Filha de imigrantes bolivianos, Shirley Espejo é artista, arte-educadora, oficineira indígena Aymara e cidadã brasileira. Sua formação em Gestão de Turismo, obtida no Instituto Federal de São Paulo (IFSP) em 2019, marcou o início de sua produção artística em colagem manual, empregando materiais impressos relacionados ao turismo como suporte inicial. Desde 2020, Espejo desenvolve sua prática artística sob o pseudônimo Espejismo. Sua obra propõe um processo de resgate e ressignificação da identidade indígena em contexto urbano, bem como a representação de outros corpos racializados. Através de exercícios visuais de colagem manual, Espejo desafia narrativas hegemônicas difundidas em mídias impressas e digitais. Atualmente, a artista foi selecionada para integrar a I Exposição e Ciclo de Acompanhamento Artístico da Rede ArteRefúgio. Essa iniciativa é fruto da colaboração entre o grupo de pesquisa CINERE – Trajetórias sem Fronteiras e a Cátedra Sérgio Vieira de Mello UNICAMP/ACNUR, visando a difusão de expressões artísticas no contexto das migrações e deslocamentos humanos.
A escolha do nome artístico de Shirley Espejo é, por si só, um relevante elemento de sua arte. Espejismo, além de se referir às criações e às perspectivas artísticas e de memórias pessoais da artista, também reflete nuances da principal linguagem artística por ela trabalhada: a colagem. A tradução livre do termo espejismo nos leva a uma concepção acerca de miragens, visões distantes, imagens familiares ou não e, no caso do trabalho de Espejo, também nos leva às dimensões históricas e culturais da imigração latinoamericana. Essa dubiedade evocada pela escolha, presente também nos títulos de obras da artista, traz complexidade à sua narrativa. Não de outra forma, a escolha pela colagem como linguagem artística também é trabalhada de formas singulares, com recortes, rasgos e outras caracterizações materiais que compõem os caminhos da memória em seus trabalhos. A questão da geografia do território Aymara nos remete à correspondência com o rio Titicaca, bem como à relação histórica entre o território Aymara e a luta pela resistência e preservação de sua cultura e identidade, profunda e multifacetada, marcada por séculos de desafios e de resiliência. O povo Aymara, originário das regiões dos Andes e do Altiplano da América do Sul (principalmente Peru e Bolívia, mas também Chile e Argentina), enfrentou sucessivas ondas de dominação colonial, mas sempre encontrou maneiras de manter vivas suas tradições, língua e cosmovisão.
A arte de Espejismo traz uma noção de atualização dessas lutas pela identidade e pelos direitos do povo. O ato de deslocar uma imagem, como um retrato, para outra imagem, remete a uma abordagem poética da atualização que, nesse caso, é também um ato de resistência e de transmissão da memória dos períodos coloniais, em que a imigração dos povos indígenas colombianos foi uma forma de escapar aos domínios violentos (física e simbolicamente) da colonização espanhola. O conceito não colonial do Ch’ixi, um aforismo originado do povo Aymara e teorizado pela socióloga boliviana Silvia Rivera Cusicanqui (2018) vem sendo uma ferramenta conceitual que permite analisar, por uma perspectiva crítica, as ideias de mestiçagem, sincretismo e hibridismo cultural, focando na realidade de pessoas com identidade Ch’ixi. A identidade Ch’ixi é descrita por Arteaga (2022) como impactada, justaposta e resultante do fato colonial, coexistindo em diferentes dimensões de pensamento e tempo, reinventando o passado no presente com novas características que se adaptam a diversos contextos, territórios e espaços. Essa condição complexa e paradoxal é apresentada por Espejismo em suas colagens de forma a evocar algum nível de harmonia, dialogando com o que Cusicanqui (2018), que é especialista em composições imagéticas, define enquanto Ch’ixi: o conceito serve, segundo a autora, para admitir a permanente luta na subjetividade desse povo entre o indígena e o europeu.
A atual situação da imigração boliviana, que se iniciou nas décadas de 1980 e 1990 e cresceu exponencialmente, sobretudo na região do estado de São Paulo, torna-se outra dimensão familiar presente na obra da arte-educadora, que habita a Zona Norte da capital paulista. Na contemporaneidade, essa questão segue suscitando discussões acerca da necessidade de melhorias de qualidade de vida e de acesso a direitos. A comunidade migrante boliviana enfrenta, ainda hoje, desafios históricos que dificultam a sua integração social, com destaque à precariedade e à informalidade do trabalho oferecido a essas pessoas. Nas últimas décadas, contudo, tem havido uma crescente organização e uma importante projeção dessa comunidade enquanto protagonistas de sua própria história, com a sua contribuição cultural sendo reconhecida através da mobilização pelo ativismo político e social, pela criação de espaços como feiras e exposições de artigos artísticos e de outras manifestações culturais, assim como através da constituição de associações e de entidades voltadas às necessidades dessa comunidade (SOUCHAUD, 2010; SILVA, 2006).
