I
Nem sempre falamos como fazemos agora. Houve um tempo –brevíssimo na escala do humano– no qual a humanidade falou uma só língua. Não foi um ato consciente nem um pacto fundacional, senão uma coincidência frágil: os primeiros membros da grande família humana compartilharam território no Grande Vale do Rift e, com ele, uma mesma forma de nomear o mundo.
Aquela língua única não foi uma fronteira nem um idioma no sentido em que entendemos hoje, mas uma respiração comum e um modo compacto de dizer e entender. Esse tempo, sem embargo, foi breve. Tão breve que quase nem deixou rastro, salvo como hipótese e nostalgia.
A ciência situa esse tempo remoto no momento em que o sapiens arcaico deu lugar ao sapiens sapiens há aproximadamente cento e trinta mil anos. Foi aí que a linguagem adquiriu a complexidade suficiente para se articular e começar a sustentar uma memória compartilhada e uma transmissão simbólica do mundo. Mas essa não foi uma língua mãe senão uma protolíngua: uma origem sem nome do qual derivariam todos os nomes. Uma maneira profundamente original e embrionária de vincular-se com o mundo e com os outros.
A história dessa língua é inseparável da história do caminhar e deslocar-se, pois, à medida em que os grupos humanos começaram a migrar –primeiro para fora da África, depois Oriente Médio, Ásia, Europa, Austrália, finalmente América–, a língua inicial que acompanhava aqueles corpos começou a fraturar-se. Os dados fósseis traçam o mapa: primeiro o Sudeste asiático e a China há setenta e cinco mil anos; depois a subida à Austrália e Nova Guiné com a invenção das primeiras embarcações; o tempo da Europa e Ásia central não chegaria até o quarenta mil antes de nossa era; e depois o cruzamento tardio até o continente americano através do Estreito de Bering.
Mas para além das diferenças de paisagem e cronologia, aquelas migrações distantes provocaram uma dispersão irreversível do dizer e nomear. A protolíngua africana, nascida num espaço comum, se dissolveu em milhares de dialetos parentes, mas já para sempre estranhos entre eles. Cada caminhada, cada assentamento, cada adaptação ao território introduziu uma inflexão, uma variação mínima que com o tempo se tornaria irreversível. O que em algum momento havia sido inteligível para todos deixou de sê-lo. E a língua se converteu em línguas.
Desde então, a história das línguas tem sido uma história de deriva. A língua nasceu em movimento e nunca deixou de se mover. Isso é o que sabemos. Isso é o que dizem a ciência e a história: a unidade linguística foi uma exceção e, ao contrário, a diversidade –ou a impossibilidade de uma língua única–é a contradição originária do humano.
II
Se a história científica das línguas fala de uma diáspora lenta e quase imperceptível, o mito de Babel responde com um gesto brusco. Lá onde os dados descrevem migrações, adaptações e derivas, o relato bíblico introduz um acontecimento fundacional através de uma cena concreta. E ainda que em ambos casos o ponto de partida pareça ser o mesmo –uma humanidade que fala uma só língua– a proposta de Babel é diversa.
Na origem –diz o texto– havia um único povo e uma única língua, umas mesmas palavras. Depois de migrar desde o Oriente, os homens se estabeleceram na terra de Sinar e decidiram edificar uma cidade e uma torre. Nem tanto para se proteger como para construir para si um nome e inscrever-se na história desde a altura. Na Torre de Babel a língua comum não era um mero instrumento de comunicação, mas uma força de coesão capaz de sustentar a vontade coletiva.
Então apareceu Javé. Não como criador, senão como limite. E frente à possibilidade de uma humanidade unificada por um desejo e uma língua comuns, confundiu a fala, multiplicou a língua única em várias e dispersou seus homens pela face da terra. Nunca destruiu a torre senão a unidade, pois era a unidade que havia se convertido em ameaça e o múltiplo em castigo.
Desde a sua formulação, esse episódio atravessou a história ocidental como uma velocíssima flecha. Primeiro transmitido oralmente, depois fixado por escrito: redigido, segundo se acredita, por sacerdotes hebreus no século VI antes de Cristo; traduzido ao grego três séculos depois; revisado, interpretado e deslocado até que o cânone escritural hebreu foi definitivamente estabelecido em torno ao século primeiro. As palavras então foram gravadas, mas não as ideias e nem seus efeitos porque Babel não foi nem nunca será um texto fechado, mas uma imagem que se reanima.
