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Além do olhar: as artistas do Brasil

Aoruaura: a performatividade da existência

Nascida em Recife, Aura do Nascimento, por meio de sua plataforma artística Aoruaura, dedica-se à performance como sua principal linguagem artística. Em 2019, concluiu sua formação como Técnica em Artes Visuais pelo Instituto Federal de Pernambuco. Imersa no contexto do Antropoceno em decadência, a artista utiliza o caos como inspiração para construir uma nova corpo-imagem capaz de gerar afeto, manipulando a imagem e o corpo como matéria maleável. Sua prática parte do reflexo do corpo e é impulsionada pela busca de identificação com sua própria imagem. Em sua galeria virtual, ela compartilha experimentos que testam sua própria natureza. A multiartista, com foco em multimídia e body art, reconhece-se como um corpo sensível em constante fusão de vida e performance, de trânsito e pesquisa, de expurgo, representação e absorção ininterrupta do mundo. Sua obra é um convite à percepção de que é possível alcançar o autorreconhecimento e a apropriação de um corpo íntimo da incerteza.

A primeira obra de Aoruaura com a qual tive contato foi Indução ao Processo de Autodesconhecimento, uma vídeo-performance de 2021 que propõe a imersão na desconstrução daquilo que temos pela imagem de nós mesmos, individual e coletivamente construída. À época, vivíamos a angústia de uma crise mundial sem precedentes, a pandemia. Não só isso mas, no Brasil, atravessávamos um momento desolador que foi ocasionado por negacionismos. Nesse contexto, a obra me ocasionou uma série de reflexões importantes. As distorções que surgem e afetam a figura humana coberta em um material semelhante ao barro nos evocam sentidos de desestabilização do ser, primeiro passo para o que a artista chama de autodesconhecimento, movimento crítico e que nos leva a uma percepção da nossa própria existência enquanto espécie humana. O uso da terra em diversas obras, quando visto pela perspectiva da matéria geradora de vida, suscita uma aproximação com a perspectiva religiosa cristã acerca da criação humana. Entretanto, em Aoruaura, essa percepção é tensionada a partir do momento em que a artista trabalha não apenas as relações entre terra e a criação, mas também entre a matéria e a angústia ou a nostalgia do ventre materno, entre a existência e a iminência da morte, dentre outros temas que, na nossa experiência social e cultural, estão repletos de complexidades psíquicas e históricas mas que, para Aoruaura, deveriam ser encaradas como parte do nosso processo e da nossa existência enquanto espécie integrada à natureza, e não como uma existência separada do nosso ambiente. Em Temporária Mente Sem Título (2019), o uso dos fios elétricos como cerceadores e limitadores do ser evoca a ilusão da vida digital. Já em Tentativas de Retorno, vídeo-performance de 2020, vemos representações das angústias e das incertezas da existência, que encontram refúgio na origem e na essência do ser aqui figurada como sendo a própria terra. A natureza morta também está presente de forma literal na obra da artista recifense: utilizando animais (em sua maioria, insetos) mortos, ela cria contrastes que nos são relevantes para pensar a relação entre humanos e outras espécies. Em minha interpretação, em particular, há uma tensão entre os usos desses animais enquanto partes de catálogos científicos e entre outros usos que distanciam essas existências das nossas, criando uma potência crítica acerca da nossa relação com nossa própria capacidade racional e com aquilo que entendemos por subjetividade. Há, também, uma intenção de provocação acerca dos temas da vida e da morte e sobre como nós lidamos com essa realidade ou como buscamos negá-la no contexto do Antropoceno. Ao aproximar o humano do inseto, por exemplo, a artista traz uma reflexão sobre o espaço que nos é comum, a Terra, e a noção de transitoriedade da vida em contraponto aos impactos da falta da consciência ambiental.

A obra de Aura, que também utiliza outras nominações como Auro, Maura, Oura, Aoruaura, é indissociável de sua própria mutabilidade e existência, apresentando-se como um convite à reflexão sobre o autorreconhecimento e a apropriação de um corpo que habita a incerteza e o deslimite. A artista concebe sua vida como um processo artístico contínuo. O trabalho de Aura, segundo Moraes (2019), configura-se de maneira caleidoscópica e ininterrupta, desdobrando-se em todas as suas ações. Abordar a produção da recifense demanda uma transgressão de oposições binárias e rígidas, com conceitos como masculino/feminino, feio/belo, desejo/repulsa, e natureza/tecnologia colidindo não como polos incomunicáveis, mas como um espectro de possibilidades de manifestação do eu. Essa interconexão resulta, segundo o crítico, em performatividades múltiplas e na constante reinvenção de um corpo. Oura desafia as noções hiperdefinidas de espaço e estética. Para Moraes, a fluidez entre feiura e beleza, por exemplo, pode ser contextualizada em relação a conceitos geográficos e temporais, questionando a rigidez do contemporâneo e aprofundando-se na incompreensão da intelectualidade e sensibilidade estética dominante. Nesse contexto de indefinição, a artista abre fendas para a libertação da imaginação.

Para Guilhermina Velicastelo (2017) Aura se situa num cenário de pós-modernidade, marcado pela incerteza e pela fragmentação dos “cristais” sociais, trabalhando o embate entre a singularidade individual e as estruturas históricas preexistentes. Diante de uma avalanche de imagens que raramente causam engajamento profundo, a capacidade humana de estranhar o novo emerge como um potencial transformador na obra da artista. Nesse contexto, para a autora da crítica, os artistas são apresentados como “feiticeiros” capazes de prever e criar o futuro, especialmente no que tange à desconstrução de binarismos, como os de gênero. A figura de Aoruaura é destacada como um desses “fragmentos” dissidentes: uma artista-conjunto que desafia categorizações fixas e se manifesta em múltiplos “eus”, refletindo medos e desejos íntimos. Sua arte de autorreferência e de apropriação resiste à massificação cultural provocando, segundo a perspectiva de Velicastelo, espectros de estranhamento, confrontando o público com suas próprias dualidades ocultas, em uma existência fluida e em constante devir no espaço global da internet. A obra de Aoruaura propõe, no limite, uma profunda imersão na desconstrução do eu e na reconexão com a natureza. Ao explorar a maleabilidade da matéria e do corpo, a artista desafia as dualidades e as rigidezes impostas pela sociedade e pela tecnologia, convidando à aceitação da incerteza e da mutabilidade como elementos inerentes à existência. Suas criações posicionam-se como um ato contínuo de resistência à massificação, abrindo caminhos para uma percepção mais fluida e integrada do ser no mundo contemporâneo.

 

 

 


Referências:

MORAES, Guilherme. Aura – o corpo enquanto incerteza. In: Propágulo, 2019. Disponível em: https://propagulo.medium.com/aura-body-as-uncertainty-f29b87e92923

Prêmio Pipa – Aoruaura. Disponível em: https://www.premiopipa.com/aoruaura/ Acesso em 24 de setembro de 2025.

VELICASTELO, Guilhermina. A aura do fragmento. In: Prêmio Pipa – Aoruaura. Disponível em: https://www.premiopipa.com/aoruaura/ Acesso em 24 de setembro de 2025.

 

 

 


Creditos da imagem de Capa: Mímese da matéria futura, de Aoruaura, 2019. In: Prêmio Pipa – Aoruaura. Disponível em: https://www.premiopipa.com/aoruaura/ Acesso em 24 de setembro de 2025.

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