Thaís Iroko é uma artista visual e arte-educadora com formação em Agronomia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, que se destaca por sua atuação em importantes movimentos artísticos. Membro do Movimento Nacional Trovoa e do coletivo Ankará, é também conselheira do Instituto Comadre Arte. A essência de sua produção artística reside na técnica do sample, transpondo o conceito musical para o campo visual. Thaís recorta e reaproveita fragmentos de memória, especialmente aqueles vinculados ao corpo e ao território favelado, para ativar um repertório ancestral presente na vivência de indivíduos racializados. Suas criações são uma poderosa reivindicação de existência e memória, um manifesto contra a marginalização e o apagamento das intelectualidades e narrativas de corpos dissidentes. Essa abordagem se insere em um gesto afrotópico, onde a artista imagina e constrói futuros em que a experiência negra e periférica é definida pela potência criativa, pela memória ancestral e pela liberdade de fabular mundos possíveis, e não pela falta. Originária de Costa Barros, na periferia do Rio de Janeiro, Thaís encontrou no grafite sua primeira via de expressão, desenvolvendo sua arte de forma autodidata nas ruas. Atualmente, sua pesquisa se desdobra em diversos suportes que vão da pintura à performance e do vídeo à palavra, todos utilizados como ferramentas para construir narrativas de pertencimento e explorar os múltiplos aspectos da subjetividade negra e periférica.
Para esse texto, gostaria de apresentar concepções sobre três das vídeo-performances de Iroko. A primeira delas é Ritual para adiar o nosso fim, de 2021. A performance se inicia com a artista carregando um carrinho de mão repleto de plantas como a espada de São de Jorge, boldo, dentre outras. Sua caminhada percorre lugares diversos da sua comunidade, nos levando não apenas a observar as complexidades e as particularidades do território, como também nos permite experienciar o tempo e o espaço segundo a perspectiva da artista para a obra. Iroko chega, então, a uma calçada. Utilizando uma tinta vermelha, ela escreve os dizeres “Aqui não está e nem ficará, contemplai seu silêncio não heróico”, na forma de uma espiral. A artista começa a posicionar as plantas em vasos cujo fundo é forrado por moedas e terra, e a seguir, os dispõe em formato de um círculo no chão. Por fim, ela rega as plantas. Dentre as principais referências para essa obra, é possível mencionar Ailton Krenak, cuja obra Ideias para adiar o fim do mundo traz a integração entre memória e natureza como recurso para a conscientização acerca da história, da cultura e da criação das condições de possibilidade para um futuro mais sustentável. Há também a referência a Hélio Oiticica, uma vez que a obra de Iroko também recebe um segundo título em seus registros fotográficos, Contra-bólide Caixa 18. A ideia de Oiticica para os contra-bólides era aprofundar as noções de continuidade, da experiência sensorial e da desmaterialização da obra de arte anteriormente propostas com a série Bólides. Ao referenciar os contra-bólides, Thaís Iroko nos traz uma intencionalidade de não-conclusão e de possibilidade de refazimento de sua obra. A atmosfera ritualística da obra da artista carioca nos lembra também das associações às religiões de matriz africana. Da escolha das plantas à disposição dos elementos, Iroko nos remete aos rituais de proteção e benzimento. A escrita no chão traz ainda a noção de resistência e de pertencimento. É importante destacar o contexto de realização da obra: em 2021, vivíamos a pandemia de COVID-19, em que populações periféricas ficaram vulneráveis diante de diversos aspectos: políticos, econômicos e sociais. Das investidas neoliberais contra a interrupção temporária das atividades de trabalho à dificuldade de acesso a recursos de saúde, as comunidades periféricas cariocas, assim como boa parte dos brasileiros, se viram num momento de incertezas e inseguranças. Sob essa chave de leitura, Iroko trabalha a resistência por meio do cuidado ambiental e da sua relação com a memória local, frequentemente silenciada e, no contexto da pandemia, colocada à margem das propostas de enfrentamento da crise.
