Talvez uma das coisas mais difíceis da vida contemporânea seja distinguir aquilo que realmente nos falta daquilo que aprendemos a acreditar que nos falta. Vivemos procurando alguma coisa que parece estar sempre um pouco adiante: uma conquista, uma pessoa, uma casa, uma viagem, um objeto, reconhecimento, oportunidade. Há quase sempre uma promessa implícita de completude: quando isso acontecer, quando eu conseguir aquilo, quando chegar lá, então alguma coisa finalmente estará no lugar.

Essa inquietação aparece de maneira aparentemente simples em “A Parte que Falta”, de Shel Silverstein. O personagem parte pelo mundo convencido de que existe uma parte ausente e de que encontrá-la poderá finalmente completá-lo. Mas é justamente enquanto está incompleto que experimenta o caminho: encontra outras formas, atravessa paisagens, observa o que existe ao redor, conversa, canta, sente o perfume das flores. A falta que o impulsiona também cria espaço para que a vida aconteça.

Quando finalmente encontra a parte procurada, porém, surge o paradoxo. Completo, já não atravessa o mundo da mesma maneira. Aquilo que deveria resolver sua existência também modifica sua experiência. Talvez seja esse o ponto em que uma história aparentemente infantil começa a fazer uma pergunta bastante adulta: quantas coisas perseguimos porque efetivamente nos faltam e quantas perseguimos porque, em algum momento, aprendemos que deveríamos desejá-las?

Há uma engrenagem econômica sofisticada que depende da manutenção crônica dessa angústia. O modelo produtivo contemporâneo não comercializa apenas bens materiais, mas a promessa renovada de redenção pessoal a cada ciclo de consumo. Se o cidadão se reconhecesse plenamente abastecido em suas necessidades fundamentais, a própria arquitetura da obsolescência perderia tração. Fabricar carências fictícias é, afinal, o artifício mais eficiente para impedir que a sociedade repouse e reconheça a estabilidade daquilo que já conquistou.

Penso nisso quando observo Fernanda e sua relação com objetos antigos. Ela gosta de porcelanas, cerâmicas, utensílios de cozinha e peças encontradas ao acaso, coisas que carregam marcas de outros tempos. O interessante, entretanto, não é propriamente colecioná-las. É que ela as utiliza. A porcelana não fica esperando dentro do armário por uma ocasião suficientemente importante. Vai para a mesa, recebe café, acompanha uma torta, divide espaço com flores do jardim e volta a participar do presente.

Pode parecer apenas uma preferência estética, mas talvez exista algo maior nesse pequeno gesto. Somos frequentemente ensinados a guardar as coisas boas para depois: a louça para a visita, a roupa para uma ocasião especial, a viagem para quando houver dinheiro ou tempo, o descanso para quando terminarmos as obrigações, a conversa para amanhã. Guardamos tanto para uma vida futura que, às vezes, é a própria vida presente que acaba guardada.

Há algo particularmente interessante, portanto, em preparar uma mesa bonita sem esperar ninguém. Em colher flores do jardim, fazer um café, escolher uma porcelana antiga e reconhecer que os próprios olhos também merecem participar da beleza. Não porque todo cotidiano precise ser transformado em espetáculo, mas justamente pelo contrário: porque uma experiência não deveria precisar ser exibida, fotografada ou reconhecida pelos outros para adquirir importância.

O preço invisível dessa busca incessante pelo que falta é a transformação da vida cotidiana em uma perpétua sala de espera. Trata-se de uma recusa silenciosa em habitar a própria biografia enquanto determinadas condições perfeitas não forem atingidas. Adiam-se o cuidado com a saúde, a convivência comunitária e a fruição do tempo ordinário sob o pretexto de que o momento atual é apenas um rascunho transitório, um prelúdio incômodo que precede uma maturidade que teima em nunca desembarcar.

Quem sabe esteja aí uma diferença essencial entre completar e compor. Completar pressupõe uma ausência que precisa ser eliminada: falta uma peça, portanto precisamos encontrá-la. Compor parte de outra lógica. Significa olhar para aquilo que já existe e descobrir relações possíveis entre suas partes. Uma casa talvez não precise ser outra casa para voltar a ser habitada; uma tarde não precisa de um grande acontecimento para ser memorável; uma xícara antiga não precisa ser nova para participar de uma experiência nova.

No campo da administração pública, essa distorção manifesta-se no fascínio permanente pela novidade regulatória e pelos planos salvadores. Governos e lideranças políticas acumulam projetos pirotécnicos enquanto leitos de hospitais, salas de aula e estradas já construídas degradam por pura inércia orçamentária e falta de manutenção básica. Cria-se a falsa narrativa de que a eficácia depende de um novo pacto ou de um aporte financeiro miraculoso, ignorando que a inteligência do Estado reside em mobilizar com rigor os quadros técnicos e a estrutura já instalados.

Isso não significa transformar toda falta em ingratidão. Algumas coisas realmente faltam, e romantizar essas ausências seria uma maneira confortável de ignorar problemas concretos. Pode faltar dinheiro, tempo, descanso, oportunidade, segurança, afeto, reconhecimento, escuta, cuidado. Há pessoas que não precisam aprender a desejar menos, mas ter condições reais para viver melhor. Nem toda ausência é produto da comparação e nem toda insatisfação deveria ser respondida com conformismo.

A dificuldade está justamente em distinguir uma coisa da outra. Há faltas que nos movem e faltas que nos ferem; necessidades concretas e desejos produzidos pela comparação; ausências que precisam ser enfrentadas e outras que talvez tenham sido fabricadas silenciosamente dentro de nós. O problema começa quando já não sabemos reconhecer a diferença e passamos a tratar todo desejo como necessidade e toda incompletude como fracasso.

