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Benjamin

Cecília Borra Bocas

Uma caverna com duas saídas. Escrevo em vermelho. Uma saída com duas cavernas. Escrevo em azul. Uma caverna sem saída. Escrevo no branco: havia um bosque onde ele matou o Leão. Flechada. Saída fechada. Clava. Saída sufocada. Havia um azul sempre vermelho e um vermelho sempre azul que, unidos outrora por Aurora, agora se separam. Ele arrastou o corpo do Leão para dentro da cidade. Para esse conto em arrastão o corpo do Leão. Para esse canto, ainda que trágico, de Tália, arrastou o menino até as margens do mar Adriático. Ainda que rompa o contrato. Ainda que seja um atalho. Ainda que o gênero seja outro. Mesmo que trágica, pragueje. Ainda que heroína, ruína, rumine e pragueje. Pragueje praguejada. Oceano e Gigante no Mar Oceano eu os escrevo no branco:

– Matar o Leão foi um dos trabalhos dele. E para perpétua perpetuação da sua, façanha dele, o Leão foi transformado em constelação.

Leão morto. Outro conto. Conto morto. Leão outro. Conto conto. Conto como. Conto Leão morto.

– Como pude? Como posso? Como morto?

Leão morto, Leão posto. Constelação. Conto que o menino abriu o livro e, Atlas, viu no mapa Valdevino desatar os sete selos, os sete belos, os frumelos e os caramelos:

– Conto Leão. Constelação.

– Conto que não carrego o mundo e no encanto carrego o Leão morto, nos ombros, para esse conto; no entanto.

No encanto e no entanto, Cecília desatou os Dez Contos Adjuntos e pagou dez pagas para suas dez pragas, sempre praguejando pontuada.

– Você está invisível. Evasiva, disse o narrador invisível.

No Sena o cerne. Eram esquinas? Evasivas. No Sena poesis. Cartas fazendo poesia. No Sena a tese sobre uma poesia. Um pau de tinta. Um pau Brasil. Um pau de poesia. Evasivas. Quem quiser brincar de narrador invisível ponha o dedo aqui, ponha o dedo aqui e aponte a verruga da Bruxa. Faça de Cecília aquela que borra as bocas quando encosta a boca nas bocas alheias, quando beija e dá com a língua nos dentes. Quando seus lábios passeiam por esses lados, por essas bandas e se bandeiam de lado. Faça dela a mãe das feras, dos monstros e dos gigantes. Faça dela a torta da outra história, faça dela Maria José Direita. A tinta e a pontuação que contam as histórias. A Musa torta que entortou a vargem torta. Faça Lâmia e fantasma, disseram as margens dos parágrafos, os elementos paragrafáveis, os elefantes que em trombas anunciaram a presença do trompete. Faça dela marginal. Marginalizada. Marginável. Imaginada. Inimaginável.

Essa é a história de um topete. De um tropeço numa tese. Essa é a história que se repete e que se repele. De uma pessoa, cuja pessoa se repele. De uma pessoa preterida. Preferida por preterições. De um mundo vencido. De um vencedor e de um vencido. De um mapa mundi e de um mapa cartografado no perdido de um mundo. Cecília venceu e foi vencida. Sumiu e nunca mais foi vista.

A Lua avisou:

– Você está perdida, perdida, perdida … você sempre será repelida e repetirá histórias enquanto tiver vida. Sempre será preterida, querida. Você nunca mais vai ser vista. Você vai ser tida como cadela. Você vai ser ela.

E continuou:

– Quem contar e ouvir a história dela vai contar e ouvir com sua boca, com o ouvido dela. Cadela. Cadê ela? Você vai ser ela que abre as pernas e abre a caixa de Pandora. Abre a boca a partir de agora e revela o que se revela. Rosto, cara, poço, caverna. Você vai ser a Cartógrafa que se joga. A cartografia sem caligrafia a partir de agora. Você vai ser ela que abre as pernas e grita.

