“Xapiri e anjo habitam dimensões distintas,
mas dançam o mesmo sonho de justiça.
Escutar é o primeiro passo.”
復 Hexagrama 24, do I Ching – O Retorno
Uma palavrinha de advertência — antes que alguém me acuse de simplificações e generalizações. Ou pior ainda, de tentar europeizar a cultura originária sul-americana. ; )
Toda a minha vida tem sido marcada pela busca de conexões improváveis e correlações escorregadias. É uma obsessão da qual não escapo — talvez uma segunda natureza. Ou a primeira.
Este ensaio propõe uma escuta cruzada entre mundos, sem pretensão de síntese ou equivalência — apenas o desejo de tecer pontes simbólicas entre vozes que clamam por justiça de modos diferentes, mas não incompatíveis. Não se trata aqui de equiparar ou traduzir — pelamordedeus! — Kopenawa à lógica ocidental de Benjamin, mas de escutar as ressonâncias que emergem quando diferentes modos de ver o mundo compartilham um mesmo gesto de resistência à destruição.
A teia e os arquétipos
Fritjof Capra, um físico teórico respeitado, tornou-se famoso com seu livro, O Tao da Física, o qual traça paralelos intrigantes entre física de partículas e tradições milenares do oriente. Li esse livro quando jovem e ele me abriu um universo de possibilidades de compreensão. Depois Capra lançou A Teia da Vida, aprofundando os conceitos apresentados no primeiro livro. Em termos simples, o cerne da obra argumenta que a compreensão da vida e da natureza deve ser baseada em redes de relações e padrões de organização, em vez de mecanismos lineares e reducionistas. O livro critica a ciência tradicional por fragmentar o conhecimento em disciplinas isoladas, ignorando as interconexões. Sendo mais explícito, critica o tipo de pensamento inaugurado por Isaac Newton e René Descartes, entre outros.
Carl Jung, psicanalista suíço, muito antes de Capra, desenvolveu o conceito de arquétipo como elemento central de sua teoria psicológica analítica. A noção de arquétipo foi tão impactante no pensamento psicanalítico que se tornou um dos pilares do rompimento de Jung com Freud. Isso porque, segundo Jung, os arquétipos são entendidos como padrões universais e primordiais que compõem o inconsciente coletivo, uma camada profunda da psique compartilhada por toda a humanidade. Eles moldam nossas experiências, comportamentos, mitos, religiões e sonhos. Ou seja, moldam nossa vida mesma.
O encontro improvável
Muito bem, está tudo muito bom, está tudo muito bem, mas… o que tudo isso tem a ver com Kopenawa e Benjamin? Não sou muito apaixonado por Descartes mas, mesmo assim, vamos por partes.
Lendo Desenhos de Escrita — o primeiro capítulo do excelente livro de Kopenawa e Bruce, A Queda do Céu —, comecei a ter a estranha sensação de que algo contido nas palavras escritas em pele de papel me eram de algum modo familiar. À medida em que eu avançava na leitura, mais e mais era como se eu já tivesse lido aquilo de algum outro modo, como se estivesse sendo lembrado, muito embora, ali, as mensagens estivessem embaladas numa simbologia nova para mim. Percebe-se no texto, o esforço de um xamã Yanomami na tentativa de transmitir conhecimento ancestral por via oral, construído pela prática milenar diária no contato com a natureza, recorrendo a um branco letrado na tecnologia de propagar ideias por via escrita — um recurso quase desesperado para ser compreendido. Seu objetivo: evitar a destruição de seu povo pela estupidez do homem branco, que também arrasta consigo a ruína da própria civilização ocidental. Não custa lembrar o que o grande Krenak sempre nos diz:
— Nós já tivemos o nosso fim do mundo. Queremos ver como vocês, brancos, vão se sair com o de vocês.
Não é uma maldição, reconheçamos. Trata-se de uma afirmação recoberta de sabedoria.
O que ele está nos dizendo é: olha pro céu, cara pálida!
No texto do capítulo que abordo, está colocada a crítica à incapacidade do branco para ouvir. A teimosia obstinada e escancarada que se recusa a ver o céu caindo sobre nossas cabeças. Resumidamente, o Xamã reivindica sua tradição oral, alerta para o desastre que se avizinha, tenta resgatar o futuro e a dignidade de seus mortos injustiçados. Ou seja, Kopenawa está dizendo, em bela linguagem simbólica, poética até, carregada de espiritualidade e sabedoria ancestral dos povos da floresta, basicamente, as mesmas coisas que Walter Benjamim escrevia, cem anos atrás. Na nona tese Sobre o Conceito de História, Benjamin descreve o anjo de Paul Klee como uma figura arrastada pelo vendaval do “progresso”, enquanto olha para trás, horrorizado com os escombros acumulados pela história. Esse anjo simboliza a tensão entre o passado — a memória dos oprimidos — e o futuro — a utopia interrompida. Sua impotência diante do progresso linear reflete a crise da modernidade, que silencia vozes em nome do avanço. Na cosmovisão Yanomami, os xapiri são espíritos-xamânicos que “dançam” em rituais para mediar o equilíbrio entre o mundo humano e o cosmos. Eles conectam o visível e o invisível, o ancestral e o presente, agindo como guardiões da floresta e da memória coletiva. Enquanto o anjo de Benjamin é passivo, os xapiri são ativos e reparadores — sua dança é um ato de manutenção da vida, não de luto. E aqui é onde Capra e Jung voltam à cena, como guias que nos ajudam a compreender esse encontro improvável, mas que provavelmente não surpreenderia a nenhum dos dois. Jung estaria sorrindo e Capra e talvez diga: — É a Teia da Vida.
