A poesia de Juliana Sankofa nasce onde os signos da linguagem literária se dobram ao peso do que foi historicamente silenciado. Em um país que erigiu seu imaginário nacional a partir do mito da democracia racial, o fazer poético de Sankofa carrega, como observou Silva (2025, p. 238), “uma tensão profunda de um esforço para transformar o código da linguagem em um campo de luta política e simbólica”. O próprio nome artístico da autora já anuncia essa dimensão simbólica: “Sankofa” é uma palavra- provérbio oriunda da tradição Akan, cujo provérbio associado — “Se wo were fi na wosankofa a yenkyi” — pode ser traduzido, ao pé da letra, como “volte e pegue”, de modo que o fazer poético da autora, “nesse sentido, é gesto que confronta o esquecimento; é insistência em recordar aquilo que a história oficial silenciou” (SILVA, 2025, p. 243).
Ainda sem livro impresso autoral publicado, sua obra circula principalmente em espaços virtuais e coletivos, como seu blog pessoal, Instagram e outras antologias. Como escreve Dutra (2023, p. 2), trata-se de uma produção “à margem da margem”. Sua obra, ainda inédita em circuito editorial formal e impresso, circula como arquivo insurgente: um e-book distribuído em PDF, autoeditado em 2019 sob o título Comovida como o diabo, contendo treze poemas.
Entre os poemas que compõem essa coletânea, encontramos Anúncio que instaura um campo de problematizações, a partir de uma tensão constante entre o lirismo e o enunciado social, entre a singularidade estética da composição verbal e os sentidos históricos que o poema convoca ou refrata. Assim, a tensão entre a elaboração estética e os traços da realidade histórica e material das vozes silenciadas opera aqui como força estruturante do poema.
Neste ensaio, em viés ensaístico e interdisciplinar, proponho uma leitura crítica desse poema de Juliana Sankofa. Gostaria de discutir os procedimentos formais e as estratégias enunciativas que configuram a atitude lírica diante da tematização das relações de trabalho, pois acredito que o poema Anúncio articula, por meio de suas escolhas formais em que os signos se reconfiguram à luz da experiência concreta e das estruturas de exclusão que perpassam o cotidiano, uma operação de desrecalque da racialidade como elemento constitutivo na experiências social de trabalho.
Publicado em 2019, o poema Anúncio (2019) é composto em versos livres, ou seja, sem métrica fixa ou rimas regulares, tampouco disposição estrófica convencionais:
Nunca há vagas,
Mesmo que elas existam.
Há quem prefira assinar minhas costas Ao invés da minha carteira de trabalho.
É preciso ser capacitado
mesmo quando duvidam do seu diploma que atesta que possui o Ensino Superior.
Sem vagas
Pedem-nos que mantenhamos a esperança “O desemprego afeta todo mundo” mesmo que as estatísticas informem
Que todo dia é um pedaço da noite que
perde a função…
(Sankofa, 2019, s./p.).
Como ensinou Candido (2000), liberdade formal não deve ser confundida com ausência de organização, de modo que mesmo sem os recursos convencionais o poema ainda possui uma organização interna que regulam e articulam a linguagem poética:
[…] quando se trata de um poema não-convencional, isto é, sem métrica nem rima, sem pausa obrigatória nem lei de gênero, a camada aparente parece não existir, ou não ter importância. Nós somos jogados diretamente para o nível do significado. No entanto, seria um erro supor que um poema desses não tenha organização. Mesmo que os recursos convencionais de formalização sejam descartados, os códigos continuam a existir. Na análise de um poema “livre”, o objetivo inicial é a própria articulação da linguagem poética – fato mais geral e durável do que as técnicas contingentes que a disciplina nos vários momentos da história da poesia (Candido, 2000, p. 82)
No caso do poema de Juliana Sankofa, essa organização subjacente se revela na cadência sincopada dos versos curtos, elementos como a repetição, a antítese, a interrupção sintática, o encadeamento de imagens dissonantes e nos cortes sintáticos abruptos, que funcionam como marcas expressivas de uma experiência de exclusão social.