A vagem era vargem. Das fibras, vagina, menina. Imagina uma mulher que de existir desistiu; e de não existir insistia em existir. Imagina? Imago mundi. Mapa mundi.

Existia uma assim. Tem gente que é assim. Ela não existia. De existir desistiu quando jogou sua tese sobre Oswald de Andrade no Rio Sena. Sob o Sena, Osvaldo mergulhado, imerso, imenso, afogado. O cerne do problema. Sabe essas pessoas que não existem? Sabe, assim … Cecília era uma delas. Cecília era assim. Sabe essas pessoas que desistem? Ela era uma delas. Não cabia nas esferas, embora fosse a mãe delas. Era a voz dos que não tinham escolha e não existiam. Era a folha que se desfolha, a folha que se diz folha:

– Olha para mim, olha para história … se você me achar na história, te conto uma história de quem me achou na história. Te conto essa história e vou embora.

O Leão está morto e na hora de outra história. Conto que não pressuponho conto. Conto pressuposto. Cartógrafa dada. Cartografia de poesia. Ela era uma namorada. A caligrafia que encanta o Calígrafo. A pauta da folha pautada. A transcrição que transpõe o Copista e a cópia da cópula entre o tempo e os objetos de marcar o tempo. A indecência de ser tempo. É indecente contar nos dedos quantas vezes Cecília fora atropelada:

– Pera aí, segura a história, porque adoro essas histórias de quem vai para muito longe. Espera que me jogo com ela.

Ela era a namorada de um copista. O copista não sabia copiar. Copiar não podia. Ser fiel não seria, nem escudeiro podia; pensar não sabia. Ler não lia. Escrever não sabia. Copiava, quando copulava com Cecília. E a cópia saia manchada, maculada, borrada, amarelada. A cópula copulada. Copista copiado:

– Me conta uma história de quando você era pequena? De quando você ia ao cinema?

– Quando eu era pequena o Leão da Metro Goldwyn Mayer me dava medo. O Leão do mundo animal. O Leão que comia a zebra. Eu era pequena e me sentia a zebra com meu pijama de estrado listrado de zebra, vendo o Leão comer a zebra. Com meu pijama na cama quando Luciana narrava na cama os perigos do amor cama. Ela desejava um homem do tamanho do seu porte. Do tamanho do seu pote. Daquele pote todo mel e abelhas, todo cesto de amor e amoras, mas essa é outra história. Não vale contar de novo, não vale ser morro e andar por entre morros. Eu era pequena e tinha pavor do apetite do Leão. Não comia a sobremesa com medo do pesadelo do Leão. Ficção. Fixação. Obsessão.

Cecília não tinha dinheiro. Quem a defendesse também não tinha. Não tinha tinta, não tinha caneta, não tinha tinteiro. Não tinha nada que a desenhasse. Ela não desenhava coisa alguma. Nem não, nem nada. Nada. Nenhum mapa da mina que a encontrasse. Mapa de sardas que a revelasse. Mapa de sardas e mistérios que configurasse seu charme de não ter nada e ser o corpo do copista. Ser o mistério que se avista:

– Me põe no meio da história dela? Me coloca no colo dela, mesmo que seja cadela?

O colo da história no colo da história, suplicou a história. Cecília, contando a história e entrando na história, entrando para a história:

– Pera aí que vou contar tudo … é só uma história, não tenho nada com isso. Já te conto tudo. Fecha os olhos e abre a boca.

Cecília saiu da pontuação. Sua morada. Dois pontos duplos. Dos nomes duplos. Do ponto em que parou, em que se formou a constelação de leão. Não se descreve, porque não se descreve.

– Nunca soube me descrever. Só sei falar como falo. Com esse falo na entrada. Escritura. Transcrição. Escrita. Transposição.

Ela pulou trampolim e escorrega na gangorra do menino:

– Quando menina, eu gostava de gangorra, de balançar no colo da gangorra e depois queria mais … queria mais do está gostoso. Conta de novo?

