelos dois primeiros a serem transformados e pelos fazendeiros, que se configuravam enquanto membros da Ku Klux Klan na localidade. Dessa forma, o proprietário que vendeu a serraria, líder do movimento na localidade, inconformado de os irmãos Fumaça e Fuligem disporem do dinheiro que possuíam e por abrirem o bar para negros, enviesados por ideais racistas, e dispondo do exercício da soberania, organizam uma chacina com o objetivo de matar todos quanto estivessem no bar.

Dessa forma, através do filme Pecadores podemos pensar o conceito de soberania trabalhado por Mbembe e também a forma com a qual esta se mantém estruturada com base na subjulgação que prevê em grande medida a opressão cultural tão bem trabalhada no filme, que enquanto um longa-metragem de terror, nos faz refletir através de uma obra vampiresca o terror que é o racismo de nossa sociedade.

 

 

 


REFERÊNCIAS:

AGUIAR, Letícia Ferreira. Robert Johnson e o racismo em Mississipi nas décadas de 1910-1930 no documentário “O Diabo na Encruzilhada”. Revista Discente Ofícios de Clio, Pelotas, vol. 4, n. 06, p. 1-10, jan./jun. 2019.

MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: n-1 edições, 2018.

MORRISON, Toni. Racismo e fascismo. In: MORRISON, Toni. A fonte da autoestima. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

PECADOORES. Direção: Ryan Coogler. Produção: Proximity Media; Warner Bros. Pictures. Estados Unidos, 2025. Filme.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: G, Yuri. PECADORES tem cena pós-créditos? Resumo, SPOILERS e final explicado do filme de 2025. Ageleia, 17 abr. 2025. Disponível em: https://ageleia.com.br/artigo/pecadores-sinners-2025-filme-final-explicado-e-cena-pos-creditos/. Acesso em: 18 ago. 2025.