O poema mobiliza a função conativa por meio de vocativos implícitos e formas modais de interpelação, ao mesmo tempo em que a função emotiva é realizada por elementos como a repetição de imagens ligadas ao trabalho, à negação de direitos e à frustração social. O vocabulário do poema transita entre o campo jurídico-administrativo (“vagas”, “carteira de trabalho”, “capacitado”, “diploma”, “Ensino Superior”) e o campo subjetivo da frustração e do desamparo (“esperança”, “noite”, “perder a função”). Assim, o campo léxico é meticulosamente organizado para articular dois planos semânticos em tensão: o da racionalidade administrativa do mercado de trabalho e o da experiência subjetiva da exclusão racial. Mas o campo semântico da palavra vaga, por deslocamento poético, se expande: ela passa a significar também lugar social, acesso, visibilidade, direito.
De acordo com Kayser (1976), a poesia lírica se manifesta segundo três atitudes básicas da linguagem, que exprimem diferentes formas de relação entre o sujeito poético (“eu”) e o mundo (o “outro”, o “tu”, ou a própria interioridade). Essas três atitudes são: Enunciação lírica; Apóstrofe lírica; e Linguagem da canção. É possível, portanto, sustentar que o poema de Sankofa realiza uma combinação de enunciação lírica (a objetividade social permanece como referente) e apóstrofe lírica, pela forma como o sujeito poético se constrói em relação a um “tu” simbólico — ora como estrutura normativa, ora como interlocutor ausente, mas cuja ausência molda a forma e o ritmo da fala. Destaque-se a importância dessa tensão entre o “eu” e o “tu”, que precisa ser melhor examinada, pois ajuda a compor a própria estrutura interna do poema, ou seja, a maneira como a linguagem lírica cristaliza uma atitude diante do mundo. Em Anúncio, temos na composição uma enunciação lírica na qual o eu-lírico se defronta com a realidade objetiva da discriminação racial no mercado de trabalho. Essa enunciação aponta para a estrutura objetiva, trazendo uma atitude “épica” dentro da lírica para expressar a experiência cultural, por um movimento reflexivo em direção a construção de um eu- lírico racializado e uma linguagem lírica que, inscrevendo-se no âmbito da literatura negro-brasileira, operam enfrentamentos ideológicos e simbólicos na utilização da apóstrofe.
Em Anúncio (2019), note-se que a sentença “Nunca há vagas,” surge como um enunciado absoluto, uma negativa categórica que parece prescindir de qualquer justificativa. No entanto, o segundo verso imediatamente corrige essa afirmação, revelando uma contradição essencial: “Mesmo que elas existam”. Desse modo, o poema explicita a especificidade da dimensão excludente do mundo do trabalho, onde, mesmo havendo oportunidade de emprego, estas não se traduzem em acesso efetivo particularmente para a população negra. Essa dinâmica entre afirmação e negação atravessa toda a composição, produzindo um efeito de instabilidade e questionamento.
A ausência de pontuação reforça o fluxo descontínuo da enunciação, como se o poema tropeçasse sobre os próprios interditos de sua fala. Não se trata, portanto, de um poema desestruturado, mas de um texto em que a estrutura emerge da tensão entre o dito e o interdito, entre o que se exprime e o que se recalca socialmente. A leitura é atravessada por quebras e deslocamentos: o uso recorrente de versos curtos e sentenças truncadas cria um ritmo de tropeço, no sentido mais significativo do termo para a sua unidade expressiva: ela encarna, na sua ruptura interna, o colapso social da promessa de inclusão pelo trabalho.
Lendo o poema, encontramos aspas que podem ser compreendidos como figurando a voz do “tu”, em estratégia de Apóstrofe lírica, que se disfarça como um discurso neutro e universal, apagando as diferenças concretas que estruturam a exclusão. A construção sintática do poema Anúncio (2019) dramatiza essa dimensão. O uso da segunda pessoa do plural em “Pedem-nos que mantenhamos a esperança” inscreve o sujeito poético em uma coletividade que é coagida a crer em um futuro que os fatos desmentem. O discurso oficial, representado na fala entre aspas — “O desemprego afeta todo mundo” —, surge como uma tentativa de diluir a especificidade da exclusão econômica, equiparando injustamente realidades distintas.
