Para quem passa pela Praça da Estação, ou vai para a Rua Sapucaí aos finais de semana, a vista encontrada é considerada uma das mais características de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Por entre prédios, praças, pontos turísticos e um fluxo intenso de transeuntes, não é difícil encontrar um frequentador da região que não conheça o painel localizado na empena de um prédio na Rua da Bahia e que faz parte, hoje, de um projeto que se liga diretamente à reafirmação das identidades culturais que constituem a cidade. Falo do painel Curandeiras, de autoria da dupla Terezadequinta e Robézio Marques, conhecidos nacionalmente pelo projeto Acidum Project. O painel é uma das obras realizadas por ocasião da edição de 2017 do Circuito Urbano de Arte (CURA), que teve início na cidade de Belo Horizonte. O projeto, que tem como objetivo democratizar a arte transformando espaços urbanos em galerias a céu aberto, potencializa a interação do público com as obras. Ancestralidade e diversidade cultural são celebradas nos murais, que contam com a maior coleção de arte pública indígena do mundo e as mais altas obras pintadas por mulheres na América Latina.
Um dos exemplos mais conhecidos dessas obras, de autoria feminina, é o painel Híbrida Ancestral – Guardiã Brasileira, da artista Criola, que foi realizado na edição de 2018 do Festival e ocupa a empena do edifício Chiquito Lopes tendo passado, inclusive, por uma ameaça judicial de apagamento em razão de reclamações de teor discriminatório que alegavam que os elementos da pintura, que remetem à ancestralidade africana, eram “impróprios”. Mais que um evento cultural e turístico, o CURA é um movimento que redesenha a paisagem e aprimora a vida comunitária, promovendo a arte como peça-chave na construção de uma sociedade mais inclusiva e consciente. O festival, repleto de festas, feiras, shows e exposições de arte, convida todos a acompanhar de perto o processo das pinturas. Embora a existência dos murais não seja sempre unificadora no que diz respeito às opiniões sobre as contribuições da arte urbana para a constituição de identidades visuais para a capital mineira e esteja, ainda hoje, sob debates acerca da legitimidade dessas manifestações, é preciso apontar não apenas para a sensação de pertencimento e para o incentivo gerado pelo Festival ao contato com outros espaços artísticos e culturais.
É evidente, também, que as pinturas revelam conflitos marcados por preconceitos e discriminações em relação às ancestralidades e às narrativas não hegemônicas frequentemente abordadas nas obras. A partir dessa perspectiva, compreendemos a presença da arte urbana enquanto uma forma de manifestação da memória de comunidades apagadas pela história. Alguns exemplos dessas narrativas, que buscam representar pessoas e elementos culturais que integram a realidade brasileira mas que são, na grande maioria das vezes, marginalizados pelos grandes espaços museais e pelas grandes galerias são os painéis Deus é mãe, de Robinho Santana (que chegou a ser alvo de investigação policial por conta da inclusão de elementos da pichação em sua composição); a intervenção coletiva realizada pelos artistas integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em um prédio próximo ao Mercado Central, e a obra Coragem, Pirscila Amoni, localizada na Rua Rio de Janeiro, que traz uma figura feminina vestindo e portando elementos originados das culturas afro.
Há também as obras que buscam evocar sentimentos, memórias, arquétipos e outras representações, algumas diretamente ligadas às experiências locais, como é o caso da obra O galo e a raposa, de Thiago Mazza, que traz dois mascotes de dois dos principais times de futebol celebrados pela população belo horizontina. A subjetividade humana e as lembranças ancestrais se entrelaçam em obras como O Abraço, de Davi de Melo Santo e Selva Mãe do Rio Menino, de Daiara Tukano. A entrevista feita pela curadora Laura Barbi com Juliana Flores, uma das fundadoras do Festival CURA, aborda os desafios da arte urbana no Brasil. O festival, que começou em 2017, surgiu do desejo de criar um ponto de vista de arte de rua em Belo Horizonte e tornar a cidade reconhecida mundialmente por sua arte urbana. Em 2020, o evento inovou convidando curadores, selecionando artistas por meio de edital, incluindo a presença indígena e adaptando-se à pandemia. Desde sua primeira edição, o CURA adota uma abordagem de escuta ativa, incorporando críticas para evoluir continuamente. A relação com a cidade de Belo Horizonte é descrita por Flores como uma “declaração de amor”, com o objetivo de que a cidade seja notada além de suas montanhas, como um local criativo e de beleza única.
Belo Horizonte se destaca como uma cidade com vasto potencial cultural e de arte urbana, impulsionado pelo seu avanço em urbanização e tecnologia. Nesse cenário, Carolina Mendes (2024) investiga a relação entre Arte Urbana e Turismo na cena cultural da capital mineira, tendo como foco o CURA, projeto de arte urbana de grande visibilidade midiática e com obras representativas. A autora investiga as relações dos órgãos públicos com o turismo local, a percepção das artistas idealizadoras do projeto sobre a conexão entre suas obras e o turismo, e a visão dos frequentadores da Rua Sapucaí, reconhecida como o primeiro mirante de arte urbana do mundo sobre os impactos na região. Mendes aponta que, embora os moradores se apropriem dos espaços criados pelas atividades do projeto, a arte urbana ainda não é plenamente explorada como um atrativo turístico na cidade, o que nos leva a uma discussão acerca dos limites da legitimação da arte urbana e das disputas acerca da estética e das conceitualidades dessa arte. Nesse sentido, o estudo de Luísa Lourenço (2024) é relevante para compreender as dinâmicas do processo de legitimação da arte urbana, termo que abrange diversas intervenções como grafites, stencils, murais, lambes e stickers. As discussões de Lourenço e de Mendes dialogam ao apresentar a arte urbana enquanto narradora e produtora das memórias coletivas. Passado e presente se encontram em uma constante reinvenção das relações entre tempo e espaço. Se pensarmos a frequência com a qual nos deparamos com essas manifestações, é provável que ela seja consideravelmente maior do que a frequência com a qual vamos a espaços voltados à exibição de arte. Esse movimento cria relações que transcendem a fruição, diferenciando-se da experiência em espaços museais por se tratar de uma convivência “diária” com a obra de arte que, mais do que um elemento a ser apreciado, torna-se uma parte integrante da paisagem urbana.
