Olhares desconfiados seguiam todos os movimentos dos rapazes. A caminhonete era coisa exótica no Ingá, onde nem cavalo entrava. O que dizer então daquele trambolho que um dos jovens apoiou sobre os ombros?

A princípio, os pescadores recuaram. Por mais que o mais falante dos forasteiros repetia sempre que não eram gente do coronel Euclides e que estavam ali para mostrar ao mundo o seu estilo de vida, convém não abaixar a guarda. Principalmente diante de um troço que lembrava um fuzil grávido.

-Mostrar a nossa vida aqui pra quem?

-Para as pessoas do Brasil todo.

-E por quê?

-Para compadecerem da sua situação e tentar…

-Muito agradecido, mas não precisa não, seu doutor!

Mesmo Seu Raul recusando (e abanando a mão quase no rosto do garoto), o tal porta-voz continuava insistindo que o projeto os ajudaria a vencerem as dificuldades por que vinham passando em todos esses anos.

-Talvez, no mínimo, o filme consiga agilizar o melhoramento da entrada da colônia.

A hipótese conquistou alguns locais, principalmente as mulheres, que puxaram o ancião para um canto para cochichar argumentos enquanto as crianças, curiosas e assustadas, não tiravam os olhos da máquina.

O velho caiçara pediu que voltassem amanhã, que muitos homens ainda estavam no mar e isso era caso de decidir com todos os moradores do Ingá. Enquanto discutiam os pormenores da próxima visita, o sujeito encarregado de segurar a estranha coisa a apontou para as casas de estuque com teto de palha de bananeira. As três primeiras estavam lado a lado e não fosse pela falta de reboco da última era possível dizer que era uma só casa. Logo depois mais casas, só que espaçadas entre si, deixando ver os varais com roupas penduradas, as galinhas ciscando no quintal e panelas e baldes num jirau.

Lembrando-se que viu uma morada um pouco mais sofisticada na direção contrária quando chegaram, o homem se virou e pode identificar através da sua maravilha mecânica uma modesta casa de alvenaria contornada por um muro baixíssimo. De barcos mesmo, as lentes só captaram dois, bem afastados da margem da lagoa. O restante deveria estar pescando agora, suspeitava o jovem.

Então, ele mirou na outra margem, dominada por cananaranas e garças, que estariam ainda empoleiradas nos barcos e troncos caídos desse lado da lagoa não fosse o ronco da caminhonete afugentá-las. O som das ondas, baixo, mas ainda audível, indicava que atrás daquele verde todo estava o mar. Enquanto percorria toda a extensão da lagoa ali mesmo, parado, o rapaz só lamentava que o Ingá seria registrado somente em preto e branco. Jamais seria feita jus a tanta beleza, a tantas cores…

Uma silhueta entre o mato alto, contudo, interrompeu o raciocínio do franzino estudante. Podia ser uma garça, mas se movimentava como um homem e parecia estar olhando diretamente para ele. E essa troca de olhares durou um minuto, pois logo o misterioso ser, homem ou garça, sumiu mato adentro. Roberto levou um susto quando sentiu alguma coisa puxando a sua calça. Era uma criança que queria fazer muito uma pergunta:

-Isso é um rifle, moço?

**

A princípio, o objetivo era sair da capital e finalmente entrar em contato com o “outro Brasil”, produzindo um pequeno filme para ser exibido nas excursões do Centro Popular de Cultura. Paulo tinha o interior do Nordeste em mente, mas como o rendimento da livraria do pai vinha caindo eles tiveram de procurar “a realidade brasileira” o menos distante possível do Rio de Janeiro.

Arraial do Cabo, Macaé, Araruama, Campos dos Goitacazes eram as locações mais cotadas. Quem definiu o rumo da empreitada foi Mário: ele lembrou de um velho caseiro que abastecia a casa de veraneio da sua família em Araruama que se alegrava de finalmente ter saído de Jacundé.

