Era um gosto de terra metálico e húmido. O cheiro de terra molhada, não se parece em nada com o gosto dela. Honestamente não sei o que eu esperava enfiando um tufo de lama molhado no céu da boca, mas anos depois entendi ser um dos sintomas da anemia. Me tratei, mas nunca me esqueci de como o cheiro de chuva me despertava a sedução eminente de morder um bolo de terra. Até hoje, quando o cheiro de terra molhada sobe, alguma coisa dentro da minha boca desperta como um bicho antigo. Uma vontade quieta, insistente, de morder o chão. Nunca mais cedi. Ainda assim, o gosto volta sozinho, como se lembrasse de mim. Por muito tempo eu achei que a anemia tivesse passado. Só depois entendi que a terra tinha apenas esperado eu crescer para voltar a me chamar pelo nome.
Ainda que essas seduções infantis me gerassem experimentações pouco convencionais, eu ainda admiro esse sentir o mundo com a língua. Eu fazia bolos, canecas, montanhas, tudo com lama. Enfeitava com a terra fofa e esbranquiçada que se estendia na beira da estrada, antes da orla da Lagoa de Furnas. Gostava das férias de verão no sul de Minas. Havia um silêncio confortável na liberdade da roça, no farfalhar do milharal, das caminhadas na beira do rio procurando conchas. Eu gostava de imaginar até onde o rio subia nos meses anteriores para que as conchinhas dormissem ali quando o volume descia. Gostava da jangada que ia até o meio do rio. Sentava na beira, equilibrando o peso das minhas irmãs no palete minúsculo que nos mantinha sob a superfície do Rio. Eu aprendi cedo que mais importante que saber nadar é aprender a boiar, a calma e a leveza de permanecer na superfície da água sem perturbá-la, “ela não gosta de movimento brusco”, minha avó gritava da beira do Rio.
Naquela época, eu acreditava que minha vó falava da água.
Hoje eu sei que não.
Eu temia que aquele pedaço de madeira afundasse e me levasse para o abismo barrento debaixo da jangada. Mas bastava ficar quietinha, imóvel como uma folha caída, e o rio parecia ouvir alguma coisa que eu não sabia rezar. Ele me deixava ali, suspensa, como quem segura uma criança pelo pulso dentro do sono.
Nunca contei a ninguém que, às vezes, quando ficávamos tempo demais no meio do rio, o gosto de terra voltava à minha boca. Não vinha da água. Vinha de dentro. Um gosto frio, de moeda esquecida na chuva.
Uma vez perguntei à minha avó se ela já tinha comido terra quando era pequena.
Ela não achou graça. Ficou lá me olhando.
Apenas disse:
— Terra nenhuma chama duas vezes quem não tem obrigação de escutar.
Fui algumas vezes a Furnas antes do rompimento definitivo com meu pai. Mas o tempo afastou de mim, a terra, a família paterna e o gosto do barro.
Me mudei algumas vezes depois disso, cresci, fiz faculdade e fui pra longe, tão longe, que me esqueci do desejo de comer essa terra que eu nunca sei se de fato pertenci.
Minha avó morreu numa manhã sem chuva.
Foi isso que me pareceu errado desde o início. Sempre imaginei que ela partiria durante uma tempestade, com trovões rachando o céu como pratos quebrados. Mas o dia amanheceu limpo, duro, azul demais para uma despedida. Enterraram-na sem mim. Eu só consegui voltar dias depois, trazendo na mala um atraso inomeável.
O sul de Minas me recebeu com o cheiro seco da estrada. Não havia lama. Não havia perfume de chuva. Ainda assim, senti o gosto de terra subir pela boca como se tivesse atravessado a viagem inteira escondido entre os dentes.
O rio estava quase morto. Restava apenas um filete estreito correndo perto da fazenda, um fio escuro costurando o fundo largo e rachado do leito. O resto era barro seco, pedras expostas, marcas antigas de água desenhadas nas margens como cicatrizes claras na pele.
Pensei que fosse tristeza. Luto também seca as coisas. Voltei à casa na ausência de alguém para enterrar. Foi assim que entendi: havia sempre alguém. Alguém que ficava quando os outros iam embora. Desta vez, não havia.
A casa estava intacta. O fogão a lenha vermelho, frio, os restos de lenha antigos. As cadeiras alinhadas, a toalha ainda dobrada sobre a mesa como se a avó tivesse saído para buscar lenha e fosse voltar antes do escurecer. Passei pela cozinha, pelo quarto, pelo quintal, o balanço de corda que meu avô fez num dos verões balançava na brisa leve.
