Uma das expressões da dificuldade do Brasil em se reconhecer como país latino-americano está no pouco conhecimento existente, entre nós, sobre cantores e compositores de nossos países irmãos. É certo que não se trata de um desconhecimento total. Fenômenos populares como a guarânia paraguaia ou a ranchera mexicana, estilos musicais muito influentes no cancioneiro sertanejo raiz brasileiro, são familiares aos nossos ouvidos.

Além disso, a depender do ambiente, pode-se até lembrar de um nome do bolero aqui, da salsa ali ou do rock acolá. Não são raros os casos de hits musicais em espanhol que chegam até os brasileiros. Em espaços universitários também é recorrente a presença de ícones como Mercedes Sosa, Violeta Parra, Victor Jara entre outros.

Curiosamente, o cubano Silvio Rodríguez é pouco conhecido entre os brasileiros, na contramão dos demais países latino-americanos nos quais frequentemente realiza turnês e é tido como um dos maiores do continente. Embora já tenha vindo ao Brasil algumas vezes, nunca vimos apresentações de Silvio pelo país, ainda que fenômenos pop de língua inglesa incomparavelmente menores ganhem espaço ano após ano em nossos palcos.

Esse elemento já tornaria especial a visita de Chico Buarque a Havana, realizada em abril passado. Gestos de solidariedade como este sempre marcaram a Revolução Cubana em seus momentos mais difíceis, como no final do século passado. É sabida a amizade de cinco décadas entre os dois artistas. Na canção Quien fuera, do disco “Silvio” de 1992, o cantor cubano coloca Chico entre os grandes (Rodríguez, 1992). Não é, pois, de se estranhar que o brasileiro, ao encontrar agora músicos populares de Cuba, tenha puxado de improviso a canção Pequeña sernenata diurna, uma das pérolas de Silvio, verdadeira declaração de amor à ilha socialista (Rodríguez, 1975). Chico a registrara, em fins dos anos 1970, em seu disco “Chico Buarque” (Buarque, 1978).

Também é conhecido o olhar atento de Chico à cena política de cada época. Entendeu e retratou musicalmente acontecimentos fundamentais como a ditadura brasileira e a Revolução dos Cravos portuguesa, por exemplo. A ida a Cuba num momento tão agudo como o atual só reforça sua trajetória artística e intelectual. Ressalvas todo artista terá, ainda mais alguém com uma carreira tão longeva, na qual se articulam música, política e literatura. De todo modo, que fique registrado para os anais da história: no sombrio ano de 2026, Chico Buarque foi a Havana. Isso faz muita diferença.

Certo. Mas faltava algo: o encontro efetivo com Silvio. E ele veio, da forma mais bela e impactante: cantaram juntos a emblemática canção Sueño con serpientes, gravada originalmente em 1975, no primeiro disco do cubano “Días y flores” (Silvio, 1975). Há duetos que se eternizam. Eis um deles, no qual cada imagem, cada olhar e cada verso compõem um dos momentos mais marcantes da música latino-americana. É preciso, pois, situar minimamente a importância desse evento no contexto atual.

O período recente não é nada animador para a América Latina. Com uma sequência de países que transitam para governos de extrema direita, eleição após eleição, não só o horizonte da revolução socialista vai ficando cada vez mais ofuscado, como a própria referência da democracia parece se esvanecer – ela que foi sempre entre nós, não só para o Brasil, um grande mal-entendido, como dizia o historiador Sérgio Buarque de Holanda, pai de Chico (Holanda, 1995).

A quem estuda minimamente a história, não admira a ofensiva dos Estados Unidos sobre o continente. Ela sempre existiu, com a alternância entre etapas mais sutis e outras mais agressivas. É deste segundo tipo o atual cenário. O que se viu na invasão estadunidense ao país venezuelano e no sequestro de seu presidente no início de 2026, apresenta-se, agora, como um fantasma que assombra Nicarágua, Cuba e, ainda que menos provável, até mesmo países economicamente mais expressivos como México e o Brasil.

O caso de Cuba é particularmente significativo. Não obstante os limites do processo cubano desde a revolução de 1959 – e há estudiosos sérios para os apontar – a ilha ainda é nossa ponta de lança. É o país que levou mais a sério o que há um século nos ensinava o peruano José Carlos Mariátegui: a revolução deve ser uma construção original e heroica de um povo, jamais uma cópia ou o cumprimento de uma receita ditada por iluminados (Mariátegui, 2008).

Em nenhum outro país de nossa América Latina fomos tão longe, tão fundo e de forma tão duradoura no enfrentamento do imperialismo estadunidense e do modo de vida capitalista, mesmo com um bloqueio econômico atroz e o consequente rigor e disciplina de trabalho e consumo que a população precisou assumir. Nenhum país das Américas implantou um sistema público de direitos sociais como o cubano. Fidel Castro dizia que, enquanto países capitalistas poderosos exportam bombas, Cuba exportava médicos (Castro, 2003). Não apenas isso, mas também a solidariedade a outros país, como o Brasil durante a ditadura e depois dela. Por isso, a experiência cubana é, há quase sete décadas, não só um acontecimento: ela é a recusa do fatalismo capitalista – é a nossa reserva de utopia.

Mas a dialética da história é implacável e não se subordina a nenhuma bandeira. Por isso, regimes e governos, quaisquer que sejam, duram ou não duram de acordo com as condições concretas, as relações internas e externas e, sobretudo, com as inúmeras determinações que se impõem. E as atuais são terríveis.

