Tem coisas na nossa história que a gente pass a vida inteira tentando engolir, mas que só ganham nome quando a gente esbarra na dor do outro. Foi isso que aconteceu comigo depois de ler Solitária, de Eliana Alvez Cruz, e de encontrar, em o O Perigo de uma história única, de Chimamanda Ngozi Adichie. Não é que os dois livros tenham me contado alguma coisa sobre a minha vida que eu não soubesse. Eu estava lá. Eu vivi. O estranho é perceber que viver uma coisa e saber das nome a ela são experiências muito diferentes.
Às vezes a memória chega primeiro e a palavra leva anos para alcançar.
Em Solitária, Mabel (personagem principal) lembra o sacrifício de aprender a ocupar uma casa sem verdadeiramente ocupá-la: “Era preciso estar presente sem estar” (Cruz,2022, p.102). Quando li isso, alguma coisa antiga despertou em mim.
Desde os meus cinco anos de idade (ou até mesmo antes disso), o meu mundo, assim como o da Mabel, era também delimitado pelas paredes de um quartinho de empregada. Só que havia uma diferença importante entre nós. Mabel ia com a mãe para o apartamento luxuoso dos patrões e voltava para a própria casa. Eu e minha mãe morávamos em tempo integral na casa dos patrões.
A casa deles era também o trabalho dela e, de certa forma, era minha casa sem nunca ser completamente a minha casa.
Quando eu tinha dez anos, a filha daquela família engravidou. A solução foi “mudar” a gente de cidade para acompanha-la. Naquele momento, eu não pensava em relações de poder, classe social, trabalho doméstico ou qualquer uma dessa palavras grandes que aparecem depois que a gente entra numa universidade. Eu era criança. E criança dá nome às coisas com as palavras que tem.
Na época, eu achava que tinha recebido um prilégio. (A oportunidade de conhecer um lugar novo, de poder viajar, sair daquele quartinho e ter um quarto meu).
Hoje essa palavra, “privilégio”, me causa um desconforto diferente.
Porque era mesmo melhor ter um quarto do que não ter. Mas a pergunta que eu não sabia fazer era: por que eu precisava entender como privilégio aquilo que, para outras crianças daquela casa, seria simplismente parte atural de existir?
Assim a partir dessa mudança, minha mãe continuaria trabalhando e eu, por estar ali junto com ela, também fui entrando no “serviço”: ajudava nas tarefas e aos poucos, foi me tornando babá da primeira crianças. E assim continuou com a sengunda criança que veio.
Foi impossível não lembrar dessa parte da minha vida quando li a história de Irene (uma babá de apenas 13 anos de idade), em Solitaria. Me fazendo refletir sobre como cobravam de uma “menina” a responsabilidade de um adulto. No próprio romace, Eliana escreve que Mabel, Irene e outras meninas como elas aprenderam cedo demais a exisitir como “miniaturas de adulto” (Cruz,2022, p.26). Nessa parte vejo a “menina” que eu também fui, é claro que minha história não foi igual à de Irene. Eu estava com a minha mãe, não era uma babá contratada e não vivi o sofrimento que ela viveu. Também existiu carinho e afeto naquela casa, e não quero fingir que isso nao aconteceu.
Mas, mesmo reconhecendo todas essas diferenças, comecei a olhar de outo jeito para uma palavra que sempre usei ao contar essa história: ajuda.
Talvez seja isso que masi me incomoda agora. Não é apenas lembrar do que eu fazia, mas perceber que, durante muito tempo, nem sequer pensei em questionar. Naquela época, era simplesmente a minha rotina. Foi preciso crescer, estudar e encontrar histórias como a de Irene para começar a enxergar que nem todas as crianças têm a mesma liberdade de ser apenas crianças.
Mas… sabe o que é mais confuso pra mim ? Os patrões da minha mãe não eram pessoas cruéis como os retratados na ficção da Elina, que viam a empregada apanas como máquina de limpar e a filha dela como uma extençã de mão de obra ou estorvo invisível. Talvez seja justamente por isso que escrever sobre essa experíência seja tão difícil pra mim.
