Esse texto integra a pesquisa “Tempo histórico, sonhos e a pandemia da covid-19: sonhar a morte, narrar o absurdo”, financiado pela FAPEMIG, Demanda Universal 2022.
Cheguei na pia para fazer qualquer coisa lá e a xícara caiu. Quando olhei para trás, a cozinha estava coberta de cacos, era só uma xícara para tanto caco, era um mundo de cacos. Mas eu não estava nem aí. Fui dormir.[1]
L.Rio de Janeiro, em 29 de janeiro de 2021
Era preciso esperar ainda. Mas de tanto esperar, ninguém mais espera – e a nossa cidade inteira vivia sem futuro.
A peste. Albert Camus
Quando iniciei essa pesquisa, motivava-me identificar a complexidade das camadas temporais, das imagens de passados e futuros, não necessariamente conscientes, que se articulavam nessa experiência histórica única. Mas, depois de intenso contato com narrativas oníricas pandêmicas tão distintas e, ao mesmo tempo tão semelhantes, pertencentes a sonhadores próximos e desconhecidos e de diferentes partes do mundo, passei a me perguntar se além de um encontro um tanto óbvio com o sofrimento, com o medo da morte, com as fraturas mais íntimas, encontraria também modos de imaginação da vida para além daquela que conhecíamos até então. Mas, de alguma maneira, ao me perguntar por futuros possíveis, eu me frustrei. Não porque a presença deles não estivesse latente nessas imagens oníricas, mas, como a maioria de meus contemporâneos, ainda não sei imaginá-los e, por isso, torna-se mais difícil vê-los.
Entre os mais de 800 sonhos que tive contato, provenientes de arquivos abertos, de pesquisas de diferentes instituições, dos sonhos de colegas e estudantes que os compartilharam comigo, além de meus próprios sonhos, um particularmente foi o que me exigiu mais atenção porque resguarda uma complexidade curiosa em relação à experiência pandêmica.
Eu andava pelas ruas da Lapa no Rio de Janeiro, havia gente em todos os bares e ruas, uma alegria jamais vista tomava as pessoas, ao mesmo tempo que morriam. Era uma delícia. Tosses e gargalhadas se misturavam, pessoas se abraçavam e caiam rindo e morrendo. Havia um bem-estar e uma aceitação incrível da morte, da boa morte, prazerosa como um orgasmo fatal. Fazia calor e eu ia bebendo dos copos das pessoas que não mais viviam, parecia que minha morte se aproximava quanto mais alegre e à vontade eu ficava.[2]
Barcelona, 23 de março de 2020
Esse sonho, publicado no arquivo Pandemic Dreams Archive, ocorreu doze dias após a Organização Mundial da Saúde declarar oficialmente a pandemia em razão da rápida disseminação do Novo Coronavírus. Trata-se, portanto, de um sonho que repercute as primeiras reações à crise sanitária, num momento em que alguns países começavam a viver o pânico desencadeado pelo crescimento de casos e mortes, ao mesmo tempo em que não se descartava expectativas ingênuas de que a pandemia poderia durar “pouco tempo”. O momento inicial era atravessado por certo pânico e dúvidas sobre o futuro da doença. O/a sonhador/a está em Barcelona. No dia 23 de março de 2020, a Espanha tinha 28.552 casos registrados e uma média de 175 mortes diárias.
Mas quando viram que o caso era sério, lembraram-se do prazer. Toda a angústia que se pinta durante o dia nos rostos se dissolve então, no crepúsculo ardente e poeirento, numa espécie de excitação desvairada, numa liberdade desajeitada que inflama todo um povo.