O poema mobiliza, assim, em sua conformação estética a falsa promessa de inclusão. Chamo a atenção, aqui, para como o lirismo consegue justamente apontar essa lógica que funciona em busca de despolitizar a questão racial no mercado de trabalho. Anúncio (2019) ao ironizar os vocabulários oficiais do mercado de trabalho, desmascarando a retórica da meritocracia, da esperança e da objetividade técnica, realiza um movimento, na tessitura da linguagem poética, de suspensão do grande Outro. Para Žižek (2010), o grande Outro é justamente essa ordem de garantias sociais e discursivas, de códigos normativos que sustentam a cena da subjetividade — inclusive sua ficção de autonomia. Questionar o grande Outro é suspender o lugar de onde a própria pergunta faz sentido, estabelecendo desde o início a fratura que a lírica encontra sua verdade histórica: os elementos que compõem o discurso profissional não possuem efeito de mediar o sujeito lírico com o mercado de trabalho, de modo que a farsa precisa ser questionada já pelo o que era uma verdade internalizada na subjetividade. Logo no início, a lógica gramatical é perturbada por uma proposição contraditória: “Nunca há vagas, / Mesmo que elas existam.”. Aqui, a conjunção “mesmo que” projeta um enunciado de concessão, mas o que está em jogo não é uma exceção dentro de uma regra — é o avesso da própria lógica que rege o enunciado. A frase “Nunca há vagas” é uma assertiva absoluta. O que o segundo verso faz não é matizar, mas expor a contradição que funda o próprio funcionamento da sociedade excludente: mesmo quando há vagas, elas não existem para determinados corpos. O enunciado simula a argumentação, mas implode a racionalidade argumentativa.
O poema Anúncio (2019) desmonta continuamente o encadeamento lógico das frases. Há afirmações abruptas seguidas de explicações que desmentem, ou ironizam, o que veio antes. A frase inicial — “É preciso ser capacitado” — soa como um mandamento meritocrático. Mas os versos seguintes a desmentem: mesmo o diploma não basta. Há, aqui, uma estrutura de dissonância que se manifesta no plano da lógica sintática: o complemento da oração (“mesmo quando…”) não cumpre sua função de exceção, mas revela a farsa da regra. Nesses versos — “É preciso ser capacitado / mesmo quando duvidam do seu diploma / que atesta que possui o Ensino Superior.”, a estrutura começa como um imperativo — “é preciso ser capacitado” — evocando a forma canônica da ideologia do mérito. A frase inicial é clara, completa, direta. No entanto, ela é imediatamente tensionada por uma oração subordinada concessiva — “mesmo quando duvidam do seu diploma” — que quebra a lógica da premissa. O que está sendo dito, no fundo, é que a “capacidade” não basta. O verso seguinte ainda adiciona mais uma cláusula explicativa (“que atesta que possui o Ensino Superior”), como se tentasse restabelecer uma racionalidade perdida — mas essa explicação surge já inútil, uma repetição defensiva diante da negação institucional da qual o sujeito já é vítima.
Essa sobreposição de estruturas subordinadas, ao invés de robustecer a argumentação, revela uma voz poética que não se dirige a um sujeito concreto — um empregador, um avaliador —, mas a uma instância anônima, opaca, que regula o acesso ao espaço social. Este é o campo de operação do grande Outro, o qual, como Lacan afirma, o lugar do significante que estrutura o desejo (ŽIŽEK, 2016). Tal termo no pensamento lacaniano designa a instância simbólica que estrutura as normas, leis e a ordem social. Para o filósofo esloveno Slavoj Žižek (2016), suspender o grande Outro significa desafiar as leis e normas que definem o sujeito dentro de uma ordem social. De acordo com o autor, uma questão importante é, justamente, refletir sobre “como é possível não apenas de fato resistir, mas também minar e/ou deslocar a rede sociossimbólica existente (o “grande Outro” lacaniano) que predetermina o espaço em que o sujeito pode somente existir?” (ŽIŽEK, 2016, p. 279). Constata-se que o eu-lírico racializado busca suspender o grande Outro, enquanto ordem simbólica que estrutura a sociedade e define os modos de subjetivação, que aparece no poema como um sistema que sustenta desigualdades raciais e de classe sob a pretensa neutralidade.