Essa não é uma narrativa simples, com vilões de uma lado e vítimas do outro, que eu poderia construir. Eu os chamava de “tio” e “tia”. Eles incentivavam meus estudos, ajudavam no pagamento de uma escola particular, me incluia nas viagens da família e, no momento mais aterrorizante e difícil da minha vida, quando minha mãe ficou gravemente doente, a ajuda deles foi o que ajudou a salvá-la.
Eu tenho afeto por essas lembranças. Tenho gratidão. Negar isso seria mentir.
Mas dizer apenas isso também seria mentir.
É aqui que a ferida dói de um jeito que a maioria das pessoas não vão compreender. Porque apesar do carinho eu sabia, mesmo sem saber colocar em palavras que, nós não éramos iguais. Éramos próximas da família, mas não exatamente família. Estávamos dentro da casa, mas havia um lugar específico para nós dentro dela. Recebíamos afeto, mas minha mãe continuava sendo funcionária e eu continuava sendo a filha da funcionária. A mesma relação capaz de oferecer proteção também podia produzir obediência, dependência e a sensação de uma dívida impossível de terminar. A historiadora Sandra Lauderdale Graham mostrou como “proteção” e “obediência” estiveram historicamente embaralhadas nas relações entre criadas e patrões no Brasil (Graham,1992). Ler isso foi desconfortável porque deu densidade histórica a uma coisa que, para, mim sempre pareceu apenas íntima.
A gratidão, quando vira dívida eterna, pesa.
Foi Chimamanda quem me ajudou a perceber outra camada dessa história. Ela diz que “é impossível falar sobre história única sem falar sobre poder” (Adichie,2019, p. 12). A palavra igbo que ela apresenta, nkali, pode ser entendida como a capacidade de ser maior do qeuo o outro: o poder de decidir quais histórias são contadas, de que maneira e quantas vezes. Foi então que comecei a pensar na história que, durante muito tempo, contei sobre mim mesma: a história da menina pobre que foi ajudada.
Sim, eu fui ajudada. Eu tive oportunidades que talvez não tivesse tido sem aquelas pessoas. Minha mãe foi amparada em um momento em que precisava. Tudo isso é verdade. Mas também é verdade que outras decisões fundamentais da minha infância eram tomadas em um mundo que eu não controlava. A cidade em que eu viveria mudou porque o trabalho da minha mãe mudou. A casa onde eu dormiria continuaria sendo o local de trabalho dela (aquele quartinho no funda da lavanderia). O meu cotidiano se organizava em torno das necessidades de uma família que não era a minha. Quando se conta apenas a parte da ajuda, a desigualdade que tornava aquela ajuda tão poderosa desaparece.
E aqui existe um risco que eu não quero correr: transformar meuas antigos patrões em uma nova história única. Seria contraditório ler Chimamanda para escapar de uma narrativa simplificadora e, em seguida, produzir outra. Pessoas podem ser generosas e participar de relações desiguais. Podem amar e, ao memos tempo, não perceber a hierarquia que organiza esse amor. Podem fazer bem a alguém sem que isso desfarça uma estrutura injusta. Acho que amadurecer essa lembrança tem sido justamente aprender a suportar duas verdades ao mesmo tempo. Essa leitura amplia, em vez de inverter, a crítica de Adichie à redução de pessoas a uma única narrativa.
Foi também aí que comecei a entender por que uma experiência pessoal pode ser uma porta para pensar historicamente, mas não pode ser trada como uma explicação pronta. Joan Scott chama atenção para o perigo de tomar a “experiência” como algo transparente, como se aquilo que vivemos já viesse com o próprio significado (Scott,1998). Minha lembrança precisa ser interrogada. Porque eu chamava aquilo de ajuda? Por que chamar os patrões de tio e tia fazia a relação parecer menos desigual? Por que eu sentia que questionar alguma coisa seria ingratidão? Por que o lugar destinado a nós dentro da casa parecia tão natural que eu precisei crescer para estranhá-lo?
E então eu volto à aquele quartinho.