Depois da trágica década de 1990, Cuba teve um pequeno respiro nos primeiros dez anos do milênio em razão da onda de governos democráticos pela América Latina que possibilitaram medidas antibloqueio. Tão logo entra a segunda década, porém, o vento vira e a extrema direita avança pelo mundo. A pandemia complica radicalmente a economia cubana e, ao seu término, temos o país arrasado pela crise econômica interna e pela dificuldade do abastecimento externo de petróleo.

O avanço do obscurantismo do governo estadunidense só faz piorar o quadro. O que temos nos últimos meses é um sufocamento cruel dia a dia, mais ainda do que já foi. A continuar assim, a Revolução Cubana pode ser vencida por asfixia; em último caso, por invasão militar.

Tudo isso torna a trova de Chico e Silvio particularmente sensível. É belíssima! No entanto, é também melancólica, porque cantada em um cenário regressivo. Vale recordar o conteúdo da canção. Nela, Silvio Rodríguez nos apresenta uma instigante alegoria, não por acaso executada, invariavelmente, após a declamação do poema Os imprescindíveis de Bertolt Brecht, que lhe serve de prólogo.

A canção retrata assustadoras serpentes do mar, que enchem suas barrigas arrancando o que de bom encontram pelo caminho. O trovador é seu grande adversário: ele a faz engasgar com as forças do bem. Mas a serpente é imensa e o engole. Contudo, ao chegar ao estômago do monstro, o trovador o destrói com sua arma: a proclamação da verdade, expressa em seus versos. 

O que poderia ser um desfecho feliz e glorioso encontra, contudo, a força da contradição sinalizada no refrão: la mato y aparece una mayor/ con mucho más infierno en digestión (Silvio, 1975). Não estamos no registro romântico do herói que sofre e se redime no final, tampouco num roteiro de filme hollywoodiano, mas no chão da realidade.

É certo, pois, que esta canção apresenta uma dualidade de forças. De um lado, a “serpente” representa o mal, o capitalismo, o imperialismo. Contra ela se levanta o “trovador” que traz o verso da verdade, que lhe causa indigestão e que por fim mata a serpente. Ocorre que ela renasce. Não há descanso? Não. La mato y aparece una mayor, repete a canção.

Poderíamos pensar em um processo infinito, uma luta de contrários em que os vencidos, na acepção de Walter Benjamin (Benjamin, 1987), teriam uma tarefa inglória: lutar com a serpente sabendo que ela renascerá logo adiante. A história dos golpes civis-militares na América Latina corroboraria esta interpretação. Diríamos, em tom derrotista: o inimigo sempre vence.

Não é verdade. Ele não venceu sempre. Houve combate, houve luta, houve uma revolução numa pequena ilha que enfrentou bravamente os séculos de modelo colonial e o império estadunidense. Os franceses que fiquem com 1789; nós, latino-americanos, temos outra data-símbolo: 1959!

Por isso, em maior sintonia com as contribuições de Benjamin, o que nos cabe, tomando a canção como referência, é analisar o momento específico da luta: se estamos num contexto favorável aos oprimidos – em que encaramos a serpente e la matamos – ou em outro, favorável às forças do imperialismo – em que aparece una mayor.

Ouvir Sueños con serpientes hoje, então, é distinto de como se a ouvia quando foi composta. O que não tira um milímetro de sua beleza e importância. É daquelas obras artísticas que encontram perfeita harmonia entre forma e conteúdo; além disso, define, em poucos versos, o drama latino-americano desde a colonização.

A história oficial, evidentemente, continuará destacando a força da serpente. Porém, a quem busca ler o passado de forma crítica, cabe não apenas supor a possibilidade de que ela seja vencida, mas recordar os embates em que ela foi, de fato, enfrentada, dos mais imponentes, como as lutas pela independência e revoluções socialistas, aos menos conhecidos e notórios, como a resistência de tantos anônimos sob as ditaduras.

De um lado, é importante compreender a luta de ontem como parte da luta de hoje. Por outro, é preciso também o realismo que nos faça perceber a gravidade da quadra histórica atual: é a hora da serpente, muito mais do que a do trovador.

A história nunca se fecha – eis uma das muitas lições que o heroico povo de Cuba nos ensinou. Porém, ao encantamento que nos vem por ouvir Silvio e Chico, mistura-se, inevitavelmente, um gosto amargo. La mato y aparece una mayor.

Oxalá não seja a última trova da Revolução Cubana.


Referências:

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas. Vol. I. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987.

BUARQUE, Chico. Chico Buarque. Rio de Janeiro: Philips, 1978. 1 disco de vinil (33min 12s).

CASTRO, Fidel. Médicos e não bomas. Discurso de Fidel Castro. Buenos Aires: Faculdade de Direito da UBA, 2003.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

MARIÁTEGUI, José Carlos. Sete Ensaios de interpretação da realidade peruana. Tradução de Felipe José Lindoso. São Paulo: Expressão Popular/Clacso, 2008.

RODRÍGUEZ, Silvio. Días y Flores. Havana: Egrem, 1975. 1 disco de vinil (44min 27s).

RODRÍGUEZ, Silvio. Silvio. Havana: Egrem, 1992. 1 disco de vinil (45min 30s).


Créditos na imagem de capa: Capa do Single “Sueño con serpientes” no Spotfy – Silvio Rodríguez e Chico Buarque (2026).