A falsidade da inclusão ganha potência com a imagem poética — “todo dia é um pedaço da noite” — que funde categorias temporais que, em princípio, se opõem. O dia, tempo da visibilidade e da atividade produtiva, é invadido pela noite, símbolo da obscuridade, do apagamento, da suspensão. E a última oração — “que perde a função…”
— termina o poema com um verbo transitivo direto (“perder”) e um objeto (“a função”), mas a construção fica em aberto pelas reticências, sem pontuação final. O sentido da frase escapa. A “função” é ao mesmo tempo gramatical (da oração que não se completa) e simbólica (do corpo negro precarizado, que perde lugar no mercado de trabalho). A estrutura fragmentada produz um efeito de suspensão, de descontinuidade, que mimetiza a incerteza cotidiana da vida sob o trabalho precário e instável. No seu conteúdo, indica uma permanência de uma dinâmica de viração2.
Consequentemente, produz um deslocamento subversivo: torna o poema um lugar de retorno da racialidade recalcada. “Há quem prefira assinar minhas costas / Ao invés da minha carteira de trabalho”. Esse verso nos remete ao ponto levantado por Kayser (1976) em sua distinção entre as atitudes líricas: aqui, não se trata de uma autoexpressão interior (canção), tampouco de um enunciar sentencioso; trata-se, sim, de uma apóstrofe dirigida a um “tu” ausente, o Outro que regula os códigos do trabalho, da cidadania e do valor. Conforme destacam Zullo e Almeida (2024, p. 211), “os trabalhadores negros continuam ausentes das ocupações que oferecem mais possibilidades de valorização e ascensão social”.
A “carteira de trabalho”, que deveria ser instrumento de formalização da cidadania salarial, aparece como ausência: ela não é assinada, é recusada. E mais: o corpo do sujeito poético se converte em superfície de escritura simbólica — “minhas costas”. O contraste entre “carteira” e “costas” é duplamente semântico: de um lado, opõe legalidade e informalidade; de outro, insinua uma hierarquia racial, em que o corpo negro é inscrito como documento vivo da servidão. A apóstrofe lírica surge no encontro entre subjetividade e objetividade, criando dinamismo na composição de valor semântico- histórico: estabelece a imagem poética a partir da evocação histórica da exploração e desumanização de corpos negros no Brasil, cuja sociabilidade tem origem no sistema escravista-clientelista.
Com isso, o poema Anúncio (2019) a ideia de que as “vagas” existem, mas não estão acessíveis, gera o movimento importante de desrecalque da racialidade no mercado de trabalho, pois na sua conformação estética está uma exclusão sistêmica, a partir da qual os negros são empurrados para a informalidade, mesmo em tempos de expansão econômica. No poema selecionado para leitura, a linguagem poética de Sankofa não opera como representação de uma identidade. Trata-se, portanto, de um desrecalque que implica a estrutura histórico-econômica da formação social brasileira. Para aprofundarmos isso, vale recuperar um argumento de Žižek (2005, p. 36, grifo nosso):
[…] o problema não é simplesmente que, por causa da complexidade empírica da situação, todas as lutas ‘progressistas’ particulares nunca serão unidas, que cadeias ‘erradas’ de equivalências sempre ocorrerão (…) mas sim que as emergências de encadeamentos ‘errados’ são baseadas no próprio princípio estruturante da política ‘progressista’ de hoje de estabelecer ‘cadeias de equivalências’: o próprio domínio da multidão de lutas particulares com sua mudança contínua, deslocamentos e condensações, é sustentado pelo ‘recalque’ do papel- chave da luta econômica – a política de esquerda das ‘cadeias de equivalências’ entre a pluralidade de lutas é estritamente correlativa ao abandono silencioso da análise do capitalismo como um sistema econômico global e à aceitação das relações econômicas capitalistas como a estrutura inquestionável.
A partir dessa crítica, é possível compreender que, longe de articular a racialidade como um marcador de identidade entre outros, o poema opera o desrecalque de sua função estruturante no interior das relações de trabalho no capitalismo periférico brasileiro. Cardoso (2013) demonstrou em seus estudos que as desigualdades raciais que estruturam o mercado de trabalho permaneceram intocadas. A tabela acima evidencia que entre 1996 e 2010, ainda sob a euforia do crescimento e da “mobilidade”, a desigualdade ocupacional entre brancos e não brancos se manteve estrutural.
