Talho no Peito (Árvore Digital, 2026), de Raimundo Brasileiro Augusto, o mais recente livro de poemas do autor e agricultor familiar, trabalha com, principalmente, matérias, assuntos, temas ligados à memória.
Por ser poesia lírica, o “eu” tem voz nos poemas, e é um “eu” maduro, experiente, que acumulou roçados e mais roçados, vivências e mais vivências e experiência com a poesia.
Raimundo é autor de dezenas de livretos de literatura de cordel e de outros três livros de poemas anteriores a Talho no Peito que ora é lançado. Publicou Dia de visitas, O Poeta que não é bicho do outro mundo e Canção do Silêncio, este último também pela Editora Árvore Digital em 2024.
O autor de Talho no Peito cultiva por profissão a agricultura e, por vocação, palavras. Ocorre que não são quaisquer palavras. Raimundo Brasileiro Augusto é poeta nato. Para além do talento com as palavras que planta em solo fértil poético, ele tem a sensibilidade de observar o tempo, dar tempo ao tempo e esperar que os poemas, assim como as plantas, nasçam. É um poeta por excelência.
Para ficarmos apenas nos poemas do livro ora lançado, o leitor verá muitos poemas longos e ritmados, belos, bonitos; poemas, inclusive, políticos, porém não partidários, muito menos panfletários; e outros poemas mais curtos. Políticos na medida em que marcam posição do poeta perante coisas do mundo. É sempre bom lembrar com Aristóteles que o homem (espécie) é um animal político. É neste sentido que o “eu” lírico de Raimundo se põe ao leitor.
É exemplo do que digo os poemas “em memória de Refaat al-Areer” (poeta palestino), inspirado na “Carta aos que não sepultei”; e o poema que vem a seguir a este.
O poema que dá nome ao livro “Talho no peito”, escrito na Casa da Pedra Oca – Praia de Camurupim, RN, Brasil, é exemplo de um dos mais belos do livro. Ao lado deste há outros, como “nascer à beira d’água”, “já não pertenço aos anos que vou somando” etc.
Se em Canção do Silêncio (Árvore Digital, 2024) Carmem Jara escreve o texto de orelha do livro e Isa Ravacci assina o prefácio, em Talho no Peito, Raimundo convoca Agueda Magalhães para prefaciar seu novo livro. Cerca-se, assim, de escritoras sensíveis e perspicazes, que leem sua poesia com olhar técnico e com generosidade.
Para ficarmos apenas no exemplo mais recente, sobre o texto do prefácio de Talho no Peito, Agueda Magalhães filia Raimundo à poesia da Geração de 30 da poesia brasileira. Lembra de poetas como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Vinicius de Morais que, segundo ela, teriam inspirado Raimundo. Para Agueda o poeta de Talho no Peito teria bebido destas (ou nestas) “fontes inesgotáveis”.
A filiação com Vinicius de Morais pode ser entendida por meio da lírica-amorosa, sensual e, por que não, sexual comedida, elegante, não explícita, nem abusiva em muitos dos poemas de Talho no Peito.
Tendo bebido, ou não, dessas águas aludidas, há aspectos poéticos que tem a ver com muito da poesia de Drummond, Cecília e mesmo do “Poetinha” Vinícius. São eles o já mencionado tom (ou a cor) memorialista dos poemas do livro.
Alberico Rodrigues tem Raimundo Brasileiro Augusto como “um de seus poetas preferidos” desde que o conheceu em Canção do Silêncio. O professor e escritor assina o texto de quarta capa de Talho no Peito. Reconhece o”estilo inconfundível” de Raimundo e a “sensibilidade” de poeta no autor Potiguar. Alberico recomenda a leitura, enfatizando a “sapiência que a escrita de Raimundo passa” ao leitor.