A partir desse momento a torre começou a se multiplicar. Não em tijolos nem pedra, senão em comentários, glosas, miniaturas, sermões, tratados, pintura, poemas, composições musicais… E assim Babel se converteu em uma explicação de porque a humanidade habita lugares tão distantes e fala línguas tão diversas. E durante séculos –até bem entrado o século XVII– não foi metáfora, mas explicação verdadeira. Explicação que afirmava que a diversidade linguística não era a condição originária, mas um castigo; não uma riqueza, mas uma ferida.
Mas o texto deixa perguntas abertas. Que parte dessa história se acreditou literalmente correta? Para que servia nomear a dispersão como castigo? O que diz exatamente o relato além do que aprendemos ao lê-lo? Talvez Babel não fale tanto de línguas como de poder; não tanto de comunicação como de medo. Talvez a confusão não seja a origem do desastre, senão a condição mesma de toda convivência.
III
Durante dezenas de milhares de anos, a história das línguas foi uma história de proliferação. Desde aquela protolíngua nascida no Grande Vale do Rift, o número de idiomas não deixou de se multiplicar acompanhando o crescimento e a dispersão dos grupos humanos.
A cada deslocamento, uma variação; a cada assentamento, uma diferença. Mas em algum momento difícil de datar e impossível de atribuir, esse movimento se deteve e outro de signo contrário começou. Porém, como se inverte um processo tão longo? Que força é capaz de reverter uma deriva em direção à diversidade de rastro milenário? Se a multiplicação linguística foi consequência da expansão humana, o que produziu a sua diminuição?
Não há uma resposta única. Em algumas ocasiões seriam os colonizadores, e a morte e doença que introduziram, os que acabaram com populações inteiras e universos linguísticos completos. Em outras foram novas guerras, sempre de conquista, as que submeteram outras comunidades a duros processos de aculturação nos quais a língua do vencedor se impunha como língua de sobrevivência. Tantas outras vezes a violenta redução da fala foi administrativa, pois a língua veicular se impunha para as questões do estado, do comércio, da burocracia. A tudo isso podemos somar os diversos processos de industrialização, o desenvolvimento de infraestruturas, a rádio, a televisão, a internet e, finalmente, essa categoria abstrata que engloba tudo e pode tudo: o mundo globalizado.
Mas se houve em algum momento um princípio dinamizador de todo esse processo, dito princípio é sinônimo de império. É o império –antigo ou moderno– o que interrompe a deriva natural das línguas e força sua convergência. Nem sequer se necessita destruí-las pois basta transformá-las em inúteis e desnecessárias. E onde antes havia trânsito e diferença, se impõe a norma; onde trabalhava a inteligência local, se implanta a compreensão universal; onde era possível o (re)nascimento da cultura e do indivíduo, aparece a letargia, a repetição e a escuridão; onde seja que foi possível a liberdade mental e sensual das pessoas, o centralismo e o fanatismo nacionalista e imperial acaba se estabelecendo.
Um caso é revelador. No território do atual Camarões falam-se entre duzentos e cinquenta e seiscentas línguas; ninguém consegue colocar-se de acordo sobre o número. Bastaria visitar a região ocidental do país e percorrer dez ou quinze quilômetros para atravessar não somente um cosmos geográfico, senão uma fronteira linguística. São as chamadas Línguas das Pastagens. A mais estendida delas, bamum, se disseminou e se impôs durante o reinado do império homônimo, o que demonstra como inclusive em contextos de extrema diversidade a lógica imperial introduz hierarquias.
Que o Espanhol e o Inglês sejam hoje as línguas mais disseminadas do planeta não é um acidente cultural nem uma consequência espontânea da sua riqueza léxica e capacidade expressiva. É o resultado de uma história de expansão militar, colonial e econômica. As línguas nacionais e imperiais projetam uma sombra extensa, sob a qual outras línguas se debilitam, diluem ou desaparecem. E na atualidade somos mais testemunhas do que nunca, ainda que seja sem quase dar-nos conta, de uma redução acelerada do caudal linguístico do mundo.
Se Babel narra a dispersão como castigo, o império ensaia o seu contrário: a unidade como imposição. Entre ambos extremos –a confusão mítica e a homogeneização histórica– a língua aparece mais uma vez como campo de batalha: não somente como meio para enunciar o mundo, senão como um instrumento para decidi-lo e organizá-lo.