O poema abre espaço para a irrupção de um conteúdo recalcado pela linguagem hegemônica. O lirismo do poema Anúncio (2019) deixa evidente, assim, que não apenas representa uma queixa individual do eu-lírico, mas uma experiência coletiva racializada dentro do capitalismo brasileiro, desrecalcando uma dimensão fundamental do processo histórico-social brasileiro, ainda não totalmente compreendida conforme assinalam Zullo e Almeida (2024), no estudo que fizeram da situação dos trabalhadores negros no mercado de trabalho brasileiro entre 1982 e 2022. O trabalho dos autores parte de uma percepção fundamental que também atravessa o eu-lírico dos poemas: a negligência do racismo como fator estruturante no mercado de trabalho brasileiro por parte das ciências econômicas e de instituições acadêmicas e internacionais:
Como no Brasil a maior parte das análises sobre o mercado de trabalho não incorpora a fundo o racismo como estrutura estabilizadora das desigualdades, as estatísticas de emprego e renda parecem apenas revelar uma mera desigualdade entre grupos raciais, escondendo os seus mecanismos sociais, culturais e políticos de perpetuação. Perde-se de vista a gravidade do assunto […]. Embora o racismo seja amplamente reconhecido no Brasil, política e cientificamente, ele não foi incorporado em sua profundidade nos estudos sobre o mundo do trabalho, o que revela os obstáculos para se avançar no combate à segregação social no país — que é herdeiro de um dos sistemas de escravidão mercantil mais longevos da história da humanidade (ZULLO; ALMEIDA, 2024, p. 206).
Os autores apontam que, mesmo após décadas de estudos sobre o mercado de trabalho no Brasil, a dimensão racial tem sido sistematicamente marginalizada nas abordagens analíticas. A maioria dos estudos econômicos se limita a reconhecer desigualdades entre brancos e negros, mas evita integrar o racismo como princípio organizador da estrutura ocupacional. Ou seja, isso configura, no plano discursivo e institucional, um verdadeiro recalque da racialidade — uma operação de silenciamento epistêmico, em que a presença do elemento racial é reconhecida apenas de modo parcial, residual, sem força explicativa. O poema de Sankofa, nesse cenário, não apenas tematiza o racismo: ele desorganiza o discurso do recalque, pondo em evidência aquilo que os saberes oficiais tentam manter como subentendido ou periférico. Ele é, por assim dizer, sintoma lírico de um desrecalque histórico.
Outro ponto fundamental na argumentação dos autores é a impossibilidade de se compreender as condições de trabalho no Brasil sem considerar o racismo como uma variável estrutural e dinâmica. A assinatura nas costas, e não na carteira, é imagem perfeita do trabalho negro no Brasil: reconhecido apenas na informalidade, inscrito apenas no corpo, jamais no documento. No estudo de Zullo e Almeida (2024), a análise do vínculo entre industrialização periférica, desindustrialização e crescimento do emprego informal revela que as transformações econômicas globais não apenas mantiveram, mas aprofundaram as desigualdades históricas do país. A consolidação de ocupações de baixa produtividade, aliada à expansão da informalidade, produziu um cenário em que a exclusão dos trabalhadores negros se tornou uma constante, perpetuando um regime de segregação racial sob novas formas. Mais de 60% dos negros ocupados estão entre os mais pobres; os brancos, ao contrário, estão majoritariamente nos decis mais altos (ZULLO; ALMEIDA, 2024). Mas o que os dados dizem, a poesia faz sentir. Os números indicam a estrutura; o poema a expõe como experiência subjetiva do eu-lírico.
Vale também chamar atenção que Anúncio opera a partir de uma temporalidade que precisa ser melhor examinada diante desse aspecto. Há uma dialética temporal que se institui entre o presente contínuo da exclusão (“Nunca há vagas”) e a suspensão de um futuro (“Pedem-nos que mantenhamos a esperança”). A temporalidade da experiência negra no mercado de trabalho é a da repetição da frustração, da recusa, da desqualificação. A ruptura da lógica linear está condensada no verso final: “todo dia é um pedaço da noite que / perde a função…”. “todo dia” torna-se, para esse sujeito lírico racializado, um prolongamento da noite, ou talvez um dia que jamais amanheceu — pois a promessa de inclusão plena sempre se adia. Assim, a vida é dissolvida na noite, símbolo da suspensão e da exclusão, e ambos perdem a função — temporal, social, ontológica.