Durante muito tempo ele foi apenas o lugar onde eu dormia. Depois de Solitária, passe a enxergá-lo quase com uma planta baixa da desigualdade. Eliana organiza o romance por espaços da casa e daz a arquitetura participar da narrativa: cozinha, área de serviço, quem serve, quem é visto e quem precisa aprender a desaparecer (Cruz,2022). Estudos sobre as dependências de empregadas em ridências brasileiras também mostram como esse espaçoes materializam hierarquias sociasi epersistências históricas (Lima; Campos; Santos, 2022).
Não estou dizendo que todo quartinho de empregada seja literalmente uma senzala, nem que a minha infânci posse ser igualada à experiência da escravidão. Essa comparação, quando feita sem cuidado, apaga diferenças históricas importantes. O que estou dizendo é outra coisa: uma sociedade pode abolir juridicamente uma isntituição e ainda carregar, por muito tempo, hábitos, expecitativas, espaçoes e relações produzidos por aquela história. O passado nem sempre fica pra trás. Às vezes ele muda de nome, de aparênci, de endereço. Estudos históricos e arquitetônicos sobre dependências de serviço sustentam justamente a necessidade de examir essas continuidades sem transformar situações históricas distintas em equivalentes automáticos.
Talvez por isso Mabel tenha me atingido tanto justamente onde nó somos diferentes. Ela sente raiva, confronta a mãe, a patroa e o lugar que tentaram resservar pra ela. Eu não tive essa raiva. Eu amava ( e ainda amo) as crianças que ajudei a cuidar e todos pertencentes a aquela família. Meu conflito foi masi silencioso. Eu engolia a sensação de desconforto porque ela parecia incompatível com a gratidão que eu devia sentir. A bondade que recebi, por muito tempo, funcionou também como uma mordaça: como reclamar de pessoas que ajudaram a pagar meus estudos? Como questionar que esteve ao nosso lado no momento de doença? Como dizer “isso me feriu” sem parecer que estou dizendo “nada do que vocês fizeram importou”?
Hoje eu percebo que não preciso escolher.
Posso agradecer e questionar. Posso reconhecer o afeto e xaminar a desigualdade. Posso amar aquelas crianças sem romantizar o fato de que eu também era uma criança quando comecei a assumir responsabilidades de cuidado. Posso reconhecer o bem que recebi sem transformar esse bem em autorização para silenciar tudo o que doeu. Uma memória adulta talvez comece quando a gente para de exigir que o passado seja inocente ou culpado por inteiro.
É isso que Solitária e Chimamanda mudaram em mim. Elas não me deram uma resposta pronta sobre a minha vida. Deram algo mais incômodo e, justamente por isso, mais valioso: perguntas.
Quem contou a minha história antes que eu aprendesse a contá-la? O que ficou de fora quandno eu me descrevi apenas como “a menina ajudada”? Quantas menians cresceram dentro do trabalho de suas mães e aprenderam a chamar responsabilidade de ajuda, silêncio de educação, dependência de gratidão? E quantas história desaparecem porque parecem pequenas demais para serem consideradas História?
Escrever esse texto é minha tentativa de recusar esse desaparecimento.
Não escrevo para apagar a ajuda que recebi, nem para fabricar mosntros onde minha memória não os reconhece. Escrevo porque o amor e o respeito que recebi não anulam a desigualdade da estrutura que me colocou no quarto dos fundos. E a desigualdade dessa estrutura também não apaga todo afeto que existiu ali. Talvez romper com uma história única seja exatamente isso: desenvovler às pessoas (inclusive a nós mesmas) o direito à contradição, à complexidade e a mais de uma verdade.
Durante muito tempo, outras pessoas tiveram mais poder do que eu para definir o lugar que eu ocupava. Hoje, quando escrevo, alguma coisa mude de posição. Eu não consigo alterar a criança que fui, nem retirar o quartinho da planta da casa onde ela viveu. Mas consigo olhar para aquela menina e dizer que o quarto nunca foi o tamanho da vida dela.
Talvez contar a própria história seja, enfim, abrir a porta da frente.
Créditos na imagem de capa: https://www.instagram.com/adrianjng/@adrianjng
Jessica Aparecida Silva Martins
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História da Historiografia: International
Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
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