Só encontrei uma desordem silenciosa, essa que se cria na ausência absoluta do outro.
Caminhei até a despensa, preocupada com os alimentos podres que ficariam ali. Ela sempre me pareceu pequena quando criança. Naquela tarde, parecia profunda como um poço. As prateleiras estavam tomadas por potes de vidro, centenas deles, fechados com cuidado e etiquetados com a letra firme da minha avó, nenhum deles era comida. Era um amontoado marrom, que eu demorei a entender do que se tratava.
Datas.
Nomes.
Lugares.
Terra da estrada velha.
Terra da curva do rio.
Terra do milharal queimado.
Terra da enchente de 82.
Terra do fundo da lagoa.
Abri o primeiro pote com a cautela de quem abre uma carta que não era pra mim. O cheiro era fraco, quase inexistente. Ainda assim, a boca salivou antes que eu pudesse impedir. Fechei rápido demais, como se alguém pudesse me flagrar no ato. Fiquei atônita, desconcertada.
Passei a conversar com os vizinhos nos dias seguintes. No começo, perguntava da avó como se perguntasse de qualquer outra pessoa: se estava doente, se sofreu, se deu trabalho. As respostas vinham com silêncio entre uma frase e outra.
Foi Dona Cida quem finalmente disse:
— Sua avó guardava a terra.
Disse assim, como quem informa o clima.
Perguntei o que aquilo significava. Ela deu de ombros.
— Significa que agora ninguém guarda.
Depois disso, as histórias começaram a aparecer, pequenas e tortas, como conchas deixadas pela água quando recua. Descobri que minha avó caminhava pela região depois das chuvas, recolhendo punhados de solo em sacos de pano. Que provava a terra com a ponta da língua antes de guardá-la. Que às vezes passava dias sem sair de casa, escrevendo em cadernos que ninguém via.
— Ritual — falou Glorinha, com desgosto religioso.
— Costume antigo — disse Manuel Pimenta.
— Coisa de família — disse Tonico, encerrando o assunto.
Nessa noite, voltei pra roça desconcertada, sozinha e desejando voltar pra capital, sem terra, sem vazio, sem esse medo desconhecido. Deixei um cigarro na beira da porta pra caipora, e entrei na casa. Eu passei a dormir no mesmo quartinho de criança, um com várias camas, sem acabamento nas paredes, que eu dividia com as minhas irmãs na infância. Fui tomada por um sono súbito, pesado. Nele, eu acordava cercada de terra, na boca, na pele, terra rasa, uma cova minha, particular. Não havia caixão. Apenas peso. Um peso tranquilo, firme, como um cobertor espesso. No sonho, eu respirava terra como quem respira água: devagar, sentindo os alvéolos queimarem, mas sem pânico. Acordei antes do amanhecer, sentindo a garganta seca e a boca cheia de gosto metálico.
Acordei assustada, já era manhã, sol a pino. Fui até a piazinha que ficava do lado de fora da casa, estranhei a mão. Uma linha preta, fresca, na base da unha. Cheirei, e minha narinas identificaram a terra molhada, assentada bem dentro do formato circular.
Passei o dia tentando lembrar se tinha saído durante a noite. Não encontrei pegadas no quintal. Não encontrei lama no chão. Apenas a estrada branca continuava ali, estendida como uma cicatriz antiga, branca demais, clara demais.
Perguntei aos vizinhos se ela sempre fora assim.
Ninguém se lembrava.
Fui até a margem do Rio, queria me banhar naquela água, tirar a terra suja e imunda que parecia brotar de dentro de mim. As conchas continuavam aparecendo longe da água. A jangada ainda estava presa à margem, intacta pelo tempo, com o mesmo nó desengonçado que eu dava quando criança. O rio parecia mais raso, mas ao mesmo tempo mais fundo, como um olho semicerrado observando por baixo das pálpebras. Me banhei por horas sem me sentir limpa, jogava água na cabeça e sentia os grãos de areia grudarem no meu couro cabeludo, quando voltei pra casa tinha aquela mesma sensação de quem deita na areia da praia e sai sem tomar uma ducha.
Chegando no sítio, me lavei, sem sucesso. Resolvi tomar banho no quarto da minha avó, em um chuveiro com a ducha mais forte, contínua. Quando saí do banho percebi que há pelo menos 17 anos não via aquele quarto. O vazio me invadiu como não havia me encontrado até ali.