Os contrastes entre a vida nas favelas e a vida em regiões privilegiadas reaparece em Faminta, de 2022. A breve vídeo performance gera um incômodo que apenas cresce ao decorrer da sua execução. A começar pelos aspectos visuais e auditivos não-falados, nos vemos diante de uma mesa posta de acordo com as formas consideradas sofisticadas, em um ambiente que reconhecemos, também pela música tocada ao fundo, como um daqueles restaurantes caros, quase inacessíveis ou aos quais reservamos uma data especial para ir como forma de comemoração por algo. O mesmo lugar em que pessoas com maior poder aquisitivo almoçam e jantam regularmente. Mas e quanto às pessoas que não tem condições financeiras de acessar esses espaços? O que dizer da perversa concepção da alimentação como mérito, e não como direito básico? São essas as questões suscitadas pela obra de Iroko. À cena requintada, acompanha um áudio com reflexões acerca do lugar da alimentação em uma sociedade capitalista neoliberal. Onde se incluem as pessoas em situação de rua e os seus direitos à alimentação numa sociedade que prega a desumana ideia da meritocracia e relega essas populações à uma condição de uma qualidade de vida nula? Nos itens dispostos à mesa, encontram-se as palavras: “Estou faminta. Apesar da fome, recursar o alimento podre.” Áudios de relatos de pessoas em situação de rua que trazem a questão da comida como parte da sobrevivência são contrapostos a áudios que retratam a alimentação enquanto uma experiência sensorial através da degustação, criando uma atmosfera conflitante e marcada pelo questionamento à lógica capitalista. O som ou a ambientação sonora dos samples utilizados por Iroko dialogam com as composições visuais e com as narrativas das obras, mais uma vez nos remetendo a experiências imersivas e multissensoriais.
Por fim, a terceira obra a que gostaríamos de nos debruçar é Porta Bandeira do Lembrar, também de 2022. Utilizando roupas brancas, um tecido encobrindo o rosto e uma bandeira, Iroko inicia sua performance com a representação de um andar que lembra a dança das porta-bandeiras, figuras tão conhecidas da cultura carnavalesca brasileira. A artista é mostrada empunhando a bandeira por lugares diferentes da cidade do Rio de Janeiro, indo dos conhecidos pontos turísticos às ruas das regiões periféricas. Em ambos os tecidos da máscara e da bandeira há um rosto estampado que, de início, nos é desconhecido, embora seja o ponto central da representação da artista. Thaís Iroko então inicia sua fala, e logo temos a informação de que a mulher cujo retrato está estampado nos tecidos da máscara e da bandeira é Balbina, sua trisavó. Memória, afeto, ancestralidade e esquecimento são as palavras-chave que norteiam a obra, cuja força e a potência do ato de lembrar realizado através do balanço do estandarte não poderiam ser simplesmente interpretadas ou transpostas em palavras. Convido a todos a conhecerem a obra, que mobiliza questão do apagamento das populações negras e periféricas da História e das memórias coletivas. A recusa em se esquecer da trisavó, assim como a representação do deslocamento por entre locais diversos, perpassa uma noção de continuidade do incômodo, da inquietude, da sensação de injustiça imposta pelo silenciamento e pelo esquecimento. Perpassa também a memória da existência de um sujeito histórico, que viveu e que integrou a sociedade, mas que, vivendo sob opressões políticas, sociais e culturais, não foi lembrada como sujeito. Através de Thaís Iroko, as muitas Balbinas do Brasil são lembradas em um gesto de resistência e de subversão às seletividades da memória histórica do Brasil, sobretudo no que tange às ancestralidades e às dissidências negras.
REFERÊNCIAS
Prêmio Pipa – Thaís Iroko. Disponível em: https://www.premiopipa.com/thais-iroko/ Acesso em 02 de julho de 2025.
Paula de Souza Ribeiro Detoni
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