Capra me ensinou que o mundo é uma rede viva e interdependente. Jung me mostrou que carregamos em nós imagens antigas, que atravessam os tempos e as culturas. Kopenawa e Benjamin, cada um à sua maneira, parecem encarnar esses dois princípios: o xamã como aquele que vê a teia e sonha com ela; o filósofo como aquele que escuta os ecos do passado e busca resgatar sua dignidade. O mais espantoso é que essas vozes, completamente apartadas geográfica, temporal e culturalmente, se encontram. Suspeito que Benjamim estaria muito à vontade nessa prosa com Kopenawa.
A escuta como ato político
O anjo da história, com suas asas engolidas pelo turbilhão do progresso, e os xapiri, cujos pés desenham círculos no chão da floresta, compartilham um mesmo dilema: como reparar o mundo quando ele insiste em se autodestruir? Capra diria que a resposta está na rede que os une; Jung, nos arquétipos que os habitam. Kopenawa e Benjamin, porém, nos lembram que a verdadeira teia é feita de escuta — fio invisível que costura vozes aparentemente desconexas em um único canto de resistência.
Por fim, mas em nada menos importante, a percepção dessas conexões nos dá a oportunidade única de desconstruir uma bobagem que o pensamento eurocêntrico criou, muito convenientemente para seus propósitos colonialistas: a concepção de que o pensamento dos povos não europeus deve algo em termos de sensibilidade, elegância, profundidade e sofisticação, apenas por não estar aprisionado em peles de papel. Kopenawa desmonta esse mito com a força que lhe confere seu nome, oriundo das vespas que beberam do sangue do guerreiro que não pode ser morto. E nesse ato, Kopenawa resgata a memória e a dignidade dos que se foram.
Se por um instante as camadas do tempo se cruzassem, talvez víssemos Benjamin, de olhos marejados, ouvindo Kopenawa com a reverência de quem encontra o verso que faltava em suas Teses, enfim, o sentido mais profundo da palavra justiça. Esperançoso de que a modernidade talvez ainda não tenha vencido a última batalha, que o espírito de Arowë, por fim, prevaleça. E que o anjo de Klee ainda possa voar.
O céu não cai de uma vez. Ele desaba em pedaços, aos poucos, enquanto fingimos não ouvir. E nenhum documento de cultura é livre de barbárie — mas todo sonho de justiça é colorido de verde esperança.
NOTAS
[1] Hexagrama 24 – O Retorno (復 – Fù): no I Ching, o Livro das Mutações, este hexagrama simboliza o retorno ao caminho após um desvio, o reinício de um ciclo com base na escuta do que foi deixado para trás. Está associado ao movimento da natureza que se renova — como o sol após a noite mais longa, ou a semente que retorna à terra para florescer de novo. Representa também a possibilidade de reconexão com o que é essencial e verdadeiro. No contexto deste ensaio, evoca o gesto de Davi Kopenawa ao recuperar e oferecer ao mundo a palavra ancestral dos Yanomami, assim como a proposta de Walter Benjamin de redimir os silenciados da história. Ambos, à sua maneira, apontam para o passado como fonte de reparação, e a escuta como um primeiro e decisivo passo.
REFERÊNCIAS
BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 2012. (Obras escolhidas, v. 1)
BRUCE, Bruce Albert; KOPENAWA, Davi. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
CAPRA, Fritjof. O Tao da Física: uma exploração dos paralelos entre a física moderna e o misticismo oriental. 16. ed. São Paulo: Cultrix, 2000.
CAPRA, Fritjof. A teia da vida: uma nova concepção científica dos sistemas vivos. 9. ed. São Paulo: Cultrix, 1996.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000. (Obras completas, v. 9/1)
KLEE, Paul. Angelus Novus. Aquarela sobre papel, 1920. Museu de Israel, Jerusalém.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
I CHING. O livro das mutações. Tradução de Richard Wilhelm e Cary F. Baynes. São Paulo: Pensamento, 1995.
Créditos na imagem de capa: egeo
Erich Georg
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