O corpo, esse conjunto plural de forças, faz-se na história e na sociedade. Quando a sociedade é livre, são também os corpos. Por conseguinte, corpos libertos se expressam em uma sociedade criativa. Acerca disso, a filosofia e a psicanálise nos oferecem algumas chaves-interpretativas para refletirmos a relação corpo-sociedade. Neste sentido, o psicanalista Wilhelm Reich, trouxe-nos interessantes provocações, chegando a causar polêmicas, sobretudo pelas discussões relacionadas a liberdade sexual. Além disso, muitos apontaram para determinado “misticismo” em Reich, que surge nos seus últimos anos de vida, o que levou ao silenciamento acerca das suas contribuições, mesmo que intelectuais como Michel Foucault tenham o incorporado nas suas reflexões.
Além disso, Reich também polemizou quando levantou questões relacionadas a sexualidade da juventude, que segundo ele, eram impelidos a reprimirem seus desejos, o que implicava na formação de adultos enrijecidos e domesticados. O psicanalista também entendia que o próprio capitalismo impelia a sociedade a comportamentos padronizados e repressores. Disso tudo, resultava na constituição de indivíduos com os corpos reprimidos, moldados e instrumentalizados para cumprimento de fins desviantes da própria vida. Por conseguinte, todos esses mecanismos de repressão, desdobravam-se em traços que Reich chamou de couraças e enrijecimento de caráter.
Dessa maneira, denota-se que existe uma relação dialética entre indivíduo e sociedade: o indivíduo, enquanto pessoa humana, só pode existir em relação a um grupo social. Ou seja, a concepção de um indivíduo isolado da sociedade não encontra sustentação. A sociedade, por sua vez, só existe enquanto relação social de indivíduos (Gallo, 2007, p.20). Nesse sentido, como sugere Pereira e Richter (2004, p.1): “há uma reciprocidade na formação das estruturas de caráter da sociedade e do indivíduo, ou seja, o caráter do homem encouraçado produz instituição encouraçadas e vice-versa”. Portanto, para a concepção reichiana, nós estamos diante de um círculo vicioso, que produz e reproduz as dinâmicas própria de um modelo fechado, que aprisiona a vitalidade, vedando as potências. As potências vedadas, por sua vez, retornam ao corpo e a psique enquanto neurose. Neste sentido, Afonso explica que:
Reich enfatizava que as enfermidades psíquicas são as conseqüências do caos sexual da sociedade, que esse caos tem a função de sujeitar o indivíduo às condições dominantes e de interiorizar as dinâmicas externas da vida, tornando o homem totalmente dependente de um código social e incapaz de agir (Afonso, 2005, p.10).
As couraças acumuladas ao longo da vida, tornam-se grandes empecilhos para uma vida plena e, nesse sentido, a abordagem reichiana tem como objetivo reestabelecer a circulação livre das energias vitais. Assim sendo, Reich confiava que “as energias vitais regulam-se naturalmente, quando não tem obrigação ou moralidade compulsiva, que ambas são sinais de existência de impulsos anti-sociais, que são produzidos pela eliminação de uma vida natural e saudável” (Afonso, 2005, p. 10).
Além disso, Reich concebia o indivíduo como uma totalidade, esquivando-se, portanto, da dualidade cartesiana de corpo e alma. O psicanalista compreendia o indivíduo na relação social, esquivando-se também das concepções que tomam o indivíduo como ente isolado. Visto que o corpo, a psique e a sociedade interagem, decorre que as neuroses se manifestam no corpo e na sociedade. Por isso, Reich buscou desenvolver uma psicoterapia holística, levando em consideração:
[…] que todas as doenças, físicas e/ou emocionais, tem origem em bloqueios de energia (a esses bloqueios energéticos chamamos ‚couraças‛) que se formam em épocas específicas do desenvolvimento de cada ser e se fixam em zonas do corpo bem delimitadas. (Kuhn, 2008, p.8)
Em relação as couraças, Reich identificou e categorizou sete regiões onde elas costumam se desenvolver. Estas regiões ele chamou de seguimentos, quais sejam: ocular, oral, cervical, torácico, diafragmático, abdominal e pélvico (Afonso, 2005). Estes seguimentos são resultados de episódios repressores, são traumas expressos no próprio corpo, os quais criam bloqueios para a circulação das energias vitais. Sendo assim, atividades que colocam o corpo em movimento diverso do habitual, são excelentes instrumentos para o rompimento desses bloqueios.
Ademais, Pereira e Richter (2004) salientam que para Reich, todos os indivíduos estão cobertos de duas camadas. A primeira camada, trata-se de uma vestimenta superficial criada pela cultura; a segunda camada, refere-se a uma camada que reveste os impulsos cruéis, as castrações e as privações. Por debaixo dessas camadas, encontra-se a essência da vida, que flui sem a repressão dos desejos: a liberdade. Para Reich, essa essência poderia ser alcançada através do desencouraçamento, que pode ser entendido como o momento terapêutico da libertação das amarras sociais que angustiam.