-Lugar de todo tipo de assombração e de miserável!

Quando visitaram a cidade num final de semana descobriram que Seu Honório tinha exagerado: assombração e miserável só no Ingá, esclareceu um transeunte na modesta praça central. Com certeza, a intenção desse senhor com pinta de carola era dissuadir os três jovens de permanecer ali. Mal sabia que eram materialistas de carteirinha.

O caminho estava até bem tranquilo até verem a placa que anunciava “Ingá” e “Mundaréu”. Ali a estrada acabou e os buracos eram tantos que Roberto precisou abraçar a câmera, usando seu corpo como amortecedor para os baques que se seguiram. Os moradores já estavam reunidos na frente da colônia, esperando pelos donos do barulhento carro que vinham sacolejando no trecho sem asfalto.

Não eram os famélicos da terra que os rapazes esperavam encontrar, mas notava-se pelas roupas quase em trapos e nos pés descalços o possível motivo de todos na cidade tomarem-nos como despossuídos. Esses caiçaras representavam talvez um tempo anterior à construção da ferrovia e da rodovia, antes da cidade tentar emular Campos que emulava o Rio que emulava Paris. Um tempo que os jacundenses agora queriam superar.

Paulo fez as apresentações, expôs sua intenção. Apesar dos vinte anos, ele tinha uma poderosa voz de locutor, que cativou aquelas doze pessoas por um minuto, mas a sua aparência de “bacana”, principalmente a camisa social e o sapato sem cadarço atraíram mais olhares (e julgamentos).

-Coronel Euclides… mandou vocês? – perguntou o homem mais velho do grupo, ansioso.

Euclides Barreto seria um nome muito recorrente nas próximas semanas. Praticamente foi o maior responsável pela emancipação de Jacundé de Campos nos tempos do Estado Novo e por isso todo candidato a prefeito precisa lhe pedir a benção.

Quando voltavam para o centro da cidade, para dormir numa pousada que cheirava a pano de prato molhado, o trio sempre descobria algo novo sobre o Ingá. A dona da pensão, uma senhora matrona de cabelo sempre em coque, fazia muitas perguntas e possivelmente tenha sido ela quem contou ao secretário de obras que eles podiam ser “vermelhos”. Emílio Dracena, apareceu pela manhã cedinho na Aurora de Maio para, segundo suas palavras, “recepcionar oficialmente os artistas que escolheram nossa bela cidade como set”. Era um pouco mais velho do que eles, ou talvez tivesse a mesma idade, mas o penteado e as roupas formais o deixavam com um ar mais maduro. Sorridente, pontuava as questões, principalmente as ideológicas, com elogios.

-Estou certo de que rapazes tão elegantes e cultos como vocês não pertencem a nenhuma organização antipatriótica, não é?

Paulo garantiu que eles pertenciam ao movimento estudantil católico, o que acalmou o coração de Dona Salete, que ouvia tudo na recepção. Dracena se dispôs a ajudá-los com recursos da secretaria e se despediu declarando o quanto invejava a bela caminhonete que possuíam.

Dona Salete, orgulhosa da visita do secretário ao seu estabelecimento, deixou claro aos “meninos” que ele vinha fazendo um ótimo serviço, sendo um homem dos mais enérgicos e ocupados do estado e que com certeza ele tiraria Jacundé do marasmo em breve. Mário, que era de todos o menos falante, nessa hora a provocou:

-E será que ele vai asfaltar o caminho para o Ingá?

A mulher frisou os lábios e recuou, demonstrando o incômodo com a alfinetada, mas logo saiu em defesa do seu secretário dizendo que “aquilo ali quanto mais isolado melhor” e que, além disso:

-Dr. Dracena só não mandou asfaltar ali por causa do Coronel Euclides, porque ele é trabalhador sim e não se aperreia com nada!