A peste. Albert Camus
O sonho produz o desvelamento de uma vivência festiva associada à morte desencadeada por abraços, risos, copos compartilhados. Uma cena eufórica, quase carnavalesca que subverte e reage às orientações médicas do mundo da vigília em defesa do isolamento social. O sonho realiza a associação entre a letalidade e o contato físico, ao mesmo tempo em que a experiência da morte é envolvida por uma alegria contagiante disseminada junto ao vírus que está latente nos corpos e nos copos. O que torna esse sonho interessante é o fato dele destoar do afeto do medo e de uma imagem comumente associada à morte em parte considerável do mundo ocidental que é o sofrimento. Nessa atividade onírica, ao contrário, uma euforia e uma alegria atravessam essa vivência e ela se torna um destino possível e profundamente prazeroso. Quanto mais familiar e próxima ao sonhador/sonhadora a morte se tornava, mais feliz e em gozo ele/ela se sente. Não a teme, não ojeriza os corpos caídos, bebe e festeja essa situação e para ela o sujeito se lança e é lançado.
O/a sonhador/a está em Barcelona, mas sua experiência onírica ocorre na Lapa, bairro boêmio do Rio de Janeiro. Esse deslocamento espacial torna o sonho ainda mais instigante, pois podemos confrontá-lo com as cenas posteriores dos bares e das festas no Rio de Janeiro, no Brasil e no mundo que se tornariam comuns a partir de julho de 2020, após o enfraquecimento das medidas de isolamento social e tanto o Rio quanto Barcelona protagonizaram cenas de desrespeito ao isolamento social com festas e a intensa vida boemia.
Em um primeiro momento, esse sonho me chamou atenção pela potente imagem de como algumas pessoas se relacionaram com a pandemia não a partir de um cuidado de seus corpos e de sua vida, mas se expondo à morte. Num segundo momento, no entanto, esse sonho me inquieta por aquilo que ele não diz, por aquilo que ele me permite imaginar. O que me chama atenção nessa experiência onírica é o encontro entre morte e a satisfação. O que diz ambiguamente de um fracasso – de certo niilismo – e de uma oportunidade sobre o modo como nos relacionamos com o futuro em contextos de ameaças.
Os estudos relativos à temporalidade contemporânea a descrevem como marcada pela redução de horizontes de expectativas. Em outras palavras, é como se o futuro não nos despertasse um interesse profundo no que tange à possibilidade de vivermos novas experiências para além das ameaças que constituem nossa vida coletiva. O futuro teria deixado de atuar como uma condição suficiente à nossa mobilização existencial e não impulsionaria para a construção, descoberta e imaginação de outras realidades.
O entendimento da temporalidade contemporânea marcada pela presença de passados que exercem atenção e requisição constantes e pela redução de outros futuros para além daqueles mais ameaçadores, desdobra-se diretamente de uma comparação e diferenciação em relação ao tempo histórico moderno. A temporalidade social da modernidade é caracterizada pela redução da presença de passados e pela redução da capacidade orientadora e exemplar da tradição, o que permitiu ao futuro ter se tornado o lugar para o qual a imaginação e a construção de mundos se voltou. Nesse contexto, a convicção da mudança histórica e do movimento irrevogável do tempo organizava as relações e as expectativas de forma intensa, o que tornou a projeção de mundos antes desconhecidos possíveis de serem imaginados e disputados com vigor.
A relação tanto da modernidade quanto do mundo contemporâneo, embora pareçam inversas, uma mais positiva e outra mais negativa em relação ao futuro, uma mais dependente e outra menos em relação aos passados, estruturalmente mantém uma dependência semelhante dos afetos de esperança e de medo naturalizados como indissociáveis na nossa relação com o futuro e com o tempo de modo geral. Esses afetos que se desdobram em atmosferas otimistas ou pessimistas reforçam certa dependência de uma estrutura temporal linear, ainda que já bastante problematizada, ao transferir para o futuro a expectativa da redenção do sofrimento presente ou temer ir ao seu encontro. Por mais que os estudos da teoria da história reforcem a distância da temporalidade moderna, a imaginação e afetividade histórica no modo de se relacionar com o tempo, ainda opera em termos profundamente lineares e dependentes da estrutura otimismo e pessimismo. No contexto pandêmico, essa combinação afetiva medo e esperança de certo modo se intensifica e ao mesmo tempo colapsa, ainda que contextual e provisoriamente, e o sonho acima captura sutilmente essa fratura.