A visibilidade possibilitada por essas manifestações acerca de questões sociais como as tensões de classe e a necessidade de reconhecimento e de representatividade dos grupos periféricos fazem com que essas obras se tornem, não de outra forma, objetos de disputas narrativas e estéticas. A partir do diálogo ou do contraste com outros elementos que moldam a paisagem urbana, dentre os quais Lourenço (2024) destaca a arquitetura, o planejamento, as disputas sociais, e o mercado, as manifestações e as intervenções artísticas se figuram enquanto ferramentas de representação social. Por fim, nos interessa, para essa reflexão, apontar para o papel da arte urbana sob a perspectiva feminista. A pesquisa de Maria Lima e Daniel Freitas (2024) discute a urgência de desvelar ideologias espaciais que perpetuam desigualdades de gênero, raça e poder no espaço urbano. Propondo o exercício de imaginar uma “cidade não sexista” ou “das mulheres” como um caminho essencial para a transformação social, os autores integram a perspectiva do feminismo decolonial à teoria urbana crítica, utilizando a noção de colonialidade do poder e a categoria Améfrica para analisar as interseções entre raça, gênero e espaço. O lugar amefricano, nesse sentido, é entendido como fundamental para a subversão dos discursos hegemônicos e dar voz às mulheres racializadas e historicamente silenciadas. Para os autores, a arte urbana desempenha um papel importante para o reconhecimento da “classe cuidadora”, em que se incluem as mulheres que trabalham no próprio lar (muitas vezes sem redes de apoio que as permitam alçar oportunidades de melhoria financeira) ou em lares de terceiros. São destacadas, através da arte, as formas de organização coletiva e de resistência dessas trabalhadoras. A partir do exercício de repensar o espaço urbano, Lima e Freitas demonstram como a arte urbana, assim como outras manifestações e iniciativas, como o MUQUIFU (Museu dos Quilombos e das Favelas Urbanos), contribuem para a emergência das narrativas decoloniais que têm como objetivo propor cidades mais justas, equitativas e que incluam, com dignidade, uma maior diversidade de experiências sociais, como a das lideranças femininas e a da ética do cuidado na luta coletiva contra a desigualdade.
Frente a essa rede de manifestações artísticas e discussões acadêmicas, Belo Horizonte se consolida não apenas como um celeiro de arte urbana vibrante e expressiva, capaz de evocar identidades locais e memórias ancestrais, mas também como um palco crucial para a legitimação e disputa estética dessa forma de arte. As pesquisas aqui apresentadas como referências apontam para o afloramento de um horizonte crítico e inclusivo acerca do olhar sobre as manifestações e as intervenções artísticas urbanas, tema de grande relevância à história da arte e à história pública, por exemplo. Ao revelar-se enquanto potente ferramenta de transformação social e de representação de diversas comunidades, a arte urbana em muito contribui para dar voz às identidades, aos anseios e os desejos das pessoas por espaços democráticos, justos e que valorizem as ancestralidades. A paisagem estética, elemento-chave na constituição da identidade e da memória local, aqui aparece em diálogo com a paisagem natural, fortalecendo-se mutuamente enquanto potências representativas da história e da memória.
REFERÊNCIAS
BARBI, Laura. O Festival CURA e os desafios da arte urbana no Brasil. Disponível em: https://iree.org.br/o-festival-cura-e-os-desafios-da-arte-urbana-no-brasil/ 21 de maio de 2021. Acesso em 27 de agosto de 2025.
LIMA, Carolina Maria Soares; DE FREITAS, Daniel Medeiros. Utopias artísticas e feministas: uma cidade para as mulheres a partir da arte urbana em Belo Horizonte. Revista Thésis, v. 9, n. 17, 2024.
LOURENÇO, Luísa Fernanda Silva. O processo de legitimação da arte urbana em meio as disputas pela estética da cidade de Belo Horizonte. Dissertação de Mestrado. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 2024.
MENDES, Carolina da Rocha. Arte urbana e turistificação: um olhar sobre o caso do Projeto Cura.Art em Belo Horizonte. Monografia (Graduação em Turismo). Ouro Preto: Escola de Direito, Turismo e Museologia, Universidade Federal de Ouro Preto, 2024.
Créditos na imagem de capa: Reprodução. In: CEDEFES – Em Belo Horizonte, artistas do MST pintam empena na 7ª edição do Circuito Urbano de Arte (Cura). Disponível em: https://www.cedefes.org.br/em-belo-horizonte-artistas-do-mst-pintam-empena-na-7a-edicao-do-circuito-urbano-de-arte-cura/ Acesso em 27 de agosto de 2025.