Naquela mesma noite, quando eles voltaram do longínquo distrito, Salete lhes apresentou um senhor trajado como se tivesse acabado de chegar de um rodeio: chapéu de abas largas, cinto de fivela enorme e botas sujas de cocô de cavalo. Era um sujeito confiável, garantia a dona da pensão, que poderia ajudá-los em seu documentário. E, cutucando-o, ela pediu que ele falasse do Ingá:

-É verdade, um deles matou e os outros tudo acobertaram.

***

Às quatro da manhã, os homens pegavam a tarrafa, atravessavam a lagoa com seus barcos, embrenhavam-se num estreito canal que desaguava no mar e da praia partiam para a pesca de fato, retornando quase no fim da tarde.

Dizendo assim, a pesca parece bem prática, protocolar, mas a atividade dependia de muitas variáveis. O céu estava “limpo”? Dava para ver o cardume? Isso sem falar do mar, que naquele trecho da costa era sempre muito revolto.

A tarrafa nem sempre era a melhor ferramenta. Os caiçaras usavam bastante entre maio e agosto a rede e praticavam a pesca com arrastão, na qual até as mulheres eram incluídas. Nessa modalidade, alguns corajosos se distanciavam da praia, atiravam a rede ao mar e depois retornavam com a outra ponta da malha. Após alguns minutos era a hora de todos puxarem a rede.

O resultado era uma quantidade absurda de peixes e até alguns crustáceos. Mais alimento do que poderiam aproveitar. Como ninguém da cidade compra nada dessa colônia, o que se faz com o que sobra é enterrar os animais na areia ou jogá-los na lagoa para as garças e peixes maiores.

Mas, claro, o arrastão era usado em ocasiões muito específicas pelos moradores do Ingá. Geralmente em virtude das festas juninas ou no dia de São Pedro, padroeiro dos pescadores. No mais das vezes, os barcos só usavam a tarrafa. O resultado é mais escasso, mas o povo da comunidade não se incomoda.

Agora, a lagoa em si borbulhava de peixes. Portanto, por que se arriscar no mar arredio? As respostas variavam: era só impressão que tinha muito peixe ou a pesca de arrastão era mais proveitosa. Ah, e, claro, havia o ururau.

Como explicou Josias, o mais simpático dos pescadores, ururau é um jacaré enorme com escamas duras como pedra, olhos em brasa e que mata por maldade. Diferente do seu primo famoso em Campos, o ururau do Ingá não virava gente, só se confundia com tronco caído.

O monstro já era vivo em 1938 quando o filho de Francisco Rangel morreu. O corpo foi encontrado boiando na lagoa. O mais estranho é que não havia marcas de mordida. Na realidade, o homem parecia em perfeito estado. Era quase como ele, um exímio nadador, tivesse se afogado.

O então chefe de polícia, Euclides Barreto, era muito amigo de Rangel e apurou pessoalmente o caso, interrogando todos os moradores do Ingá. Ângelo vinha supervisionando as obras do pai ali perto e, humilde como era, vivia conversando com os pescadores mesmo depois do serviço.

A testemunha que Salete tirou da manga era policial na época e acompanhou as investigações. De acordo com ele, o pessoal dizia que o rapaz tinha se afogado. Mais detalhes não poderiam dar. Ninguém viu ou ouviu nada. Eles tinham “aquela cara”, segundo o ex-policial. Aquela cara de quem sabe de algo.

Quando o chefe de polícia tomou a frente nos interrogatórios as coisas começaram a clarear. Aí eles já sabiam que o moço tinha ficado até tarde pela redondeza, apesar de pedirem para ir embora. Falavam muito que ali era assombrado, mas Ângelo não acreditava nessas coisas.

-Ainda, vocês vejam só, culpavam a lagoa! – o velho se exaltava no meio do relato – Vinham com essas histórias de espírito e de mundaréu.