IV
A densidade da população humana começou a incrementar-se de forma constante com a invenção da agricultura há uns doze mil anos. A domesticação da terra, das plantas e dos animais trouxe consigo a sedentarização e, com ela, uma transformação radical da vida comum. E ali onde durante dezenas de milhares de anos haviam predominado grupos pequenos, móveis e linguisticamente diversos, começaram a surgir assentamentos estáveis, cidades, redes de intercâmbio e estruturas de poder capazes de perdurar no tempo e deixar sua marca.
Estas novas sociedades agrícolas não se desenvolveram no vazio, mas se expandiram sobre territórios onde a diversidade linguística havia sido a norma desde a manifestação do sapiens sapiens. Os primeiros impérios –mesopotâmico, egípcio, elamita– incorporaram sob seu domínio amplas regiões habitadas por comunidades linguisticamente diversas. Mais tarde, o persa, o grego, o latim e o árabe no Ocidente, o sânscrito e o chinês no Oriente, se consolidaram como línguas de referência ao longo de vastos territórios da Eurásia. Não eram línguas universais, mas sim línguas reconhecíveis, administráveis e transmissíveis muito além do perímetro do local.
Se por cerca de cem mil anos a fragmentação linguística acompanhou o devir humano, a agricultura e a expansão imperial introduziram uma força contrária: a reunião parcial das línguas para tornar possíveis os grandes projetos totalizadores.
Nos tempos do Império Neobabilônico, esse processo já era um fato, de modo que, vista a partir desta perspectiva, a história de Babel se inverte. Não foi em Babilônia que nasceu a confusão das línguas, mas onde a sua concentração se tornou imaginável. Não é que os povos do mundo falassem uma única língua e depois fossem dispersados, mas sim que estavam dispersos desde a origem e só puderam se reunir –falar-se, organizar-se, edificar– graças à força centrípeta do império. A torre não seria, portanto, o gesto soberbo de uma humanidade unificada, mas o sintoma visível de uma unificação forçada.
Se nós lemos o mito da Torre de Babel sob a luz do zigurate de Etemenanki, e se o situamos no contexto do cativeiro hebreu na Babilônia, a narração admite, ainda, outra torsão. O episódio veterotestamentário da Torre de Babel poderia ser lido como a expressão de um desejo retrospectivo: que aquele império tecnologicamente avançado e relativamente homogêneo do ponto de vista linguístico fosse destruído por Javé, permitindo que as pessoas submetidas regressassem às suas vidas, aos seus grupos e às suas línguas. Babel não seria uma maldição, senão uma liberação. Esta leitura, no entanto, desestabiliza a ideia de castigo que acompanhou tradicionalmente o relato. Mas os mitos não são sistemas fechados. Se formam lentamente, de boa em boca e ao longo dos séculos, incorporando pontos de vista divergentes, memórias em conflito e inclusive contradições internas. Babel não pode ser uma tese, mas um campo de forças. E talvez por isso segue sendo legível, pois não fixa a origem das línguas, senão dramatiza, uma e outra vez, a tensão entre unidade e dispersão, entre poder e diferença.
Não é estranho que uma história assim não tenha chegado até nós em uma só voz.
V
Mas, às vezes, a contradição semântica não se encontra unicamente fora do relato, senão também em seu interior. Nem mesmo é necessário opor mito e ciência para encontrar fissuras nas coisas e nos acontecimentos. Em nosso caso, bastaria ler com atenção os capítulos 10 e 11 do Gênesis para percebê-las.
O chamado “quadro das nações” sobre os descendentes de Noé descreve uma nova humanidade já dividida “segundo suas línguas, suas famílias e suas nações”. A pluralidade linguística aparece como uma condição pós-dilúvio e não como consequência de Babel. Antes da torre, já haviam línguas. Esse mesmo arco narrativo desenha a figura do mítico Ninrode, descendente de Cus, caçador poderoso e primeiro dominador da terra. Seu reino começou em Babel, terra de Sinar; uma geografia política concreta, marcada pela conquista, pela fundação de cidades e pelo exercício de poder, e não uma humanidade anônima e unificada. E somente quando tudo isso já nos foi enunciado aparece o capítulo 11: a torre.
