Tenho medo
que um dia minha cabeça transborde.
Que eu diga palavras
antes delas aprenderem a andar.
Que meus pensamentos,
sempre correndo na frente,
me deixem para trás.
Não sei explicar.
Só sei que às vezes
me sinto uma tempestade
tentando caber
dentro de um copo.
Falo demais.
Penso demais.
Sinto demais.
Me importo demais.
Entrego flores
onde me pediram apenas um aceno.
Acendo todas as luzes
quando talvez bastasse
deixar uma vela acesa.
Sou assim.
Exagero em tudo.
Até no carinho.
E ninguém nunca pede
tanto assim.
Talvez eu seja excesso
num mundo que aprendeu
a viver em doses pequenas.
Tenho a estranha sensação
de que sou amada
enquanto me mantenho pequena.
Como um balão de hélio
preso por uma fita.
Bonito de ver.
Mas inconveniente
se tentar subir demais.
Então me dobro.
Me diminuo.
Me calo.
Aprendo a ocupar
menos espaço.
Mas balões não foram feitos
para permanecer no chão.
E eu também não.
Talvez um dia
ninguém diga nada.
Não batam portas.
Não gritem.
Não discutam.
Apenas diminuam as respostas.
Esqueçam de me contar as coisas.
Demorem para voltar.
Até que reste apenas
o silêncio.
E eu vou saber exatamente por quê.
Créditos na imagem de capa: IA
Doses Pequenas
Wivila Pereira
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História da Historiografia: International
Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
Qualis Periódiocos:
A1 História / A2 Filosofia
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