Questões referentes à experiência instável e insegura no mundo do trabalho para as comunidades migrantes são percebidas nas obras Preocupação pesa (2024) e Imersos (2022). A luta pela reafirmação da identidade indígena, num sentido amplo de mobilização pela visibilidade desses povos e pelo direito à integração social em centros urbanos como o de São Paulo está presente nas obras Ausência (2024), que traz as questões referentes ao apagamento das comunidades migrantes da vida social, política e econômica contribuindo, por conseguinte, para a perda gradual da identidade e da participação ativa nesses campos. Outras obras que nos trazem a questão do apagamento e da resistência nesse contexto são Naira/Ojos (2023) em que, como em muitas obras de Espejismo, os olhos das figuras do retrato, colado sobre uma fotografia de uma estação de metrô ou ônibus, foram tapados com uma tarja. A escolha por esconder ou até mesmo tornar translúcidos os olhos das figuras humanas das obras é um recurso utilizado pela artista para dar destaque ao esvaziamento da cultura e da experiência migrante. Há uma noção que envolve a abdicação das ancestralidades como uma das consequências negativas dos preconceitos experimentados pelos migrantes no processo de integração social. Rostros, obra de 2023, também segue por esse caminho de questionamento acerca do lugar da ancestralidade migrante em localidades marcadas pelas dinâmicas de exclusão do capitalismo e da discriminação étnica. Já em Mapa de Rosto (2023), Espejismo reforça o ativismo pelo reconhecimento das contribuições culturais e das identidades migrantes colombianas na cidade:
Imagem 1 – Mapa de Rosto (2023), colagem sobre papel:

Na obra da artista, há também espaços para as reflexões e imaginários acerca dos intercâmbios culturais envolvidos na experiência migrante, e para as subjetividades e as expectativas que ela aponta, sobretudo, nos processos de deslocamento geográfico dessas populações. A obra Carona no Fila brasileiro (2024), por exemplo, trata dessa questão com sensibilidade e, ao mesmo tempo, evoca os limites das possibilidades desses intercâmbios culturais. O deslocamento é, em Espejismo, inspiração para representar as dores, as dúvidas, os sonhos e as esperanças. Obras como Ojos-cielo (2023), Navegantes (2022), Trayecto (2023), Pentear (2024), Navegador (2023) e Cuida bien al ninõ (2020) nos introduzem a paisagens, personagens e memórias que povoam as composições repletas de histórias da comunidade da qual Espejismo faz parte. A série Rasgos de Mim (2022), à qual muitas das obras que citei acima pertencem, traz já em seu título uma perspicaz dubiedade, uma vez que rasgos, em espanhol, remete a aspectos físicos e/ou de personalidade, traços, características de algo ou de alguém. Em português, a palavra nos leva diretamente à noção da fragmentação, da divisão, do corte, da interrupção e até mesmo da eliminação de uma parte do que foi rasgado. A passagem de um lugar ao outro se torna, no limite, um tempo e um espaço que abre margem para narrativas em que a cosmovisão e o conceito Ch’ixi surgem propondo reflexões acerca da partida da terra nativa para o desconhecido como um movimento realizado externa e internamente.
A seguir, apresento mais algumas obras da artista que seguem por essas concepções:
Imagem 2 – Eu me lembro de passar por aqui (2022), colagem sobre papel:
Imagem 3 – Sou cachoeira/ Choro bastante (2022), colagem sobre papel:
Imagem 4 – Olho pra você e encontro um pouco mais de mim (2023), colagem sobre papel:
Imagem 5 – Sem título (2023), colagem sobre papel:
Imagem 6 – Pájaro Technocolor (2023), colagem sobre papel:
A aplicação de recursos técnicos como o rasgo, a fragmentação, os efeitos visuais de cores e de formas potencializam a composição da artista. A presença da paisagem junto às figuras humanas e aos animais reforçam a noção integrativa entre identidade, memória e história. As atualizações propostas por Espejismo emergem, por fim, como dispositivos artístico-conceituais multifacetados, que transcendem a mera estética para se configurar como um campo de investigação e ressignificação de identidades e memórias. A intersecção com o conceito Ch’ixi de Silvia Rivera Cusicanqui e a representação das experiências de instabilidade no trabalho, apagamento cultural e resistência validam sua produção como um importante aporte intelectual e social, suscitando reflexões profundas sobre a ancestralidade, o deslocamento e a integração em contextos urbanos. Assim, Espejismo se firma como uma voz essencial no panorama da arte contemporânea, contribuindo para a visibilidade e a valorização das trajetórias e das contribuições das comunidades migrantes.
REFERÊNCIAS:
ARTEAGA, Ismael Eduardo Schwartzberg. O estudo da migração desde uma perspectiva Ch’ixi. In: Travessia – Revista do Migrante, n. 94, 2022. Disponível em: https://travessia.emnuvens.com.br/travessia/article/view/1082
CUSICANQUI, Rivera. Un mundo Ch’ixi es posible. Tinta Limon., 2018.
Prêmio Pipa – Espejismo. Disponível em: https://www.premiopipa.com/espejismo/ Acesso em 13 de agosto de 2025.
SILVA, Sidney Antonio da. Bolivianos em São Paulo: entre o sonho e a realidade. Estudos avançados, v. 20, p. 157-170, 2006.
SOUCHAUD, Sylvain. A imigração boliviana em São Paulo. In: Deslocamentos e reconstruções da experiência migrante, p. 267-290, 2010.
Créditos na imagem de capa: Reprodução. Não se pode rasgar ou apagar alguém/ algo que tem raízes, de Espejismo (2023). In: Prêmio Pipa – Espejismo. Disponível em: https://www.premiopipa.com/espejismo/ Acesso em 13 de agosto de 2025.