Ou seja, o poema busca fazer sentir a instabilidade e o descompasso vividos por sujeitos racializados num mercado de trabalho estruturalmente excludente. Nesse processo, identificamos a presença de “traços de uma subjetividade coletiva fundamentados no sujeito étnico do discur-so”, que é uma das características da literatura negro-brasileira, conforme Cuti (2010, p. 12). O desrecalque é a irrupção daquilo que não deveria ter sido dito e que, justamente por isso, explode em forma distorcida, descontínua, inesperada, sintaxe ferida, frases truncadas, como se a lingua-gem do poema tivesse de carregar o peso do que historicamente é interditado e de uma experiên-cia histórica e social de um trabalho que não garante identidade, nem renda, nem direitos.
NOTAS:
1 Doutor em Letras (2024), na área de Estudos Literários, pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Dedica-se à investigação sobre as relações entre literatura e trabalho, entre estética, psicanálise, política e história. Desde 2018, integra o grupo Estudos sobre o Materialismo Lacaniano (UEM/CNPq). Integra também, desde 2024, os grupos Estudos em História e Literatura (GEHISLIT/ PUC Minas) e Literatura e Classes Populares no Brasil (GELIP/UFC – CNPq).
2 Recentemente, Ludmila Abílio chegou a nomear, no campo da sociologia do trabalho, como um processo de subsunção real da viração. Segundo a autora: “viração, tema atual e ao mesmo tempo constitutivo do mercado de trabalho brasileiro desde sua formação. A viração – e remeto-me ao uso que Vera Telles fazia do termo já no início dos anos 2000 – é pouco tratada nos estudos do trabalho brasileiros, inclusive na produção e análise de dados sobre emprego/desemprego; entretanto é constitutiva da vida e da sobrevivência dos trabalhadores de baixa qualificação e rendimento”.
REFERÊNCIAS
ABÍLIO, Ludmila. Uberizacao: subsuncão real da viracão. Passapalavra/Blog da Boitempo, 19 fev. 2017. Disponível em: https://passapalavra.info/2017/02/110685/. Acesso em: 15 jun. 2025
CANDIDO, Antonio. Na sala de aula: caderno de análise literária. 8ª ed. São Paulo: Ática, 2000.
CARDOSO, Adalberto. Ensaios de sociologia do mercado de trabalho brasileiro. Rio de Janeiro: FGV, 2013.
CUTI, Luiz Silva. Literatura negro-brasileira. São Paulo: Selo Negro, 2010.
DUTRA, Paulo. Comovida como o diabo: a poesia (im)publicável de Juliana Sankofa. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n. 70, p. 1-9, 2023.
KAYSER, Wolfgang. Análise e interpretação da obra literária. 6ª ed. Tradução de Paulo Quintela. Coimbra: Arménio Amado, 1976.
SANKOFA, Juliana. Comovida como o diabo. E-book, edição da Autora, 2019.
SILVA, Rafael Lucas Santos da. Fragmentos de uma escrevivência poética: discriminação racial nas relações de trabalho, confronto ao epistemicídio e ancestralidade afro-diaspórica em três poemas de Juliana Sankofa. Palimpsesto – Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERJ, Rio de Janeiro, v. 24, n. 48, p. 237–263, 2025.
ZULLO, Gustavo; ALMEIDA, Pedro. Raça, emprego informal e informalização: uma perspectiva histórica do trabalho no Brasil contemporâneo. CEBRAP, Edição 129 – Volume v. 43, n. 2 – 2024.
ŽIŽEK, Slavoj. Multiculturalismo, ou a lógica cultural do capitalismo multinacional. In: DUNKER, Christian (org.). Žižek Crítico – Política e psicanálise na era do multiculturalismo. São Paulo: Editora Hacker, 2005.
ŽIŽEK, Slavoj. O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política. São Paulo: Boitempo, 2016.
ŽIŽEK, Slavoj. Como Ler Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
Créditos na imagem de capa: A imagem é de Maxwell Alexandre, artista negro. Justamente coloca em cena um sujeito negro segurando uma carteira de trabalho, o que tem tudo a ver com o ensaio. Eu encontrei a imagem no site abaixo.
https://amlatina.contemporaryand.com/pt/editorial/maxwell-alexandre/
Rafael Lucas Santos da Silva
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História da Historiografia: International
Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
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