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Comunicação atual e a política poética das palavras

Em casa com uma psicopata V – Rompi com minhas mãos o meu próprio cordão umbilical

Documentos auto-bio-ficcionais de terror da vida real

Na primeira fotografia da qual se lembra, está deitada dentro de uma incubadora, sendo observada de longe pelo estranho que fez o registro enquanto dorme. Terminava, ali, de se gestar, a si mesma, no interior daquela máquina. Nasceu com cinco dedos em cada mão, mais cinco em cada pé, bem cabeludinha – madeixas amarelinhas -, mas o pulmão conheceu o ar ainda não de todo pronto. Demorou para aprender a respirar.

Nasceu com altura e comprimentos excelentes, mais de 50 cm, mais de 3 kg, algo muito espantoso para quem a via chegar prematuramente ao mundo. Parruda! Aos quatro meses de idade gestacional, o médico que cuidava falou bem sério à gestante:

Desse jeito, ela não vai nascer.

Que jeito? Começava, ali, um peculiar hábito: os alertas médicos eram colocados em prática na sua forma contrária, viravam uma espécie de receituário às avessas, o passo-a-passo para as ações de boicote e sabotagem (e abortagem).

Desse jeito ela não nasce? Pois então é desse jeito que vou fazer para ela não nascer.

 

Um aborto espontâneo… Espontaneamente buscado.

Um dia era muito extenso. Poderia durar 24h, 48h, 72h, em um sono longo, a depender da quantidade de substância disponível. Comer não é prazeroso. Nutrir um alien, um câncer, fazendo uso de suas próprias palavras, que crescia às suas custas, muito menos. Sequer faz sentido. É sem razão de ser. Em todo caso, um aborto interrompe a gestação. Neste, uma gestação interrompeu o aborto.

– “Desse jeito, sem que você se alimente, ela não nasce.” Pois então é de fome que a matarei, antes mesmo que tenha estômago. A matarei como tenho me matado: por inanição.

Instaurava-se, ali, um padrão de comportamento que veio a repetir-se, repetir-se, repetir-se… o que só aconteceu porque, ironicamente, graças a Deus, ela nasceu. Mais quatro meses na incubadora orgânica… Parruda! Mais um mês no aparelho. Bronquítica, mas parruda!

Prontinha. Parrudinha. Cinco dedos. Vinte. Pode ir viver, minha filha. Vai respirar! – Disse o Médico (dos médicos).

Não é mentira. É verdade.

Registrado em cartório, com oferta de fé pública, consta que foi separada às 21h10. Isso aconteceu em uma fria sala do Hospital Geral do Exército de Juiz de Fora (MG), localizado em uma rua que homenageia o General Deschamps Cavalcanti, empossado ministro do Supremo Tribunal Militar em 1938. Deixou o cargo em 11 de novembro de 1940, 10 dias após completar 68 anos, atingindo a idade máxima para o ofício. Natural do Mato Grosso, passou a comandar a 4° Região Militar, cuja sede estava no território juizforano, em 1932. Sua ascensão dependeu de dois eventos: em 1897, foi à Canudos, no sertão baiano, participar da repressão do movimento que teve o profeta Antônio Conselheiro à frente, e, em 1924, foi participar da repressão à Revolta Paulista de 5 de julho. Faleceu em 7 de dezembro de 1957, no Rio de Janeiro, à época Distrito Federal. Já ela, naquele endereço, por Deus, nasceu. E com seu par de cinco dedos, apesar da asma, cortou sozinha o seu próprio cordão umbilical.

Na primeira foto, está sendo incubada. Nunca foi para o colo e nunca mamou aquele peito seco, sem uma gota de leite. A hora não foi golden, foi dark, dark as fuck! Dark as the sky at 9 o’clock, dark as her big brown eyes, dark as a black eyed-peas. Enorme, parruda! Após a novela, Pedra sobre Pedra, ia passar E.T. O Extraterrestre, de 1982, figura filha da imaginação de Steven Spielberg para enfrentar o divórcio de seus pais. E divórcio dos pais? Isso existe? Quero dizer, pais se divorciando dos filhos, travando a típica guerra suja de um divórcio vingativo contra os seus filhos. Existe? É do que se lembrava, vagamente, daquela noite, do E.T., um dedo indicador em riste, enquanto aproveitava a dose gratuita do saudoso e prazeroso opioide, por circunstância da anestesia para a cesárea (anestesia para o corte, anestesia para a faca, anestesia para o divórcio).

Comfortably numb… Pode levar, doutor. Leva, leva! Para sempre. Não? Quantos dedos ela tem? Me deixa dormir.

Cinco dedos em cada mão, cinco dedos em cada pé, não sei se chorou, respirava com dificuldade. Levou tempo para aprender a respirar. Minha casa. Telefone… Peito seco. Fim da metástase. Is there anybody in there? É uma pessoa, um feto, um boneco, um E.T.?Alien 3, de David Fincher, nascendo no mesmo ano. O alienzinho loiro nasceu inacreditavelmente parrudo, mas era verdade. Malfeito feito, e depois, bem feito e bendito. Encontrou o caminho de casa, o telefone. Sua primeira palavra? Biscoito. Era neném e estava com fome.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Pintura autoral.

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