O núcleo de Talho no Peito se assenta em essência na memória. O poeta lembra, em muitos dos poemas, do passado, da infância, do tempo vivido. E muita vez o faz por meio do uso da sinestesia, que é aquele recurso de linguagem em que os sentidos (olfato, tato, paladar etc.) são mobilizados individualmente ou em conjunto, ou misturados.
O poema “aos seis anos dei conta de pintar um céu” atesta o memorialismo. Veja: “aos seis anos dei conta de pintar um céu / sobre o chão da minha rua // uma aquarela com traços de Saint-Exupéry / com lua e estrelas / baobás, jiboias e um chapéu / com abas de penas / onde coubessem meus inventos // e assim, pudesse me desplantar do chão / voar acima das torres e nuvens / e pousar nas cabeças dos homens grandes / a leveza das minhas criancices!”
O lirismo aludido pode se verificar, por exemplo, em poemas que tem como temas (ou assuntos) a ausência, a falta, a espera da amada.
Esse aspecto lírico é articulado com o do memorialismo. É sempre na tensão entre a reminiscência, a lembrança e o estado atual, presente, do poeta, na sua maturidade, mas não como revisionismo, nem para reparação de algo que os poemas são compostos.
A rememoração se faz no nível do sentido, do sentimento. É como se o poeta mapeasse, esquadrinhasse seu terreno de onde já colheu frutos e continua colhendo para arar novamente.
Por que Talho no Peito? Porque poesia do sentimento e porque Raimundo sabe que para nascer precisa talhar.
Mini biografia de Raimundo Brasileiro Augusto
Nasceu em 1957, na cidade de Nísia Floresta, litoral do Rio Grande do Norte. É autor de algumas dezenas de livretos de Literatura de Cordel, bem como de outros livros de poemas como “Dia de visitas”, “O poeta que não é do outro mundo” e “Canção do silêncio”. Foi o único brasileiro a participar da coletânea “Alma de poeta, alma inquieta II”, publicada em Portugal, com os poemas “Manhã sem nome”, “Ilusões” e “Busca”. Seus escritos são construídos a partir de sua história de vida, de traços que herdou de seus ancestrais, homens e mulheres nordestinos fortes. Quando escreve, diz Raimundo, manifesta sentimentos de um agricultor que também tem fortes ligações com o mar. Considera, ainda, que a poesia é poderoso instrumento que deve ser usado em prol da paz e da justiça social. É um sentir que se torna cada vez mais profundo à medida que a idade avança, sustentando o homem que é em tudo que pensa e escreve.
Mini biografia de Eduardo Sinkevisque
Eduardo Sinkevisque é mestre e doutor em Letras: Literatura Brasileira (FFLCH/USP). Publicou os e-books Mar dos Dias (Árvore Digital, 2018) e Poemas da Branca (Árvore Digital, 2021). Publicou O Rabo da gaja ou o cu da rapariga (Diário de Clarice) em 2023 pela Editora Patuá. Eduardo publica textos no blogmenos (www.blogmenos.tumblr.com) e colabora em várias revistas acadêmicas e literárias. Atualmente é pesquisador associado do PROAERA/UFRJ. Faz pós-doutorado em Filosofia (PPGF/UFRJ/FAPERJ). Trabalha em consultoria de texto e de pesquisa na área de Humanas. Para contatá-lo: instagram @dudasinke e email esinkevisque@hotmail.com.
Como adquirir Talho no Peito (Árvore Digital, 2026)
Em São Paulo:
Centro Cultural Alberico Rodrigues. Praça Benedito Calixto, 159. (Alberico também envia por encomenda pelos Correios)
Livraria das Perdizes. Rua Bartira, 317.
Com o autor, pedidos por e-mail ou WhatsApp:
rnsjubrasileiro@gmail.com
55 84 8882-4192
Créditos na imagem de capa: Fotografia de Eduardo Sinkevisque. Capa do livro por Edu Dieb.
Eduardo Sinkevisque
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Journal of Theory and History of Historiography
ISSN: 1983-9928
Qualis Periódiocos:
A1 História / A2 Filosofia
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