Esta pesquisa partiu de uma questão contemporânea, compartilhada pela comunidade historiadora: por que nós historiadoras/es e professoras/es de História não somos os protagonistas da demanda social por história? Na década de 1980, o historiador francês Jacques Le Goff sustentou em entrevista que, uma observação panorâmica seria suficiente para identificar a procura do grande público por história, levando-o a diagnosticar que “o triunfo da história é inegável”. Todavia, para que não houvesse dúvidas, advertiu prontamente: “quando falei de êxito e de triunfo, falei da História e não do historiador” (Le Goff; Maiello, 2009, p. 11).

Faz meio século que temos, no âmbito da historiografia, refletido sobre a lacuna entre o fascínio pelo passado nas sociedades contemporâneas e o descaminho da capacidade orientadora da história, enquanto disciplina. Ainda que a função pedagógica da história ocupe os currículos das escolas de forma autônoma desde o fim do XIX, foi também nesse contexto que identificamos a ascensão do conceito moderno de tempo, que carrega consigo o experienciar do progresso como motor das sociedades.

Entre o final do século XX e as últimas décadas, a incidência desses questionamentos mobilizou transformações epistemológicas, sobretudo, no que se refere à função social da história e no papel dos profissionais da área na divulgação científica. O ambiente de interação tecnológica, potencializado pela pandemia de COVID-19, foi um dos fatores que contribuíram para o aprofundamento de tais reflexões no cenário brasileiro.

Nesse contexto, surgiu o Publiciza História, em 2020, uma página do Instagram de divulgação científica do conhecimento histórico, que visava não só conversar com vários públicos que se interessam por história, mas também que as/os professoras/es em formação repensassem nosso papel social na atualidade. Enquanto grupo de pesquisa, nossa preocupação principal tem sido tanto denunciar narrativas negacionistas, quanto apontar novos caminhos profissionais voltados à educação histórica que extrapolam o ambiente escolar. Metodologicamente, o Publiciza tem nos ensinado a construir juntos pesquisas sobre os temas que pretendemos divulgar mensalmente, elaborar os roteiros com linguagem adequada às redes sociais, produzir o material imagético ou audiovisual e repensar nossas possibilidades de atuação no mundo contemporâneo.

Diante dessa experiência, tenho procurado, sempre que possível, trabalhar com divulgação científica e histórica pública nas disciplinas que leciono semestralmente. Dentre essas experiências, gostaria de destacar e apresentar o trabalho final elaborado com os estudantes de Memória, História e Patrimônio, no ano de 2023.

A ideia inicial foi de trabalhar com o conceito de “lugares de memória”, do historiador Pierre Nora (1993), como espaços e representações culturais que recriamos com efeito material, simbólico e funcional, por uma necessidade contínua de não poder esquecer. Segundo o autor, algo se torna um lugar de memória somente “se a imaginação o investe de aura simbólica” (Nora, 1993, p. 21).

Pensando nesses termos, propus às/aos licenciadas/os uma reflexão sobre a história do Distrito Federal e os possíveis lugres de memória a serem cocriados e reconhecidos. Cada grupo teve autonomia para escolher um aspecto da história que mais os afetassem na região. Nesse sentido, os temas escolhidos foram: Vila Planalto, Vidas negras e a construção de Brasília, Vila Amaury, Santuário dos Pajés, Religiosidades afrobrasileiras no DF e Praça do Relógio de Taguatinga.

Após pesquisa documental e de campo, as/os pesquisadores elaboraram o roteiro escrito dos vídeos, selecionaram imagens, documentos e matérias audiovisuais para, ao final, montar seus trabalhos de conclusão da disciplina. A apresentação final de todos os grupos foi acompanhada por debates sobre memória, história e a importância de repensarmos espaços de identidade e representação histórica do que nos constitui povo brasileiro e, no cenário proposto, povo do DF.

 

Um novo lugar para Brasília

 

O lugar de memória é um lugar duplo; um lugar de excesso, fechado sobre si mesmo, fechado sobre sua identidade, e recolhido sobre seu nome, mas constantemente aberto sobre a extensão de suas significações.

(Nora, 1993, p. 27).

 

Lugares de memória são também construídos por dinâmicas de poder, que determinam aquilo que se deve lembrar e esquecer. Partindo da proposta de reverberar outras memórias sobre o Distrito Federal, visando enfrentar o conceito de história única em torno de personalidades como Juscelino Kubitschek, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, trabalhamos conjuntamente ressignificando espaços, personagens, narrativas e projetos de existência.

Um ponto muito interessante nesse trabalho foi como a/os estudantes conseguiram partir de análises de fontes e metodologias variadas nas pesquisas. O projeto sobre a Vila Planalto, por exemplo, utilizou as ferramentas da História Oral, para mobilizar a representação da região administrativa enquanto símbolo de resistência dos trabalhadores que construíram Brasília e de seus descendentes pela permanência do local. Leilane Rebouças, que em 1986, aos 10 anos de idade, entregou uma carta ao presidente do país à época solicitando, em nome das crianças da região, a fixação dos moradores em risco de remoção do local, foi entrevistada pelas/os pesquisadoras/es, ali, no espaço que ela ajudou a construir como Patrimônio do Distrito Federal. Pelos relatos recebidos, escutá- la permitiu-lhes “reviver o passado através da experiência do interlocutor” (Alberti, 2004, p. 14). O resultado foi a produção de um material audiovisual1 em que afeto e memória transbordam na construção histórica compartilhada.

