Moara Tupinambá é artista visual, ilustradora, educadora, comunicadora e curadora natural de Belém (PA), da Aldeia Tucumã Tupinambá do Tapajós. As suas práticas artísticas transdisciplinares convergem desenho, pintura, colagem, instalação, escrita e audiovisual. Sua produção poética e teórica investiga as cartografias da memória, os constructos de identidade, a ancestralidade e os processos de etnogênese e reafirmação do povo Tupinambá na Amazônia contemporânea. Sob essa ótica, sua obra tensiona as fronteiras entre arte, política e pedagogia, configurando-se como um dispositivo de retomada territorial e cultural, e de produção de contranarrativas epistemológicas. Nesse texto, nos dedicaremos à série “Mirasawá”, produzida em 2017 e constituída de colagens digitais e manuais sobre papel, inspiradas no que a artista define como os corpos-floresta, os corpos encantados e a espiritualidade indígena. Trata-se de representações de curandeiras e de lideranças de diversas etnias e que figuram dentre as principais referências no trabalho da paraense no que tange à dimensão política da sua arte. A colagem coexiste com uma gama de outros suportes que refletem o trabalho com a noção fragmentária da memória indígena e que contribui para a sua reconstrução.

A arte contemporânea indígena, é importante dizer, tem um papel fundamental na revisão daquelas consideradas as categorias tradicionais da história da arte ocidental, uma vez que essas últimas trabalham com oposições ou com binarismo, a exemplo da separação entre pintura e escrita ou entre arte e política. A recusa a essas definições bipartidas cria um espaço de denúncia e de retomada. Uma reinvindicação a ser sujeito na História, mas não a partir do que é representado (ou, no caso, categorizado) por outrem. Em sua apresentação de portifólio, Moara se utiliza do conceito de cartografias da memória, que seria não o desenho de mapas geográficos, mas o mapeamento de afetos, corpos e ancestralidade. Essa perspectiva é relevante no sentido de que, nas práticas históricas, os mapas do período colonial buscavam traçar territórios sem que houvesse interesse pelos povos que nele habitavam e com objetivos de exploração. Uma das denúncias feitas através da arte de Moara é, justamente, acerca da visão exótica e estática que o senso comum colonial impôs sobre os povos indígenas da Amazônia, trazendo-os para o debate da contemporaneidade a partir da subversão das ferramentas de controle que mesmo hoje deixam muitas marcas na população indígena brasileira. Moara Tupinambá é uma artista cuja agência multifacetada lhe proporciona, ainda, atuar como transmissora do conhecimento a partir de epistemologias próprias. A curadoria, quando exercida por uma mulher indígena, torna-se uma forma de descentralizar o poder dos museus tradicionais. Na área da educação, sua agência permite a proposição de novas metodologias de ensino e, sobretudo, de preservação cultural.

Mirasawá” (termo que pode ser traduzido como “Povo”) é uma série que traz representações oníricas de figuras reais a partir da estética decolonial. A colagem, linguagem artística muito presente também em murais, confere aos trabalhos a expressão de manifesto e de ativismo político. Uma das representadas é a Cacica Raquel Tupinambá, importante líder, pesquisadora e defensora dos direitos ambientais e dos povos indígenas da região de onde veio a artista paraense. Moara também se auto representou na obra “Moara de Mairi”, registrando suas raízes. A série também apresenta fotografias de figuras historicamente marginalizadas, como a das mulheres catadoras de umbu, fruto originário do Nordeste brasileiro que ficou conhecido pela obra de Euclides da Cunha como a “árvore sagrada do sertão”. A crescente invasão dos territórios indígenas e os deslocamentos migratórios também são temas tratados a partir das sensibilidades e da crítica. Nas obras de Moara, as figuras humanas estão cercadas de elementos como frutas, plantas e animais, mas também se vêm cercada de prédios e de trabalho árduo sob o sol quente. O onírico em sua arte é uma forma de chamar a atenção para a realidade que segue não sendo levada a sério e a marginalização dos conhecimentos e dos direitos dessas etnias. Moara traz para um cenário de cosmovisão as contrariedades às quais os povos nativos vêm sendo submetidos historicamente, mas também usa esse espaço para reafirmar o direito de ser e de ocupar. Não por acaso, as proporções das figuras em obras como “Povo Pankararu na cidade” são significativamente maiores do que a do ambiente urbano. Também a guerreira e ativista Tuíre Kayapó ganha uma potente representação, assim como uma mulher do povo Kadiweu e a Mãe Lua.

O conceito de retomada, quando aplicado à obra da artista, nos deixa claro que retomar territórios e direitos implica na retomada das representações de um povo por si mesmo, ou seja, pela retomada da narrativa visual. A produção de Moara atua como um manifesto político de resistência contra o apagamento histórico e contra as violências coloniais que ainda persistem em regiões como a do rio Tapajós. Assim como em Glicéria Tupinambá e as representações do Manto Tupinambá, do qual já tratamos em outra oportunidade, as práticas transdisciplinares de Moara Tupinambá não se restringem a um exercício puramente formalista de composição estética. Elas se configuram, essencialmente, como o que Jaider Esbell (in SILVA, 2025) conceitua como artivismo. Através da justaposição de fragmentos de arquivos históricos, fotografias e memórias afetivas, a artista opera o que Walter Mignolo (2010) define como desobediência epistêmica, fraturando as narrativas lineares e coloniais que historicamente exotizaram os corpos e os territórios amazônicos. Essa produção poética atua, ainda, na chave do que Naine Terena (2022) aponta como a sofisticação política da arte indígena contemporânea: um dispositivo que recusa o estatuto passivo de “objeto de estudo” etnográfico para reivindicar a autoria, a curadoria e a centralidade na produção de contranarrativas. Assim, as cartografias visuais de Moara operam uma dupla retomada tanto da memória coletiva do povo Tupinambá quanto do próprio espaço institucional da arte, transformando a imagem em um território de disputa e de emancipação epistemológica.

 

 

 


Referências:

Ateliê Moara Tupinambá. Disponível em: https://www.moaratupinamba.com/

Acesso em 18 de junho de 2026.

MIGNOLO, W. D. Desobediencia epistémica: retórica de la modernidad, lógica de la colonialidad y gramática de la descolonialidad. Buenos Aires: Ediciones del Signo, 2010.

Prêmio Pipa –Moara Tupinambá. Disponível em: https://www.premiopipa.com/moara-tupinamba/ Acesso em 18 de junho de 2026.

SILVA, Ana Carolina Aguerri Borges da. Memória e artivismo: os feitiços da arte de Jaider Esbell. Revista Fim do Mundo, Marília, SP, v. 5, n. 12, p. 10–36, 2025.

TERENA, Naine. Manifestações estéticas indígenas: pensar o fazer arte indígena no Brasil. Revista Estado Da Arte, 3(2), 457-463, 2022.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Reprodução. Mãe Lua, de Moara Tupinambá, 2017. Prêmio Pipa – Moara Tupinambá. Disponível em: https://www.premiopipa.com/moara-tupinamba/