A Alcides Werk in memoriam

 

LIÇÃO

De vai e vêm em vai e vêm,

as águas nos ensinaram a rimar.

Por isso também se aprende

lírica na beira do mar.

MARE MONSTRUM

Maior cemitério não há,

e, no entanto, daqui veio a vida:

ambiguidade, eis aqui o seu lar.

BOA ESPERANÇA

Vasco da Gama, na certa,

dobrou o famoso cabo

durante a soneca do gigante de pedra.

VERÃO 86

Mensagem na garrafa? Nunca recebi

Mas uma vez vi na praia erva na lata,

serve?

JANAÍNA

Sonhei contigo:

eu corria na sua direção

e nos abraçávamos

– debaixo das ondas, naturalmente.

EPITÁFIO

A Pampulha ficará pequena,

meu caro jacaré,

sem você em cena.

2015

Não sei o que houve,

só sei que não chovia, não tinha água

pra tomar banho, pra se lavar

e a culpa era dessa tal de Mantiqueira.

Se encontro ela pela rua…

FOTOGRAFIA

Estávamos tão arrumadinhos

que parecíamos bibelôs

e adoro que, enquanto os adultos

olharam para a câmera,

nós derramamos nossa atenção

no laguinho cheio de carpas coloridas.

X DA QUESTÃO

O que aconteceu

com o Aquífero Guarani

que tinha deixado aqui?

TRÉGUA

A onça e a anta,

juntas, unidas

no oásis da mata:

sem caçada,

só cacimba.

BAIXADA

Da pancada ligeira

restaram apenas as pretensas lagoas

na rua tão negligenciada:

Uma hora de chuva, duas semanas alagadas.

ROTINA

Mãos sujas ou lavadas,

pratos e copos usados:

os banhistas privilegiados

da cachoeira encanada

INSÔNIA

Na cama nada macia,

de olhos arregalados

e dentes trincando,

só resta amaldiçoar

a goteira do andar de cima.

CONCRETO

A mangueira rega a calçada

e as plantas sedentas

observam a vida escorrendo.

INFÂMIA

Quarenta anos

quarenta anos e nunca mais

nunca mais a chuva pareceu segura

desde que eles a submeteram ao gotejamento

Foi o quê, seis horas, uma noite naquela cela

água pingando diretamente em sua cabeça

Quarenta anos… nunca mais a chuva…

parece que ainda está

pingando

OS PRÓS E OS AMIN

As casas com as canelas finas mergulhadas no igarapé

e os urubus na outra margem, despovoada,

apenas observam essa triste metamorfose

da água cristalina em piche.

AILTON

Lhe contaram dos rios voadores:

Nenhum sinal de surpresa.

Os Krenak sabem como os rios são geniosos.

SHOW BARRENTO

Na água turva, a transformação:

jacaré vira tronco,

peixe vira folha seca,

tartaruga vira pedra.

E há seres que desaparecem,

como aquela cobra que estava olhando para folha seca.

POROROCA

A onda vem engolindo as margens

Só para depois devolvê-las.

A natureza é uma ilusionista dramática.

GUANDU

Pelo que me lembro,

ele se recusou a cooperar

com os homens sanguinolentos

desse triste lugar:

Cuspia os indigentes nas margens.

TIETÊ

Entre piratas e capivaras,

o fiapo d’água segue tolerando

o concreto paulistano.

DENÚNCIA

Infelizmente, a empresa

só pagou pelos erros

depois que a barragem

não aguentou tanta omissão;

AMAZONAS

O filho pródigo dos Andes

aprendeu com a Boiúna a serpentear;

da floresta é o sangue

do homem, o sonhar.

YARA

Quem ela pega pela mão

não quer mais voltar.

É quando os outros dizem então:

-Aquele um? Encantou-se.

ALQUIMIA

Simples e revigorante,

a poesia aspira ser como a água.

Do chumbo do que é escrito e falado

-que pra muita gente pesa quase nada-

só extraem o elixir alguns poucos iniciados.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Foto: Amazon (1998), Alex Webb.