Outro trabalho que merece destaque foi o desenvolvido sobre a Vila Amaury2. Pensada como um sonho ousado e revolucionário, essa comunidade foi fundada em 1957 com a missão de oferecer moradia digna aos trabalhadores e trabalhadoras da capital.

Para reconstruir a história desse território, submerso no Lago Paranoá, os pesquisadores mobilizaram um rol significativo de documentos históricos guardados no Arquivo Nacional, no Arquivo Público do Distrito Federal e na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

 

Figura 1: Vila Amaury

Fonte: elaborado pelos estudantes – Herbert Dias, Ismael Cordeiro, Luã Ronyele, Marcus Pereira e Vinícius Cardoso

 

Cientes do poder da narrativa histórica, souberam intervir e atribuir valor aos documentos selecionados, elaborando uma narrativa crítica sobre áreas de periferia que foram silenciadas (ou afogadas) pelo poder. Nesse sentido, denunciaram o discurso das autoridades da época, que representavam a comunidade do Amaury como formada por “vadios e invasores”, salientando a resistência e luta dessas pessoas por moradia digna. Não esquecer os escombros da Vila Amaury, a partir da crítica documental como “produto da sociedade que o fabricou”, torna-se o resultado de um esforço coletivo para que a sociedade brasiliense recrie outras imagens de si própria.

Por fim, destaco o trabalho desenvolvido sobre a Praça do Relógio, de Taguatinga, pelo formato de divulgação e criatividade dos pesquisadores envolvidos. A pesquisa também partiu da documentação encontrada nos arquivos públicos do DF, visando explicar a construção do relógio e sua monumentalização enquanto símbolo da região administrativa.

Aliando ficção artística, rádio, produção musical e linguagem histórica o projeto personificou na figura do radialista Rogério Simão, no fictício programa de abril de 19703, anunciava o presente dos japoneses ao 11º administrador de Taguatinga, Fernando Corassa. Utilizar a produção audiográfica para retratar a história e os movimentos culturais que tornam a praça centro da cultura taguatinguense, foi um movimento muito valioso para promover “encontro de saberes e a ampliação dos públicos do fazer histórico” (Correa; Almeida, 2021, p. 69).

As experiências compartilhadas ao final dessa disciplina foram alentadoras para a crença na capacidade da história, construída eticamente, não só ensinar, mas também refazer vínculos e ressignificar olhares.

*

Quando enfrentava salas de aulas lotadas da educação básica pública e observava certo desinteresse de grande parte dos estudantes pelos conteúdos históricos, além de repensar minhas ferramentas de ensino, sempre me via em uma crise existencial como pesquisadora/historiadora. Queria entender o que havia acontecido nos últimos anos para que, de forma geracional, o interesse pelo passado ou inexistia ou estava diluído em meio a narrativas cinematográficas, ficcionalizadas em obras histórico-literárias (como as inúmeras séries que projetam cenários análogos à Idade Média) e dissimuladas por grupos e Youtubers em usos e abusos de determinados passados.

A história pública foi a forma que descobri nesse caminho de tentar ocupar o espaço na disputa cada vez mais acirrada no nosso presente sobre produção e difusão do conhecimento histórico. Isso implica não apenas repensar a prática historiográfica e ensinada, mas também dominar a nova linguagem digital e estar presente no “novo” espaço público das redes. Compartilhar e construir este movimento em conjunto com as/os pesquisadoras/es em formação é urgente e fundamental.

 

 

 


NOTAS

 

1 O trabalho final pode ser acessado pelo link: https://vimeo.com/834234412?share=copy

2 O link para o trabalho sobre a vila inundada na construção de Brasília é este: https://linktr.ee/vilaamaury

3 Para ver este trabalho, acesse aqui: https://www.instagram.com/simaorgr?igsh=dGkyNXN0OGJoZTdx

 

 

 


REFERÊNCIAS

 

CORREA, L. O.; ALMEIDA, J. R. Rádio e ensino de História: práticas de história pública com audiografias coletivas. In: HERMETO, M.; FERREIRA, R. História pública e ensino de história. São Paulo: SP: Letra e Voz, 2021, p. 69-89.

LE GOFF, J; MAIELLO, F. Reflexões sobre a História. Lisboa: Edições 70, 2009.

NORA, P. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História. São Paulo: PUC-SP. N° 10, p. 12. 1993.

 

 

 


Créditos da foto da capa: Arquivo Público do DF. Disponível em: https://www.agenciabrasilia.df.gov.br/w/tbt-a-historia-do-relogio-que-viajou-continentes-rumo-ao-centro-de-taguatinga?p_l_back_url=webguesttopicostagcidadessortcreateDate-delta40&p_l_back_url_title=Tpicos