Essa distinção tornou-se ainda mais difícil em uma sociedade que aperfeiçoou a capacidade de produzir desejos. Todos os dias somos apresentados a casas melhores, corpos cuidadosamente construídos, viagens, relacionamentos felizes, carreiras bem-sucedidas, restaurantes, roupas, objetos e experiências. Nunca tivemos acesso a tantas imagens de abundância e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão fácil olhar para a própria vida e enxergar escassez.

A comparação modifica até a maneira como formulamos nossas perguntas. Em vez de “eu realmente quero isso?”, começamos a perguntar “por que ainda não tenho isso?”. A diferença parece pequena, mas é profunda. A primeira pergunta investiga um desejo; a segunda pressupõe uma deficiência. Talvez por isso fosse necessário desconfiar um pouco mais daquilo que desejamos: quem me ensinou que preciso disso? Quando essa ausência se tornou um problema? O que acredito que acontecerá comigo quando finalmente conseguir?

Existe ainda uma pergunta mais incômoda: o que deixamos de perceber enquanto olhamos obsessivamente para aquilo que ainda não temos? Quando esperamos pela próxima casa, podemos deixar de habitar aquela em que estamos. Quando esperamos a próxima viagem, atravessamos distraídos a cidade cotidiana. Quando procuramos novas pessoas, podemos oferecer pouca atenção às que permanecem conosco. Quando esperamos pela vida que imaginamos merecer, existe o risco de nos ausentarmos justamente daquela que está acontecendo.

Essa mesma voracidade contamina os afetos com uma perversa lógica transacional. Passamos a exigir dos parceiros, amigos e familiares a precisão cirúrgica de uma peça de encaixe, cobrando deles o preenchimento de vazios que pertencem apenas à nossa própria solidão. Ao primeiro sinal de atrito ou imperfeição, a reação contemporânea é diagnosticar a incompatibilidade e reiniciar a busca pelo próximo encontro ideal, esquecendo que o afeto maduro não decorre do alinhamento simétrico, mas do trabalho artesanal de compor com as arestas alheias.

Quiçá algumas das coisas das quais sentiremos mais falta no futuro sejam justamente aquelas que hoje mal percebemos. A voz de alguém vindo de outro cômodo, um café sem pressa, uma pessoa sentada sempre no mesmo lugar, uma caminhada repetida pela mesma rua, uma planta que alguém insiste em cuidar. Há algo desconcertante na possibilidade de já possuirmos aquilo de que um dia teremos saudade sem que, neste momento, saibamos reconhecer seu valor.

É por isso que volto à mesa de Fernanda. Não porque porcelanas, flores ou um bolo de laranja com açúcar polvilhado ofereçam uma fórmula para viver melhor, mas porque há naquele gesto uma pequena resistência à ideia de que a vida importante está sempre em outro lugar. O personagem de Silverstein percorre o mundo procurando a parte que lhe falta; Fernanda coloca sobre a mesa as partes que já possui. Entre esses dois movimentos, procurar e perceber, talvez transcorra uma parcela considerável do “estarmos aqui e agora”.

Amadurecer tem menos relação com finalmente completar a vida e mais com aprender a distinguir as diferentes naturezas de nossas faltas. Algumas exigem que caminhemos; outras, que paremos. Algumas precisam ser preenchidas; outras, compreendidas. Algumas justificam mudanças profundas; outras talvez estejam apenas nos impedindo de enxergar aquilo que permanece diante de nós. E talvez a pergunta mais importante não seja, qual é a parte que falta, mas outra, bem mais difícil: quanto daquilo que chamamos de falta é realmente ausência e quanto é apenas aquilo que ainda não aprendemos a reconhecer como presença?

Isso não significa deixar de desejar, partir, transformar ou procurar. Há faltas que são chamadas para o movimento e seria igualmente triste confundir acomodação com contentamento. Talvez a medida esteja justamente nesse discernimento: não permitir que o desejo pelo que ainda não chegou nos torne indiferentes ao que já chegou. Continuar caminhando sem transformar todo presente em sala de espera; desejar outros lugares sem deixar de habitar aquele em que os pés ainda estão; procurar aquilo que falta sem fazer da falta a única maneira de olhar para a própria existência.

Mudar a ótica, portanto, não é um exercício de resignação passiva, mas um ato de rigor analítico. Significa realizar uma auditoria desarmada das próprias forças antes de terceirizar culpas à escassez ao redor. Antes de clamar por novas leis em uma nação, ou por novos estímulos em uma relação pessoal, a atitude verdadeiramente lúcida consiste em levantar o véu da desatenção e colocar para funcionar, com o zelo devido, as ferramentas e os afetos que já estão postos à nossa mesa.

No fim, talvez, a parte que talvez não falte, seja menos uma resposta do que uma medida para os nossos dias. Diante daquilo que desejamos, poderíamos nos perguntar não apenas, o que ainda me falta? Mas também: O que existe hoje em minha vida que eu só reconheceria como precioso se amanhã deixasse de existir? Quem sabe algumas respostas nos façam continuar procurando. Outras, mudar de caminho. E talvez as mais importantes simplesmente nos façam voltar para casa, sentar-se à mesa, usar a porcelana guardada e perceber que certas partes que passamos tanto tempo procurando nunca estiveram exatamente ausentes. Nós é que ainda não havíamos aprendido a estar presentes diante delas.

 

 

 


Créditos na imagem de capa:

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