Graduada em Jornalismo com habilitação em Fotografia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Géssica Amorim é natural de Sítio dos Nunes, distrito localizado no Sertão pernambucano. Sua produção visual converge na intersecção entre identidade e território, por onde busca tensionar e registrar o cotidiano, as subjetividades, as nuances lumínicas e a atmosfera sensorial que circundam o espaço habitado. A prática fotográfica configura-se não apenas como objeto de estudo ou ferramenta documental, mas como um lócus de pertencimento. Trata-se de um olhar autoetnográfico direcionado ao Sertão contemporâneo: uma tentativa de apreender a essência de uma espacialidade fluida, dinâmica e em constante ressignificação, que constitui a memória coletiva e a sua própria subjetividade.
A arte de Amorim está situada entre o documental e o poético, realizando ambas as abordagens em uma leitura que mescla identidade, território e histórias. Suas obras autorais contrapõem a tradição fotográfica que parte de olhares exógenos e que, com frequência, carregam estereótipos e preconceitos que se limitam a imagens de secas e das dificuldades experimentadas pelos povos sertanejos. A autoetnografia é, então, o exercício endógeno, que permite à artista assumir seu lugar de fala por meio da representação visual. A relação entre espaço, território e identidade também reside na agência ativa do Sítio dos Nunes. O espaço geográfico deixa de ser mero cenário para se tornar um elemento que contribui para a reafirmação da identidade das pessoas fotografadas. O Sertão não é, entretanto, estatizado: ele é um território de fluxos e de modernidades. É importante mencionar que essa prática tensiona, inclusive, o que é considerado documental, pois essa abordagem seria formada por nada menos do que leituras exógenas transpostas para os domínios do registro técnico ou oficial.
Além da territorialidade, as obras de Géssica Amorim também nos trazem representações democráticas da cultura local ao incluir pessoas e crenças diferentes, coexistindo em um mesmo ambiente e tensionando a noção essencialista que tende a definir a cultura sertaneja de uma forma única. Milton Santos (2006), geógrafo brasileiro, utiliza o conceito de espaço vivido para discutir o espaço enquanto um processo social, uma estrutura que vive e que pulsa e não apenas um receptáculo físico, um mapa estático ou um conjunto de “fixos”, como ele chama os elementos naturais e artificiais. A definição de espaço de Santos me parece dialogar diretamente com a obra de Amorim, uma vez que ambos trabalham o espaço enquanto um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações. Em Amorim, o conjunto de objetos seriam o Sítio dos Nunes, a vegetação, as estradas e as luzes. O sistema de ações seriam as atividades que dão vida a esses objetos, em que poderíamos incluir o cotidiano, as festas, as memórias e mesmo o ato de fotografar da artista. O espaço vivido segundo Santos é aquele que nasce do cotidiano, medido pelo afeto, pela experiência e pelas formas de sobrevivência, elementos presentes nas fotografias de Amorim. Assim, o existencialismo geográfico proposto pelo pesquisador em muito dialoga com a historicidade e a dinamicidade do sertão tal como Amorim o concebe. O olhar de dentro, nesse sentido, é o registro que capta não apenas o que é percebido ou planejado, mas aquilo que foge à cartografia tradicional: as nuances de um espaço que flui, que se movimenta e que nunca acaba.
A ideia de se capturar elementos “invisíveis” é o que confere à obra de Géssica Amorim uma dimensão sinestésica a partir da transposição da imagem técnica ou documental em um campo sensorial e afetivo. Essa estética dialoga, também, com a noção de memória coletiva, que traz o cotidiano para além da representação visual. Se, no dia a dia, vemos a fotografia servindo apenas ao propósito da ilustração e sob leituras que simulam a passividade, na obra da artista vemos um equilíbrio da subjetividade que lhe permite fotografar narrativas autônomas que vão do registro de pessoas e de práticas culturais a representações poéticas da vida no Sertão pernambucano. A obra de Amorim transcende o fotojornalismo contemporâneo e adentra os territórios da narrativa transmídia em que vemos a complementação entre texto e imagem.
O olhar autoetnográfico da artista reivindica a complexidade, a sinestesia e a pluralidade da vivência sertaneja. A produção de Géssica Amorim reposiciona, portanto, o Sertão pernambucano não como um objeto passivo de contemplação exógena, mas como um sujeito dinâmico e pulsante de sua própria narrativa. Ao cruzar as fronteiras entre o rigor documental do jornalismo e a sensibilidade poética da arte visual, sua fotografia materializa o espaço vivido teorizado por Milton Santos e salvaguarda a memória coletiva de Sítio dos Nunes. Sua obra configura-se, então, como um manifesto estético e político sobre o pertencimento, onde o ato de fotografar se torna, fundamentalmente, o ato de habitar.
Referências:PrêmioArt Pipa – Géssica Amorim. Disponível em: https://www.premiopipa.com/gessica-amorim/ Acesso em 21 de julho.
SANTOSFotogr, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. ed. 2. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. (Coleção Milton Santos; 1)
Créditos na imagem de capa:Reprodução. Sem título, de Géssica Amorim. Disponível em: https://www.premiopipa.com/gessica-amorim/
O Sertão de dentro: identidade, território e vivências na fotografia de Géssica Amorim
Paula de Souza Ribeiro Detoni
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Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
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