De fato, Paulo, Mário e Roberto sempre perguntavam sobre o tal “mundaréu” que alguém tinha pichado na placa na entrada do Ingá. Suspeitavam que fosse o nome antigo da localidade. Nenhum morador se pronunciava sobre o assunto, mas as pessoas na cidade não tinham receio de explicar:

-Dizem que no fundo da lagoa tem um reino, um mundaréu de casas, quase uma cidade mesmo, mas não de gente viva. A alma de quem se afogou lá fica vivendo ali. E em noite de lua cheia, elas até saem de debaixo d’água.

Em pleno século XX e contos de fantasmas ainda povoarem a mente das pessoas era algo que os três jovens concordavam que era o maior símbolo do subdesenvolvimento nacional, mas o depoente não se deteve nesse tópico. Até porque ele e Euclides Barreto tinham certeza de que foi alguém muito vivo que matou Ângelo Rangel.

-Pois bem, descobrimos que o falecido vinha falando bastante com uma moça, por sinal de nome Joana, que era filha de um dos pescadores. Jovem muito linda e que era cobiçada por um outro caiçara, um rapaz meio aluado chamado Irineu. Irineu Tan-tan. Depois de um interrogatório intenso, ele revelou aos prantos que tinha matado o filho do Dr. Rangel por ciúmes.

Mário, cujo pai tinha sido preso e torturado durante a ditadura varguista, sabia muito bem o que “um interrogatório intenso” significava. Ele até esboçou uma contestação, mas pensou por um segundo e voltou atrás. Ao invés disso, queria saber se o acusado ainda está preso na cadeia local.

-O elemento tirou a própria vida dois meses depois do encarceramento. Enforcou-se com os trapos da camisa. Ele era meio aluado, como eu disse.

Os jovens se entreolhavam, compartilhando das mesmas suspeitas sobre a licitude de todo o caso, mas nada falaram. Não desejavam arrumar mais hostilidade, já bastava a dos próprios caiçaras.

-O caso é que todos sabiam que tinha sido o dito cujo, mas ninguém abriu o bico. Isso chateou bastante o coronel Euclides e a todos nós, na verdade. Ainda mais porque o falecido gostava muito deles e estava ajudando o pai e o tio a construírem um mercado de peixes ali mesmo para ajudar o Ingá a crescer, a melhorar…

Naquela noite, eles se encontraram no quarto de Roberto para discutir os rumos do filme e esvaziar algumas garrafas de cerveja. A pauta não poderia ser outra. Eles vieram documentar o cotidiano de trabalhadores e tropeçaram numa trama policial cheia de arbitrariedades.

Com certeza eles falariam da morte de Ângelo Rangel, principalmente porque ela ajudava a entender o isolamento ao qual a prefeitura submeteu a comunidade. E por prefeitura leia-se Euclides Barreto. Paulo, contudo, achava que o foco continuava sendo a realidade atual dessas pessoas, por isso defendeu que o caso fosse resumido em uma nota breve. Mário discordou bastante. Eles tinham o dever moral e político de denunciar o possível assassinato de um homem com distúrbios mentais, um inimputável.

Roberto assistia ao debate como acompanhasse um filme se desenrolando diante de si. Ele não tinha a eloquência de Paulo, nem a inteligência de Mauro. Sempre admirou muito os amigos, invejando principalmente seu nível cultural. A cada argumento que ouvia, sua opinião mudava. Se o tomassem como fiel da balança, na certa pularia pela janela.

O único ponto que o trio concordou foi de que a parte do mundaréu não deveria dar algo mais que uma linha na narração do filme. Por mais que ajudasse a explicar os prováveis motivos de não se pescar na lagoa, não era algo que acrescentava mais sentido à leitura sociológica que estavam fazendo da comunidade. E ainda assim, o mundaréu insistia em vir à tona.


Créditos na imagem de capa: Arraial do Cabo (1960), Paulo César Saraceni e Mário Carneiro.