“Parecia que minha morte se aproximava quanto mais alegre e à vontade eu ficava”. Essa cena contradiz uma relação entre morte e medo. Há um entrelaçamento entre presença da morte e a alegria dionisíaca. Há a evocação de uma potência disruptiva, ambiguamente, (auto)destrutiva, que faz o/a sonhador/a se entregar à morte. Essa alegria e esse estar à vontade diz que o sonhador/sonhadora vai sendo liberado de um compromisso existencial de construção do futuro. O/a sonhador/a relaxa, festeja, confia em um deixar-se morrer. Ele/ela está alegre, está em gozo porque está se emancipando do compromisso de construir a realidade, de projetar futuros a partir da realidade que se apresenta, neste caso, da realidade pandêmica. Se não há medo de morrer, não há esperança em viver, o que reforça um futuro para o qual não queremos ir e a morte torna-se uma opção. O negacionismo político e sanitário vivido e intensificado durante a pandemia pode ser uma das faces dessa relação de um futuro coletivo em crise.
O colapso de certa esperança, no entanto, não é de todo um grande mal. Mas essa face ainda não experimentamos coletivamente. Recorro a Camus: a “privação de esperança e de futuro significa um crescimento na disponibilidade do homem”[3] e o sonho projeta essa possibilidade quando a pandemia coloca o sonhador diante do inescapável: a morte como realidade, o que significa que o futuro é sempre um possível, nunca uma certeza. Se daí emerge uma angústia (que pode levar ao encontro com a morte), nasce também uma emancipação, uma satisfação. O prazer e o gozo postos na cena onírica reafirma a fratura da relação medo-esperança que atravessa a relação com o tempo e com o futuro, especialmente. Isso devolve certa possibilidade de experimentação intensa da brevidade da vida, experimentamos nossa maior fragilidade: a perenidade, mas somada a algum prazer.
Ao aproximar morte e satisfação no contexto pandêmico, essa experiência captura uma contradição e uma tensão que apenas o sonho pode reunir: ausência de um desejo de continuar vivendo e ao mesmo tempo um estímulo para que se viva e que se morra melhor. Se a emancipação da esperança pode ser perigosa porque nos aproxima da morte, a carência dessa esperança, ainda citando Camus, “não equivale a desesperar”[4]. O abandono da espera pelo futuro é perigoso, mas fundamental, se não houver desespero otimista e pessimista em torno dele, pois a partir de algum esquecimento em relação ao futuro é que se pode ter algum prazer pela vida e pela descoberta de outros modos de vivê-la. Gosto de pensar que a prazerosa morte que esse sonhador ou sonhadora encontra é a certeza de um mundo que já não pode mais ser amparado e conservado. É preciso deixá-lo morrer. Não necessariamente para que outros mundos nasçam, numa lógica linear e cumulativa como desdobramento desse, mas para que outros mundos, que convivem com esse, apareçam.
NOTAS:
[1] Sonho 502. Pandemic Dreams Archive. Publicado em 29 de janeiro de 2021. Disponível em: https://archivedream.wordpress.com/2021/01/29/dream-502/ Último acesso: 31/07/2025.
[2] Sonho 03 Pandemic Dreams Archive. Publicado em 23 de março de 2020. Disponível em: https://archivedream.wordpress.com/2020/03/23/ensaios-do-pensamento-poscoronial/ Último acesso: 31/07/2025.
[3] CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, p. 68.
[4] CAMUS, Albert. O mito de Sísifo . Op. Cit., p. 105.
Créditos da imagem: James Ensor – Masks Confronting Death, 1888.
Thamara Rodrigues
Related posts
História da Historiografia
História da Historiografia: International
Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
Qualis Periódiocos:
A1 História / A2 Filosofia
Acesse a edição atual da revista