Algumas dessas questões levantada por Reich, foram já antecipadas por filósofos do século XIX, tais como Nietsche. Em Nietzsche, por exemplo, essa essência da vida, ganha nome de Vontade. Além do mais, Nietzsche também levanta questões sobre a dualidade cartesiana, o que pode ser conferido em um dos capítulos de Assim Falava Zaratustra, sob o título “Dos que Menosprezam o Corpo”, no qual ele afirma:
“Eu sou corpo e alma” – assim fala a criança. E por que não se deveria falar como criança?
Mas o homem já desperto, o sabedor, diz: “Eu sou todo corpo e nada além disso; e alma é somente uma palavra para alguma coisa no corpo”. […] (Nietzsche, 1995, p. 51).
Assim, para Nietzsche a visão dual de corpo e alma, trata-se de uma metafísica que constrói barreiras e, da maneira de Reich, impõe ao corpo uma divisão não existente. Ainda, a própria alma só poderia existir integrado ao corpo, pois do contrário seria apenas uma superstição aniquiladora da vida: “ ele diz que para erguer o enorme edifício metafísico da modernidade bastou a superstição da alma” (Moreira, 2006, p.10).
A metáfora da criança, como a última metamorfose do espírito (camelo, leão e criança), busca dar conta da Vontade enquanto essa pluralidade de forças que se manifestam livremente, produzindo um indivíduo singular que vive, como a criança, sem a preocupação com as amarras sociais. Dessa maneira, Nietsche assinala para um “corpo como multiplicidade de impulsos em luta” (Moreira, 2006, p.11). Trata-se, portanto, de uma “separação entre os domínios fisiológicos e psicológicos e apresenta uma fisiopsicologia‛ (Moreira, 2006, p.11).
Dito isso, sucede-se que a negação do corpo em Nietzsche é praticamente um pecado contra a vida. A domesticação do corpo e a instrumentalização para o comprimento de ordens e objetivos que não sejam relacionados a própria vida, manifestam-se em degenerescências que impedem as produções criativas da vida e adoecem o indivíduo. Nesse sentido que Nietsche, por exemplo, sugere que a dança pode ser um componente essencial para uma educação afirmadora das multiplicidades da vida. E por isso, compreendemos que as práticas artísticas, esportivas e de jogos que fomentam a autonomia e a liberdade, também podem cumprir esse papel, visto que não se realizam por ordens ou objetivos, que não sejam aqueles advindos das próprias vontades do indivíduo.
Por fim, na esteira das considerações de Roberto Freire e João da Mata, podemos apontar a capoeira, dentre as diversas práticas corporais, como exemplo de jogo capaz de reeducar nosso corpo na e para a liberdade, pois “a capoeira mobiliza praticamente todos os músculos do corpo, liberando a energia estagnada” (Freire & Mata, 1993, p.18). Assim sendo, a capoeira pode ser um instrumento eficiente, no sentido terapêutico e pedagógico, pois ao mesmo tempo que pode promover melhorias na qualidade de vida, também pode proporcionar aos indivíduos o conhecimento sobre seu próprio corpo e desenvolvimento de novas sociabilidades. Além disso, visto o paradigma do corpo aprisionado, a capoeira pode ajudar a reabilitar o corpo para a liberdade.
REFERÊNCIAS
AFONSO, Rubens. Um grito de liberdade: de zumbi a Reich. Curitiba: Centro Reichiano, 2005. Disponível em: <www.centroreichiano.com.br/artigos>. Acesso em: 20jan de 2025.
FREIRE, Roberto; MATA, João da. Corpo a corpo (síntese da soma).[S.l.]: [s.e.], 1993.
GALLO, Silvio. Pedagogia libertária e ideologia: vias e desvios da liberdade. Perspectiva, [S. l.], v. 15, n. 27, p. 17–34, 1997. DOI: 10.5007/%x. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/perspectiva/article/view/10563. Acesso em: 18 out. 2024.
GALLO, Silvio. Pedagogia libertária: anarquistas, anarquismos e educação. São Paulo: Imaginário; Manaus: Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2007.
KUHN, Amanda Schmidt. As Técnicas da Vegetoterapia como Ferramenta para o Trabalho Psico-Corporal com Grupos. Centro Reichiano de Psicoteprapia Corporal, Curitiba, 2008. Disponível em: www.centroreichiano.com.br/artigos. Acesso em: 11ago 2024.
MOREIRA, Adriane Belmonte. Corpo, saúde e medicina a partir da Filosofia de Nietzsche. São Paulo: USP, 2006.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra. Tradução de Mário da Silva. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995.
PEREIRA, R, T, V, R; RICHTER, L,M. A saúde emocional desejada por Reich. In: CONVENÇÃO BRASIL LATINO AMÉRICA, CONGRESSO BRASILEIRO E ENCONTRO PARANAENSE DE PSICOTERAPIAS CORPORAIS. 1., 4., 9., Foz do Iguaçu. Anais…Centro Reichiano, 2004. CD-ROM [ISBN – 85-87691-12-0]. Disponível em: https://www.centroreichiano.com.br/. Acesso em: 11out 2024.
Créditos na imagem de capa: (Foto: www.brasileirosnomundo.itamaraty.gov.br)
Jeferson do Nascimento Machado
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