Lidas uma junto à outra, essas passagens não encaixam sem fricção. Como pode toda a terra ter tido uma só língua se na sequência anterior os povos já se haviam repartido de acordo com as suas? Como pode Babel explicar a dispersão se ela já ocorreu? De onde procede exatamente a ideia de uma língua única e sua posterior confusão? A resposta não é clara, e talvez não deva sê-lo. A contradição textual não se resolve, o texto não se corrige e Babel se mantém inserida numa história fraturada. Porém, e se o problema fosse a interpretação, e não a costura do texto?
A exegese moderna formulou a conhecida Hipótese Documental numa tentativa de destrinchar os diferentes estratos textuais que conformam o Pentateuco. Segundo essa leitura, os livros não seriam o produto de uma só voz nem de uma só época, senão o resultado da sobreposição de ao menos quatro tradições textuais: a Javista, a Eloísta, a Deuteronomista e a Sacerdotal. Escritas em contextos históricos e políticos distintos –desde o reino de Judá do século X antes de Cristo até o exílio na Babilônia– essas fontes não compartilhavam os mesmos interesses teológicos nem propósitos políticos. Outras linhas de estudo contemporâneas irão propor, ademais, que os versículos dos capítulos 10 e 11 procedem de redações distintas que se entrelaçaram em algum momento pretérito sem respeitar a sequência linear. E fruto dessa superposição desordenada, os versículos se agruparam em duas linhas narrativas diferentes. Por um lado, a genealogia de Noé insiste na dispersão dos povos e na pluralidade das línguas como condição originária. Por outro lado, a sequência de Cus, Ninrode e a terra de Babel, a fundação de cidades e a concentração de poder. Nesse segundo fio, a questão linguística desaparece até voltar de forma abrupta no episódio da torre. O texto final, tal como chegou a nós, seria, então, uma síntese tensa tensionada e encaixada por mãos posteriores unificada através da montagem.
Lidas assim, essas camadas se contradizem, mas a contradição não tem porque ser um erro, senão o efeito de uma memória dividida. E é justamente aí onde a torre se torna legível de outra maneira. Babel não seria o relato da origem das línguas, senão a memória conflitiva de um processo histórico diferente: a concentração de poder, a fundação de impérios, a imposição de uma língua comum ali onde antes havia pluralidade. A língua única não como ponto de partida, senão como projeto. A confusão não como castigo originário, senão como desejo retrospectivo de dissolução.
Que o texto conserve versões incompatíveis não é uma falha de transmissão, senão a marca de vozes que não conseguiram ou não quiseram unificar-se. Como as línguas que descreve, o próprio relato de Babel fala a partir da diferença. E talvez por isso siga aberto: porque não fixa uma origem, mas expõe uma tensão que nos atravessa desde então.
VI
A história científica das línguas e a história mítica de Babel não se contradizem: se roçam. Uma descreve uma proliferação lenta, corporal, territorial; a outra dramatiza o medo a essa proliferação. Entre ambas não há síntese possível, somente perspectiva.
Talvez por isso o próprio relato bíblico nunca conseguiu unificar-se. Babel se enuncia a partir de vozes que não coincidem, a partir de tempos que não se encaixam, a partir de textos que se contradizem. Como as línguas que descreve, o mito resiste ao estar quieto e ser sujeitado. E nessa resistência –nessa impossibilidade de fechar a origem– se compõe a sua potência. Talvez, também, por isso, Babel não seja um episódio do passado nem uma explicação mítica da origem das línguas, senão um dispositivo ou uma figura que reaparece cada vez que o único pretende ocupar o lugar de todo o resto.
Pensar Babel hoje não é lamentar a confusão nem celebrá-la ingenuamente, mas reconhecê-la como condição. Não para viver numa torre, senão para mover-se entre as suas ruínas e habitar as suas fissuras. Porque falar –como pensar ou criar– nunca se exercita a partir da unidade, senão a partir da diversidade e da multiplicidade. Falar, pensar, criar, insistem naquilo não-coincidente, acolhem o gesto, o erro e o acento; e perdem algo antigo para que algo novo possa aparecer.
Por isso, que hoje se invoque Babel para descrever as grandes cidades contemporâneas revela uma inversão perigosa: pensar a pluralidade linguística como aberração urbana e o monolinguismo como norma é uma falsificação histórica com implicações políticas e racistas horripilantes. Caberia lembrar que, durante a maior parte da história humana, a diversidade não foi exceção, mas regra.
Babel: império e ficção da unidade
Related posts
História da Historiografia
História da Historiografia: International
Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
Qualis Periódiocos:
A1 História / A2 Filosofia
Acesse a edição atual da revista

