paim dormiu, não acordou / manheceu / zóim de paim se fechou / paim meu

Chico César

O vô era simples. Era completo. Era complexo. Espectro solar peitoral de chacra aberto. Tinha sido chacareiro. Veio de Trás-os-Montes. Nascido ao pé da Serra da Estrela. Gente do Norte. Bravo, forte.

O vô era queijo de cabra da serra. Antes de chacareiro no Brasil, aldeão em Portugal. Na terrinha, fruto ácido da terra. Em São Paulo, estrangeiro.

O vô ficou doente. Perdeu a chácara. O vô era teimoso. O tio sempre falava que era porque o vô, pai dele e da mãe, tinha vindo de lugar atrasado. Lugar lá de trás. O vô ligava muito para isso. Emburrava, fazia bico, desenhava beicinho na boca, na sua cara fechada.

Era portuga de usar chapeuzinho. Usava bigodes à moda da mãe dele, bigodes à moda da bisa. Trajava, quase sempre, fato ou terno, que era fato de três peças do vestuário masculino. Isso era facto. Factualidade.

Terno, embora bravo, se compunha de camisa, colete, paletó, calça, sapato. Por baixo da camisa, usava sempre camiseta branca cavada. No verão, só camiseta cavada ou camisa de mangas curtas abertas que permitiam que se visse a cavada.

O vô era benzedeiro. Curava bucho-virado, espinhela-caída. Não cobrava. Aceitava doações, oferendas. O vô dissolvia nós por meio dos dedos. Nós de cancro no peito de moça, mulher, mocinha, menininha.

O vô era profano. Europeu, aceso, mesmo que agora citadino. Citadinho. Memória minha contada inventada. Formava fila de gente, na porta de casa, para que o vô as atendesse. A mãe distribuía senhas. Comovida com o dom que o vô tinha. Ela era pequena encantadinha, mas quando brava, rosnava piores venenos de frascos pequenos. A mãe ainda vive. Resuminho de verde em seu corpo muito magrinho.

E o vô não cobrava consulta. Não cobrava nada. Exigia da gente o que exigia. Lealdade, ética. Ele era uma espécie de moralista português. Sempre falava:

– Uma coisa é se dar às vistas; outra, bem diferente, é se exibir.

E criticava quem estudava a ouvir as modinhas do rádio.

O vô via novelas. Dialogava com elas, com os artistas, com as personagens. Concordava, dava broncas.

Fazia massagem na barriga com talco. Essa era para curar bucho-virado. Antes, media os dedos do enfermo, da pessoa com quebranto afetada. Durante a massagem, rezava, dava passe.

O vô quase sempre rezava. E tinha medalha de Nossa Senhora de Fátima. E tinha crucifixo fosforescente que dava medo quando, com luz apagada, no quarto dele este narrador entrava.

O vô chamava este narrador, quando este narrador era este narradorzinho, de: ó, cabeludo! Com aquele sotacão lá que ele tinha.

Espinhela-caída o vô curava com uns puxões no braço esquerdo. O vô era gauche e nem sabia disso. Também media o enfermo pelos dedos para diagnosticar espinhela-caída.

Quando o vô ficou piradinho de arteriosclerose, já não atendia. Não curava mais ninguém, exceto gente da família. E via Jesus Cristo, Jesus Cristinho na sala de casa. Deitava para dormir com “nesta cama me deitei, / sete anjos encontrei”.

O vô fazia quadras. Quando as andava, se perdia de casa. Por duas vezes a radiopatrulha trouxe o vô de volta para casa, esquecidinho que o vô tava.

Ele dizia que este narrador era a alegria da casa. E chamava quem eu namorava de minha secretária.

O vô era homem de contabilizar afetos em porcentagens. Falava:

– Fulano é 100%, sicrano 80%.

E assim por diante.

Era grosso-carinhoso de estirpe. Na invenção de memória deste narrador ele tomava uma branquinha, uma cachacinha. E a branquinha era só dele. O tio não podia beber. Fazia mal para ele qualquer bebidinha alcoólica.

A branquinha era do vô. Ninguém tascava. Ele não deixava não.

O vô era místico. E era profano. No México, este narrador trabalhou como ator de um circo. O vô tinha me emprestado um chapéu lá dele, à moda dos patrícios. No intervalo de uma das apresentações do circo, este narrador comentou, nos bastidores, com um amigo:

– Este chapéu foi o vô que me emprestou, e sei lá se ainda tenho avô.

Quando voltei do México, na escadaria, subindo para entrar em casa, fiquei sabendo da morte do vô.

Vô, a partir dali, tem mais não. Paciência, paciência. Paciência, premonição. Ah, premoniçãozinha sem jeito, com dó, sem lugar direito.

Este narrador perdeu o retrato do vô. Ficou apenas com o chapéu.

O vô era boi de reisado. Foi louvando. Veio louvado. Historinha essa no terreiro da linguagem. No terreno da alegriazinha sem resfriado.

Com o vô este narrador aprendeu a fazer cantiguinhas de chamar alguém. Ontem chamei. E quem disse? Veio não. E vem.

O vô era piada pronta, com a qual este narrador se cala. O vô teve calo num dos dedões dos pés. Cuidou disso; mas, como Santo de casa não faz milagres, decepou o dedão. E disse:

– Ora, pois, não tenho mais calo.

É. Não tinha. Nem calo, nem mais 5 dedos num dos pés.

O vô morava num quarto. Não é mais este narrador quem narra. É Nana, Nina, Nara. Morava numa cabana de Pai Tomás no fundo do sobrado.

Era na edícula que ele morava. Tinha cama, cômoda, armário e banheiro. Era quarto e sala do mestre-sala da benzedeira. Ali, ele atendia. Torcia, destorcia. Era na edícula que o vô passe dava. Por ali, muita gente passou, passava.

Não se engane. Até desenganados o vô salvava. Curava. No quarto-cabana do vô, não tinha desengano, nem mundo às avessas. Não tinha possessão desencarnada. E tinha arte de morrer, tamanho lugar para aprender a viver/morrer. O vô era muito católico, muito carola.

O vô tinha amigos, não apenas clientes, pacientes, gente com olho-gordo mirada. Nem tão somente familiares ou santos ou entidades com ele estavam. Patrícios amigos o vô tinha. Era amigo do Leitão, do Carneiro, do Cabrito; do Zé, do João. O vô, desde que enviuvou, não quis mais saber de mulher. Cachopa só as que davam sopa, e as que tinham caroço no peito para ele dissolver.

Era sagrado. Era profano por outro lado. Ficou, depois que a vó morreu, alcachofra em flor de cuidados.

A mãe cuidou dele até que morreu. O vô era sagrado, era profano. Num fundo de pano vermelho pitanga, o vô se escondeu. Esta historinha é fotografia de árvore. Coisa que este narrador ergueu. Erigiu. Construiu. E pula, agora, no teu colo se é que você a leu.


NOTAS:

[1] Com este conto inauguro a terceira e última parte dos contos desta coluna Benjamin.


Créditos na imagem de capa: ChatGPT