Transcreve o menino quando lê o que Maria escreveu no giz, o que Cecília diz e espalha com o giz na boca. Quando vê o que Cecília sempre quis dizer. O que Cecília nunca quis ser sempre ser.

– Me conta uma história de quando você era pequena?

– Quando era pequena desenhava mapas e os pintava. Desenhava leões e os rasgava. Pintava mapas que não desenhava. Minha mãe me dava mapas. Mapas desenhados que não podia desenhar e eu detestava quando os pintava. Ela me dava mapas. Mapas para copiar. Mapas que copiava.

Cecília desertou da dissertação e entrou no deserto que não disserta. Diz certa:

– É uma reta, é uma reta teu olho em linha reta. É uma seta no meu peito teu olho azul em linha reta. É uma reta meu olho vermelho no teu peito em seta. Incerta. Estou certa de ser incerta. Não disserto porque cartógrafo, porque perco botões e sou a semântica do enunciado. Me sinto enunciada, cansada, esgotada pela enunciação e não explico nada. Piscam seus olhos quando explicam os pontos do conto, ponto por ponto desfazendo os nós, desfazendo a gente narrativa, nós narrativos, os homens-narrativas.

Cecília ficou nas monogramas, nos caligramas, nos monográficos. Nas abreviaturas, nos traços apagados, delineados de um carbono pautado, de um carbono treze, quatorze, manuscrita e manuseada.

Cecília era a pontuação. Sai de um conto e doutro e nada te conta nunca do conto. Ela era as reticências que fazem as linhas retas desses cantos. As linhas retas dessas setas. Era a voz que pragueja e deseja o desejo de ser toda conto e boca.

– Sou um ponto torto, um conto tonto, um conto e tanto; pelo menos tento. Contorno e entorno o bicho. O bicho e o lixo em que me abrigo. O bicho que faz de mim morada. Poderia dar muito de mim, mas não dou é nada, a não ser minhas palavras na voz errada, na voz errante, minhas pernas cruzadas e descruzadas. Dou minhas pernas abertas por onde vazava a menina do meio das pernas da menina que gozava no pasto e me fazia distante. Me fazia gargalhada, pessoa que gargalha. Me fazia dar a risada dada. A risada dantes, a gargalhada.

Primeira vez, cuja praga se fez:

– Lá fora, o mundo é um cataclismo de beijos e o céu plana deserto no mundo dos eventos. Faça vento, faça vento …

De repente acordou encantada. Tudo em volta era borrado e lambuzado. Só havia pasto, retrato, arado e o amor cama. Tudo amado estava desamarrado, sem fronteiras. Tudo era borralho, borrão e precisava de borracha. Tudo era garrafa e precisava de óculos fundo de garrafa. Tudo precisava ser rearmado. Realejo. Rearranjado. Precisava da precisão carto métrica da régua milimétrica. De Cecília milimétrica. Métrica. O copista declinou e declamou:

– Deseja substituir Cecília existente? Deseja responder agora, ou mais pra frente?

Cecília ultrapassou a trapaça do medo, fez um dedicato ergo e sentiu o peso do mundo. Saiu de uma peça musical com pequenas canções e poemas recortados, recordados de uma cartilha muda. Uma cartilha que falava por ela:

– Como nunca sei quem é que escreve lá, eis mais um poema ilegível.

Eis uma narrativa comprida. Cumprida narrativa. Eis mais uma narrativa. Eis a última narrativa.

Conto que Cecília saiu do conto. Disse um verso bem bonito, não disse adeus e foi embora. Era maio. Desmaio flor de maio. Conto que era maio. Tinha orvalho. Desmaios. Desmundos oriundos.

– E o Sr. Seu Pinto?

– Seu Pinto foi cantar de galo em Osten.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Joshua Sortino –  Disponível em: https://images.unsplash.com/photo-1510256506868-484d0db06ee2?ixlib=rb-4.1.0&ixid=M3wxMjA3fDB8MHxwaG90by1wYWdlfHx8fGVufDB8fHx8fA%3D%3D&auto=format&fit=crop&q=80&w=1112

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