Chorei sentada na sua cama, na manta de retalhos antiga, mas intacta e estendida. Entendi que sentia profundamente sua falta. E me embrulhei por um tempinho no cheiro dos tecidos e no dela, até que o sentimento agudo passasse. O sol desceu no fim de tarde, e me peguei olhando longe na janela. Virei pro outro lado, a beleza do céu ofendia meu luto. Encarei seu armário de madeira maciça. Antigo e talhado.
Quando eu era criança ele era proibido, minha avó nunca gostou que mexessem nas coisas dela, mas naquele dia vi uma fresta. Ele estava semiaberto, a chave caída no chão, em cima do tapete de macramê enorme e redondo. Tive o ímpeto de trancá-lo novamente, tamanho era meu medo de ser pega olhando. Mas quando encarei a porta, entendi que ela o havia deixado assim pra mim.
Além dos vestidos da minha avó, estampados, bordados, e impecavelmente passados, vi seus óculos, de aro preto, lente grossa. Me lembrei de como eles se levantavam quando ela sorria genuinamente. Os sapatos de salto quadrado, material de couro feito a mão, como não se fazem mais hoje em dia.
Foi então que encontrei os cadernos. Escritos a mão com uma caligrafia bonita, inclinada para a direita e fina. Como neta me senti desrespeitosa em vasculhar os escritos particulares de minha avó. Como Historiadora, não resistiria a sedução do manuscrito.
Os primeiros eram confusos, dispersos. O rio subiu aqui, a terra mudou ali. Catalográfico. Em seguida começava a mudar as letras, algumas de forma, outras arredondadas, todas com o mesmo conteúdo.
“Rita sentiu o chamado da terra hoje, 23 de maio de 1897”
“Santa (minha bisavó) sentiu o chamado da terra hoje, 23 de maio de 1939”.
Mulheres da família eram chamadas para provar a terra. Elas narravam mudanças, identificavam o tipo, a coloração, diziam escutar o que estava enterrado, diziam que iriam acalmar o rio e o chão quando um deles esquecia o próprio lugar. Eram ponte entre o solo e o tempo. E a terra chamava quando algo estava prestes a desaparecer sem nome.
Na última página, a letra da minha avó:
Quando eu não puder mais escutar, alguém vai precisar lembrar.
Naquela noite, o gosto voltou com força antiga. Não era desejo. Era urgência.
Sonhei em mim pequena, sentindo a fome de terra no meio do Rio. Na primeira aurora do dia voltei à jangada. Meu nó tosco cedeu assim que eu toquei a corda
Empurrei o palete pequeno até o filete de água que ainda corria. O rio parecia mais estreito do que nunca, mas o silêncio ao redor era profundo como na infância. Sentei na beira, como fazia antes, deixando o corpo imóvel, leve, obediente. Percebi como o tempo amortece meus aprendizados, a água tentava o tempo todo invadir meu barquinho improvisado. Mas eu segui meio afundada, meio boiando até o meio do rio.
O gosto de terra invadiu minha boca completamente.
E então eu entendi.
Não era vontade de comer terra.
Era a terra querendo falar através de mim.
Mergulhei.
Não para morrer, mas para ouvir.
Debaixo da água rasa, encontrei profundidade. O fundo não era fundo, mas uma memória: pedras deslocadas, ossos de madeira, pedaços de cerâmica, ferragens antigas. Coisas que o rio não carregara embora, apenas cobria em silêncio.
Nomes vieram antes das palavras.
Histórias vieram antes das frases.
Voltei à superfície carregando lama nas mãos como um maço de páginas molhadas.
Passei a escrever.
Passei a perguntar.
Passei a lembrar em voz alta.
Catalogava os solos da região, sabia o gosto de cada parte daquele lugar.
O gosto de terra nunca mais foi embora.
Comecei a guardar potes.
Como a avó.
E, pela primeira vez, quando a chuva caiu, não senti vontade de morder o chão.
Foi o chão que abriu a boca dentro de mim.
Créditos na imagem de capa: https://www.instagram.com/p/CN9nL5sHlIs/?igshid=44tzhxk27za7&utm_source=Pinterest&utm_medium=organic&epik=dj0yJnU9amFCRjRVeTlVR2VYS1ZCR1ZXMTJ0U3ExanFiYXlDQm0mcD0wJm49cFdmVGJBaXFGOU43YzRBcUhNNVkwZyZ0PUFBQUFBR21LR2hj
